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O naufrágio da modernidade

BBK. Bihar. 2022

Nada como uma boa ideia, de preferência simples e com impacto. Muito impacto. Mesmo que seja num ventre mole. Muito mole. A iniciativa Bihar, uma escultura hiper-realista de uma menina a afundar-se na ria de Bilbao, promovida pela instituição financeira BBK (Bilbao Bizkaia Kutxa), conseguiu uma gigantesca notoriedade gratuita no horário nobre da comunicação social ao nível planetário. Antecipando o futuro, em particular a ameaça das alterações climáticas, a campanha nos media, Leão de Prata em Cannes, desdobra-se num anúncio (2:15) e numa curta-metragem (17:01).

Anúncio – Anunciante: BBK. Título: Bihar: Elegir el mañana. Agência: LLYC. Música: Ólafur Arnalds – Only The Winds. Espanha, março 2022.
Curta-metragem – Anunciante: BBK. Título: Bihar: Elegir el mañana. Agência: LLYC. Música: Ólafur Arnalds – Only The Winds. Espanha, março 2022.

De pequenino se torce o destino

Marca: Barbie. Título: The Dream Gap Project. Agência: BBDO San Francisco. Direcção: Karen Cunningham. Estados Unidos, Outubro 2018.

O anúncio The Dream Gap Project, da Barbie, está a ser um sucesso. Merecido. Meninas de tenra idade são as únicas protagonistas. Estou convencido que não existe melhor embaixador para a publicidade do que as crianças. Numa sequência de imagens notável, desempenham o seu papel de um modo brilhante. O objectivo, a igualdade de género desde a infância, é alcançado de uma forma magistral e cristalina.

As mensagens prestam-se a várias interpretações. Será que neste anúncio se enxerta um segundo discurso, uma espécie de “currículo oculto”? Uma vez que o anúncio interpela, principalmente, os pais, permitam que me expresse em conformidade: as nossas filhas precisam de sonhar que podem ser “presidentes, cientistas, astronautas, grandes pensadoras, engenheiras, presidentes de empresas”? Precisam de “ver mulheres brilhantes a ser brilhantes, e ver como chegaram onde estão”? É este o mundo que desejamos para nós e para as nossas filhas? As nossas filhas devem ser galgos a correr atrás das elites? É essa a nossa ideia de felicidade e de realização pessoal?

Choca a discriminação de que são vítimas as meninas: “três vezes menos provável receberem um brinquedo ligado às ciências”; pior, “duas vezes mais provável os pais pesquisarem “o meu filho é sobredotado?” do que “a minha filha é sobredotada”. Há, porém, males que vêm por bem. Na maioria dos casos, quando os pais estimam que o filho é sobredotado, o “privilégio” torna-se num suplício para os filhos e para os professores. É verdade que pode propiciar-se uma predição criadora: o filho, considerado sobredotado, acaba, na prática, por corresponder às expectativas. Mas, na maioria dos casos, a etiqueta de sobredotado converte-se num doloroso equívoco.

 

Voar ou levitar?

Este anúncio da Dell aposta na continuidade (quase sobreposição) da realidade, do sonho e do ecrã. Ajudem! No fim do anúncio, a menina no ecrã voa ou levita?

Marca: Dell. Título: Annie, The girl who could fly. Agência: Y & R New York. Direção:  Peter Thwaites. EUA, Agosto 2012.

Foi você que pediu uma coisa estranha?

O estranho anda à solta. Num anúncio, um coelho oferece-nos, impávido e sereno, meio lugar na sanita. Noutro, uma menina, zombie, assombra-nos com uma mensagem de operadora de telemóveis: “Missing Our Deals Will Haunt You” . O pior é que este pandemónio, que nos perturba sem razão, não vai parar com o Halloween. Não havia necessidade de um coelho intrusivo. Já temos o emplastro, a pantera cor-de-rosa e o Mr. Bean. Tão pouco faz falta uma aberração infantil. Já temos a Alice, o Oskar do Tambor e a possessa do Exorcista. Tanto caos, tanto abismo, tanta estranheza desconcertam-nos. E não há amuleto, alho ou água que nos valha!

Anunciante: Animest Creepy Animation Night . Título: Creepy bunny. Agência: Ogilvy Group. Direcção: Hypno. Roménia, Outubro 2011.

Anunciante: Phones 4u. Título: Little girl. Agência: Adam & Eve, London. Direcção: Garth Jennings. U.K., Outubro 2011.