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O martelo da revolta

Hornbach

«En otro tiempo, se dejó de ver el sol duran te varios meses; un rey muy poderoso lo había capturado y encarcelado en la fortaleza más inexpugnable. Pero los signos del zodíaco acudieron a socorrer el sol; rompieron la torre con un gran martillo; así liberaron al sol y lo devolvieron a los hombres; este instrumento merece pues la veneración, por el cual la luz se devolvió a los mortales» (culto lituano antigo; Chevalier, Jean & Gheerbrant, Alain, 1986, Diccionario de los symbolos, Barcelona, Ed. Herder, pp. 797-798).

Aprecio os anúncios da empresa alemã Hornbach. Pautam-se pelos princípios da potência e da força de vontade em situações extravagantes. O anúncio Wir haben nie gesagt, dass es einfach ist (nunca dissemos que era fácil) não foge à regra. Apresenta, no entanto, a particularidade de a potência ser feminina. Lembra o anúncio 1984, da Apple: uma mulher atlética, com um martelo, combate a opressão. Lembra, também, os corpos das atletas do filme Olympia (1938) de Leni Riefenstahl: o mesmo lastro mitológico. Um a um, são destruídos, à martelada, os estereótipos da mulher servil e da mulher objecto. Estou, porém, em crer, com a perversidade do costume, que no protagonismo e nos gestos desta luta titânica contra os estereótipos do feminino paira o fantasma de um estereótipo do masculino.

Marca: Hornbach. Título: Wir haben nie gesagt, dass es einfach ist. Agência: Heimat (Berlin). Alemanha, Outubro 2017.

Marca: Apple. Título: 1984. Agência: ChiatDay. Direcção: Ridley Scott. Estados Unidos, 1984.

 

Martelada

Thomas Muntzer

Thomas Muntzer. Na paisagem, uma cena de decapitação.

Escrevi, em 1980, um trabalho extenso sobre Thomas Muntzer. Emprestei-o a uma psicóloga grega e nunca mais o vi. Ainda estávamos no tempo da galáxia da máquina de escrever. Thomas Muntzer (1489-1525) foi um teólogo “revolucionário”, dissidente de Martinho Lutero. Muntzer foi uma figura proeminente na Guerra dos Camponeses que incendiou a Europa Central entre 1924 e 1926. Capturado em Mühlhausen, em 1925, foi decapitado com 35 anos de idade.Thomas Muntzer misturava o misticismo com uma espécie de comunismo, granjeando a simpatia póstuma dos marxistas. Friedrich Engels dedicou-lhe um livro (A Guerra dos Camponeses na Alemanha, 1850) e Ernst Bloch outro (Thomas Munzer, Théologien de la Revolution, 1921). Inspirou um filme realizado por Martin Hellberg, na Alemanha de Leste, em 1956.

Thomas Muntzer opunha-se à nobreza e à Igreja, Lutero incluído. A sua linguagem era, no mínimo, expressiva:

“A maior infâmia neste mundo consiste em que ninguém quer tomar para si a miséria dos necessitados, os grandes deste mundo fazem o que lhes apetece. Eis, pois, o cúmulo da usura, do roubo e da pilhagem, eis os nossos senhores e os nossos príncipes: apossam-se de toda criatura, sejam peixes n’água, aves no céu ou plantas na terra; tudo deve ser deles. Em seguida, apregoam o mandamento de Deus entre os pobres, e dizem: Deus ordenou que não roubeis! Contudo, quanto a eles, não se sentem obrigados a obedecer a este preceito” (Thomas Muntzer).
“Agora, vê-se bem como fornicam juntas, apinhadas, as enguias e as serpentes. Os Padres e todos os maus homens da Igreja são as serpentes (…) os senhores e potentados deste mundo são as enguias” (Thomas Muntzer).

A razão de ser deste artigo não radica neste esboço histórico. O meu trabalho intitulava-se Thomas Muntzer: a sutana e o martelo. Thomas Muntzer assinava os textos que afixava na porta das igrejas do seguinte modo: “Thomas Muntzer à martelada” (au marteau). Sempre pensei que esta “martelada” era mais simbólica do que real. O que condiz com o carácter de Thomas Muntzer. Mas não, a martelada era mais real do que simbólica. Nos meus atalhos pelas imagens, encontrei várias gravuras com textos pregados com um martelo na porta das igrejas. Incorri em erro durante 35 anos! Mas não! As referidas imagens retratam Lutero a afixar, em 1517, as 95 teses na porta da Igreja do Castelo de Wittenberg. As imagens não são da época. Estamos perante uma lenda: Lutero a martelar alto e bom som as suas 95 teses. A martelada volta a ser mais simbólica do que real.