Antepassados do surrealismo: o maneirismo (vídeo da conversa)
Após quatro meses de esforços e contratempos, o vídeo com a conversa Os antepassados do surrealismo: os maneiristas está disponível na Internet. Exigiu tanta dedicação que se tornou numa das minhas rosas. Não ouso convidar a assistir às quase duas horas. Quando muito, um breve relance, de preferência a uma das seis apresentações incorporadas. Sei que todos andam ocupados a cuidar de outros jardins.
O vídeo ganha em ser visualizado em alta resolução (1980p).
A universidade sofreu uma viragem no crepúsculo do segundo milénio. Os novos modos e as novas metas dos circuitos académicos não condizem nem com a minha formação nem com a minha vocação. Entre outros aspetos, incomoda-me ter que pedir, senão pagar, a estranhos para publicar. Nesses termos, perdi o interesse em publicar. Continuei a escrever mas relatórios de investigação/ação ou por convite, sem esquecer os apontamentos no blogue Tendências do Imaginário, um monstro híbrido de cultura e lazer, criado em 2011.
Não deixei, contudo, de investigar. Pelo contrário. Gosto de comunicar e ensinar, mas prefiro descobrir e aprender. A vida é um bom mestre. Ensinou-me, entretanto, que sou mortal. Tomei consciência de que boa parte dos conhecimentos que fui amealhando, dispersos em discos digitais, arriscam desparecer comigo. Pequeno ou grande, trata-se de um desperdício.
Capacitei-me da responsabilidade de cuidar da partilha. Optei, quase exclusivamente, por duas vias (alternativas aos blogues Tendências do Imaginário e Margens): a publicação de livros e a comunicação oral. Os livros são obras de Santa Engrácia. As comunicações costumo não as repetir, nem sequer as apresentações de livros. Em suma, grande vontade mas parcos os meios: para cada assunto, uma única comunicação, num dado local e data, perante um público reduzido. A passagem de testemunho reduz-se, portanto, a um momento pouco participado.
Posso não aderir a todas as mudanças, mas não me estimo retrógrado. Procuro aproveitar as novas tecnologias, designadamente, de informação e comunicação, que proporcionam um arremedo de solução para o afunilamento da partilha: filmar as conversas e disponibilizá-las na Internet. Assim sucedeu com as conversas O Olhar de Deus na Cruz: o Cristo Estrábico (29-11-2022) e Vestir os Nus: Censura e Destruição da Arte (18-02-2023), embora com insuficiente qualidade. Com um pouco mais de profissionalismo, resultou mais cuidado o registo desta última conversa.
No meio não está a virtude

“Pertenço, porém, àquela espécie de homens que estão sempre na margem daquilo a que pertencem, nem veem só a multidão de que são, senão também os grandes espaços que há ao lado” (Fernando Pessoa. Livro do Desassossego).
“No meio é que está a virtude”. Frase cunhada e gasta. Demasiado óbvia para não ser oca. No meio não está a virtude. Talvez de um lado, ou do outro. Quem está em ambos os lados é incerto, impuro, “traidor” (André Gorz, Le Traître, Paris: Seuil, 1958). Não é digno de confiança.
O meio pode aspirar a centro de confluências. As forças revêem-se e reforçam-se, aproximando-se e afastando-se. Creio ser esta a inspiração do anúncio The Middle, da Jeep: encontrar um centro conciliador dos Estados-Unidos. Mas o centro é uma miragem que muda, inconstante, de lugar. O mundo é “uma esfera infinita cujo centro se encontra em toda parte e cuja circunferência não se acha em nenhuma” (Blaise Pascal, Pensamentos, Fragmento 72).
À força de falar de amor, apaixonamo-nos

Uma versão antiga da “predição criadora”, de W.I. Thomas: “À força de falar de amor, apaixonamo-nos” (Blaise Pascal, Discours sur les passions de l’amour, 1652-1653).
Sou um algoritmo básico: resumo-me a duas sub-rotinas com contador infinito: quando penso, desaguo no Blaise Pascal: no que respeita à música, no Jacques Brel. Se quero pensar, penso com eles; se quero sentir, sinto com eles. São as duas pontas de Ariana do meu labirinto identitário. O resto é variação. Dizem que os olhos são as janelas da alma. Quando ouço Jacques Brel, fecho os olhos para franquear a entrada a anjos e demónios.

Jacques Brel canta, como ninguém, a miséria humana. Tão bem que o ouvimos com prazer. Gosto de La ville s’endormait. Ne me quitte pas é universal. Coloco as versões estúdio e ao vivo, que, no caso de Jacques Brel, não se substituem. Uma voz e uma performance.
