Multidão Solitária e Morte Social


Nos artigos que seguem, nem a morte ri, nem a velhice pressagia. A massa e a indiferença conduzem a um abismo sem fundo. Lúgubres e insustentáveis, engolem sem regurgitar. Relevo as fotografias de Misha Gordin no vídeo musical de La Solitudine, do Leo Ferré, colocado por TiresiaXX, em setembro de 2013.
Tábua rasa
Aprecio os anúncios que versam sobre o ensino e a educação. Este anúncio da Letónia, Carve your destiny, suscita, pelo estilo e pelo engenho, quatro apontamentos:
- Aprender é desfazer-se da ganga. A ganga é composta por materiais que envolvem o minério e lhe dificultam o acesso. A ganga é um excesso que estorva. A mulher do anúncio retira, com um cinzel, a crosta que a oprime;
- Ao retirar a crosta que oprime, a educação é libertação;
- Uma jovem, uma crosta e um cinzel, nada e ninguém mais! A mulher constrói-se a si própria, esculpe a sua identidade e o seu futuro. Trata-se de uma auto-aprendizagem que condiz com uma instituição de ensino à distância.
- Como pode uma pessoa esculpir-se a si própria? O bloco lembra uma tábua rasa, a partir da qual a pessoa se cinzela. Tábua rasa é uma imagem, exageradamente caricaturada, a que Émile Durkheim recorreu a propósito da socialização primária. Prefiro esta, crítica da visão veiculada pelo anúncio: “Como, desde logo, o indivíduo pode pretender reconstruir, pelo único esforço da sua reflexão privada, uma realidade que não é obra do pensamento individual? Ele não está perante uma tábua rasa sobre a qual pode edificar o que quer, mas realidades existentes que não pode nem criar, nem destruir, nem transformar à vontade. Ele só pode agir sobre elas na medida em que aprendeu a conhecê-las e sabe qual é a sua natureza e as condições de que elas dependem” (Durkheim, Émile, Éducation et sociologie, Paris, Librairie Félix Alcan, 1922, p. 42-43).
Marca: RPIVA. Título: Carve your destiny. Agência: Ogilvy. Letónia, Janeiro 2017.
A multidão solitária
“Na solidão, o solitário corrói o seu coração; na multitude, é a multidão que lho corrói”
(Friedrich Nietzsche, Humano, demasiado humano, 1878-1879).
“Sofrer de solidão, mal sinal; até agora, só sofri de multitude”
(Friedrich Nietzsche, Assim falou Zaratustra, 1893).
O livro A Multidão Solitária (The Lonely Crowd), de David Riesman, publicado em 1950, foi um dos primeiros best-sellers da Sociologia. Com recurso a noções tais como inner directed e other directed, Riesman sugere que as pessoas “perdem liberdade e autonomia individual ao tentar ser como as outras”. Esta é mais uma obra clássica posta em pousio pela sociologia avançada.
La solitude (1971) é uma canção francesa da autoria de Léo Ferré. Que me perdoe, mas opto pela versão italiana. Por um motivo: o vídeo, com fotografias de Misha Gordin (Letônia, 1946), é extraordinário. Interpela-nos desvelando várias faces da Multidão Solitária.
Léo Ferré. La Solitudine. Gravado em Maio e Junho de 1972. Fotografias de Misha Gordin.




