Tag Archive | Lisa Gerrard

Lamentação

Levon Minassian & Armand Amar. You are, tu eres

Quando a lamentação é superlativa, não basta lamentar.

Alguma música arménia, especialmente acompanhada por duduk, oferece-se como um interminável lamento. Sorrow de Hans Zimmer & Lisa Gerrard assemelha-se a um lamento arménio e a voz a um duduk.

Levon Minassian. They’ve taken the one I love. The Doudouk: Beyond borders. 1998.
Levon Minassian, Armand Amar, Bulgarian Symphony Orchestra. Hovern’ engan. Songs from a world apart. 2006.
Hans Zimmer & Lisa Gerrard. Sorrow. Gladiator. 2000.

Velas

Nostalgia_poster_goldposter_com_4.jpg@0o_0l_800w_80qVisitar relíquias faz bem à identidade. Andrei Tarkovski é um realizador de culto. Um Tarkovski é um Tarkovski. Mas há quem o desconheça e ainda menos o admire. Quem quer sentir a repetição lenta da tragédia da vida? Porquê convocar Tarkovski? Porquê ser um grande eco quando podemos ser um pequeno grito? Neste excerto final do filme Nostalgia (1983), um homem cumpre uma promessa: a travessia de uma piscina vazia com uma vela acesa. Um gesto sacrificial que lembra Sísifo. Um ritual de purificação contagiosa que a vela representa. Sobre a vela como símbolo de purificação, Paulo VI dizia:

“A vela simboliza a pura e primitiva fonte em que se devem iluminar as religiosas. Pela sua rectidão e doçura, ela é a imagem da inocência e da pureza (…) A vela é, enfim, destinada a consumir-se em silêncio, tal como a vossa vida se consume no drama, contanto inevitável do vosso coração consagrado” (Paulo VI, 2 de Fevereiro de 1973, in Chevalier, Jean & Gheerbrant, Alain, Dictionnaire des Symboles, 1969).

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Lisa Gerrard.

A vela é um símbolo nuclear na obra de Tarkovski. Recordo o filme Espelho (1975): pousada sobre a mesa da cozinha, uma vela pontua o tempo e a vida.
Lisa Gerrard é Lisa Gerrard. Antes e depois dos Dead Can Dance, antes e depois do Gladiador (2000). Uma voz e um modo de cantar únicos. Alguém se lembrou de fazer bricolage. Extraiu o episódio da piscina e da vela, do filme Nostalgia, de Tarkovski, retirou o som original e substituiu-o pela canção Adrift de Lisa Gerrard (álbum Twilight Kingdom, 2014). O resultado é, no mínimo, interessante.

Antrei Tarkovski, Nostalgia (excerto), 1983 / Lisa Gerrard, Adrift, Twilight Kingdom, 2014.

A Donzela e o Unicórnio

Livro de Horas de Engelbert de Nassau. Flandres, ca. 1470-1490.

Livro de Horas de Engelbert de Nassau. Flandres, ca. 1470-1490.

Nem sempre é fácil encontrar uma imagem que condiga com uma música. Nessas circunstâncias, nada como esquecer a música e optar por uma imagem que nos agrade, se possível com um grão de exotismo. A música “In The Beginning Was The Word”, de Lisa Gerrard e Marcello de Francisci (Departum, 2010), segue, desta sorte, rodeada por unicórnios medievais: uma iluminura do Livro de Horas de Nassau (ca. 1470-1490) e uma galeria com as seis tapeçarias de La Dame à la Licorne, uma para cada sentido, mais a que sobra para o desejo (finais do séc. XV: Museu de Cluny, Paris).

Lisa Gerrard e Marcello De Francisci. In the beginning was the word. Departum. 2010.

Voz extrema

Klaus Nomi. PosthumousHá vozes que impressionam. Tendem para o limite. Lisa Gerrard, australiana, contralto, membro dos Dead Can Dance. Klaus Nomi, contra-tenor alemão, vítima da sida em 1983, exímio a combinar o trágico e o grotesco. Ambos tendem para o limite, mas em sentido contrário. Fantásticos!

Lisa Gerrard / Dead Can Dance. Sanvean. Toward the Within. 1994.

Klaus Nomi. Der Nussbaum. Ses 20 plus belles chansons.1994.