Tempo para embalar um sorriso

Estou a terminar um texto sobre a lenda da Senhora da Orada. Parece um relatório. Apetece desligar, escutar música com os olhos fechados ou pasmados. Sempre descansam um pouco.
O cachimbo tem uma vantagem sobre o cigarro: a da preparação. Vou simular um ritual semelhante para a música.
- Primeiro, escolho um bom tabaco: calhou o Louis Armstrong;
- Segundo, aparto seis canções e encho o depósito;
- Terceiro, ordeno as canções numa lista, para que não se apaguem a meio, com a ajuda do Premiere ou do Clipchamp;
- Finalmente, absorvo a música como uma nuvem com o cuidado de não adormecer.
Outros tempos. Top of the pops com rugas 1

Estou a iniciar uma série de entrevistas a pessoas de idade centradas em determinados períodos da sua vida adulta. “Não te vai ser fácil, comenta uma amiga, a memória está-lhes sempre a fugir para a infância e a juventude”. Revisitei, “como quem se despede”, as entrevistas que promovi com pessoas maiores. Na verdade, o prazer da conversa tende a desviar-se para os tempos remotos estimados mais felizes. Agora, com quase cinquenta e treze, creio que me está a acontecer o mesmo. A memória teima em saltar as últimas décadas e a demorar-se na meninice e na adolescência. Até ao aniversário, vou regalar-me com melodias “daqueles tempos”, uma espécie de “tops of the pops” com rugas.
