Sem deus nem soberano

Com os anos, vêm rugas, taras e entorses. Prefiro os promotores (de preferência, discretos) aos defensores (em particular, ostensivos) de causas e direitos. Hipermediatizados, em todo o lado e nenhum, cativa-nos a empatia remota, e a solidariedade retórica. Dedicada a Louis Blanqui, a canção Ni dieu ni maître, de Léo Ferré, ilustra tangencialmente estas impertinentes impressões. Seguem as versões de 1965 e 1973.
| Ni dieu ni maître Léo Ferré | Nem deus nem mestre Léo Ferré |
| La cigarette sans cravate Qu’on fume à l’aube démocrate Et le remords des cous-de-jatte Avec la peur qui tend la patte Le ministère de ce prêtre Et la pitié à la fenêtre Et le client qui n’a peut-être Ni dieu ni maître Le fardeau blême qu’on emballe Comme un paquet vers les étoiles Qui tombent froides sur la dalle Et cette rose sans pétales Cet avocat à la serviette Cette aube qui met la voilette Pour des larmes qui n’ont peut-être Ni dieu ni maître Ces bois que l’on dit de justice Et qui poussent dans les supplices Et pour meubler le sacrifice Avec le sapin de service Cette procédure qui guette Ceux que la société rejette Sous prétexte qu’ils n’ont peut-être Ni dieu ni maître Cette parole d’Évangile Qui fait plier les imbéciles Et qui met dans l’horreur civile De la noblesse et puis du style Ce cri qui n’a pas la rosette Cette parole de prophète Je la revendique et vous souhaite Ni dieu ni maître Ni dieu ni maître (Pas vrai, mec?) | O cigarro sem gravata Que se fuma na alvorada democrata E o remorso dos amputados Com o medo a estender a pata O ministério do padre E a piedade na janela E o cliente que talvez não tenha Nem deus, nem mestre O fardo pálido que é embrulhado Como um pacote para as estrelas Que caem frias sobre a laje E esta rosa sem pétalas Este advogado com pasta Essa alvorada que coloca o véu Por lágrimas que talvez não tenham Nem deus, nem mestre Estes bosques ditos de justiça E que crescem nos suplícios E para mobilar o sacrifício Com o pinheiro de plantão Este procedimento que espreita Aqueles que a sociedade rejeita Pretextando que talvez não tenham Nem deus, nem mestre Esta a palavra de Evangelho Que consegue dobrar os imbecis E que infunde no horror civil Nobreza e, também, estilo Este grito que não tem roseta Esta palavra de profeta Reivindico-a e desejo-vos Nem deus, nem mestre Nem deus, nem mestre (Não é verdade, pá?) |
Infelicidades verbais (ComUM, 28.01.12)
“Por um punhado de dólares” e “Quem atira a última pedra?” são dois textos de uma crónica, publicada no jornal online ComUm, sobre os deslizes mediáticos recentes de algumas figuras públicas (Aníbal Cavaco Silva, Pedro Passos Coelho e José Sócrates). Mas o enfoque incide menos nestas eventuais “insensibilidades” e mais no teor das reacções que suscitaram. Trata-se de uma crónica que rema contra a corrente num barco ideologicamente indigesto. Para aceder, carregar na imagem ou no seguinte endereço: http://comumonline.com/opiniao/item/577-infelicidades-verbais.

