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Como peixes num aquário

Allegoria della Peste. Biccherna senese. Opera tratta da Giovanni Di Paolo, Siena, XV sec.

E para dizer simplesmente o que se aprende no meio das pragas, que existe nos homens mais coisas a admirar do que coisas a desprezar (Albert Camus. La Peste. 1947)

Ah! Se fosse um terramoto! Um bom abalo e não se falava mais… Conta-se os mortos, os vivos e pronto. Mas esta porcaria de doença! Mesmo aqueles que não a têm trazem-na no coração (Albert Camus. La Peste. 1947).

Escrevi um texto para a página Communitas, do Centro de Estudos Comunicação e Sociedade. Versa sobre vários aspectos da vida quotidiana em tempo de coronavírus. Segue a ligação: http://www.communitas.pt/ideia/nem-a-morte-nos-reune/

Denegação

Thai Health Promotion Foundation. Tailândia.

« A morte é o único acontecimento biológico a que um ser vivo nunca se adapta” (Vladimir Jankélévitch, La Mort, 1977).

Há aqueles que morrem e aqueles que ficam, por vezes, sós, traumatizados e desamparados. É o tema do anúncio tailandês The Road Home, da Thai Health Promotion Foundation. A vida e a morte; a morte e a vida. A morte que não larga os vivos. Um excelente anúncio.

Anunciante: Thai Health Promotion Foundation. Título: The Road Home. Agência: VMLY&R Thailand. Direcção: Suthon Petchsuwan. Tailância, Janeiro 2020.

Receitas milagrosas

Intermarché. C’est magnifique. 2019.

Em dias de tensa inutilidade, o anúncio C’est Magnifique, do Intermarché, é uma bênção. Desafia-nos a andar sobre as águas de um lago de montanha. Um homem desespera após a morte da companheira. Mortifica-se na lentidão indigente dos dias. Afasta-se das pessoas, dos amigos, da vida. Mas, às vezes, os milagres, que não existem, acontecem: a descoberta do livro de receitas da mulher. Entre a cozinha e o hipermercado, refaz-se a vida. Até os objetos se revitalizam, como num conto de E. T. A. Hoffmann. O compasso é de reconciliação e reparação. São raros os anúncios que conjugam tamanha qualidade e inspiração. Tudo ajuda. Por exemplo, o silêncio inicial e a canção C’est Magnifique, interpretada por Benjamin Biolay. Resultado: uma emoção funda e tranquila, como um murmúrio da alma. O anúncio frisa o religioso, uma religiosidade profana: o livro de receitas é uma mediação numinosa; e o percurso do protagonista, uma ressurreição.

Marca: Intermarché. Título: C’est Magnifique. Agência: Romance. Direcção: Katia Lewkowicz. França, Março, 2019.

Por quem tocam os sinos?

Umberto Boccioni. Pianist and Listener, 1908.

Umberto Boccioni. Pianist and Listener, 1908.

A McDonald’s publicou um anúncio ousado, demasiado ousado. Estou admirado! Uma criança caminha com a mãe e procura encontrar pontes de identificação com o pai, falecido. Só o consegue no McDonald’s. A indignação das associações não se fez esperar. Estou admiradíssimo! As associações? As novas guardiãs da opinião? Algumas de tão puritanas lembram-me confrarias. A McDonald’s devia ter juízo! A morte é um assunto tabu. A morte? Duvido. Ando com os bolsos carregados de cemitérios em jeito de publicidade anti-tabaco. Mas o luto, é outra coisa. O luto, naturalmente. Já não há respeito! “Tristeza! Passamos metade da vida à espera daqueles que amaremos e a outra metade a deixar os que amamos” (Victor Hugo, Tas de pierres, 1901). Insistimos em exorcizar os mesmos demónios. Já aborrece! Alguém ouviu falar do luto da inteligência? Pelo sim, pelo não, com a preventiva água benta, segue o anúncio Dead Dad, da McDonald’s. Para memória futura. A McDonald’s já pediu desculpa e palpita-me que o anúncio vai ser retirado de circulação. Indignação, auto da fé e cinzas.

Marca: McDonald’s. Título: Dead Dad. Agência: Leo Burnett (London). Reino Unido, Maio 2017.

Umberto Boccioni. Luto. 1910.

Umberto Boccioni. Luto. 1910.