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A repetição e a solidão

Graças à Internet acedemos a uma infinidade de interlocutores e informações. Esta conectividade contribui para nos encontrar ou para nos perder? Para o anúncio argentino You’re not alone, da Sprite, a Internet pode consciencializar-nos da existência de pessoas com particularidades e problemas semelhantes aos nossos. Não estamos sós! E sozinhos? Haver pessoas iguais diminui a minha solidão?

Marca: Sprite. Título: You’re not alone. Agência: Santo (Buenos Aires). Direcção: Nino Perez Veiga. Argentina, Outubro 2019.

SAD. Solidão Acompanhada à Distância.

A solidão é uma realidade em crescimento. Um inquérito realizado em França, no ano de 2014, revela o alcance e as formas da solidão no País (https://www.lemonde.fr/societe/article/2014/07/07/la-solitude-progresse-en-france_4452108_3224.html). A economia da solidão expande-se e diversifica-se, bem como as soluções propostas. O anúncio Be Together More, da Amazon, é um exemplo. Aposta na companhia à distância.

Marca: Amazon. Título: Be Together More. Internacional, 2018.

1 696 382 páginas na Internet

Por curiosidade, quis saber a posição do Tendências do Imaginário no conjunto das páginas da Internet a nível mundial. A resposta foi dececionante: 1 696 382 (ver https://www.alexa.com/siteinfo/tendimag.com?fbclid=IwAR1EMaB07JsP_InJ1CkicsTzBW7q-1jMcJtkoFtZQ7T3lCZwY2cazEC8BSs).

Quem conheça a estatística sabe que os resultados têm uma língua bífida. Dizem que sim, dizem que não e, caso necessário, dizem ambas as coisas.

Quantas páginas existem na Internet? 5,78 mil mihões (5 780 000 000; ver https://www.worldwidewebsize.com/).

Dividindo a posição no “ranking” (1 696 382) pelo número global de páginas (5 780000000), obtém-se o seguinte resultado: 0,0002935.

Conclusão: em cada 10 000 páginas, 3 estão mais cotadas do que o Tendências do Imaginário; e 9 997, menos.

Atendendo a que estão incluídas as páginas governamentais, não-governamentais, empresariais, comerciais, académicas, culturais, lúdicas, a posição podia ser pior! Sobretudo, porque o Tendências do Imaginário não faz publicidade, não tem alavancas e a interacção com os seguidores e os comentadores é quase inexistente. Em suma, a gestão da página carece ser melhorada.

A valsa das flores

Claude Monet. Water Lilies. 1914.

Cinquenta e cinco primaveras. Uma “Valsa da Primavera”, do Frédéric Chopin, vinha a propósito, mas a música é, afinal, de Paul de Senneville (Mariage d’Amour, 1979). Existem, porém, muitas páginas na Internet a apresentar a música como sendo de Chopin. Uma dessas páginas tem mais de 84 milhões de visualizações. A Internet também (se) engana!

Paul de Senneville compôs vários sucessos. Por exemplo, a Ballade pour Adeline (1977) e a Song of Ocarina (1991). Revisito uma música que brilhou e invernou: Dolannes Melodie (1975).

Paul de Senneville. Mariage d’Amour. 1979.
Paul de Senneville & O. Toussain. Dolannes Melodie. 1975. Intérprete : Jean-Claude Borelly.

Pauzinhos

Descarga de uma carraca portuguesa. Pannels attributed to Kano Naizen, 1570-1616 (detail)

Descarga de uma embarcação portuguesa. Biombos atribuídos a Kano Naizen, 1570-1616 (detail). Museu Nacional de Arte Antiga.

Na semana passada eclodiu um imbróglio internáutico. Um anúncio e um desfile da Dolce & Gabbana foram boicotados. Um excerto de uma notícia do Público Online narra os acontecimentos. Cinjo-me a acrescentar alguns apontamentos.

  • O sentido de humor parece não ser universal. Se quiser fazer humor, assegure-se que domina a arte. Existem cordas muito sensíveis em que convém não tocar, a não ser com luvas de seda estilizadas. Na actualidade, duas dessas cordas são o sexismo e o racismo.
  • A Internet é um espaço de poder, um lugar onde pontificam vontades hierarquizadas. Apesar de a Internet ser imaterial, há pessoas que pesam mais do que outras. Por exemplo, a indignação das celebridades Zhang Ziyi, Li Bingbing e Wang junkai surte tanto efeito que até é notícia mundial. A universalidade e a igualdade da Internet são um logro.
  • É possível retirar, de um momento para o outro e à escala global, conteúdos da Internet. Revela-se, deste modo, difícil aceder aos anúncios boicotados. Precise-se que o cidadão comum não tem quase nada de seu na Internet. Num ápice, podem desaparecer-lhe conteúdos, por exemplo, do seu blogue ou das suas páginas nas redes sociais.
  • Os responsáveis pela marca italiana pediram desculpa à China. Intrometeu-se uma mensagem polémica de Stefano Gabbana que este garante ser falsa. Alguém teria pirateado a sua conta de Instagram. Verdade ou mentira, que alguém aceda a uma conta e fale em nosso nome é um risco real. Esta situação é mais complexa do que o boato tradicional. Os procedimentos de partilha e adulteração do boato são conhecidos (ver Edgar Morin, La rumeur de Orléans, 1969). Contudo, neles não consta esta usurpação ou este aluguer da identidade alheia. Daqui se depreende que a Internet pode ser uma árvore de enganos e um jogo de máscaras.
  • As proibições e os boicotes a anúncios podem resultar numa espécie de maná para as marcas. No caso do anúncio da Dolce & Gabbana, duvido. Notoriedade, já a conquistou. Falta saber o que acontece à imagem.

Os anúncios boicotados da Dolce & Gabbana, com uma chinesa a comer comida italiana com pauzinhos, são difíceis de encontrar. Foram sistematicamente “apagados”. Encontrei uma cópia que passo a colocar. Não sei por quanto tempo.

Dolce & Gabbana. Anúncios a um desfile em Shangai. Novembro 2018.

Notícia no Público Online:

“Dolce & Gabbana cancela desfile em Shanghai por causa de um anúncio que envolve pauzinhos

A Dolce & Gabbana cancelou nesta quarta-feira um desfile de moda nem Shanghai, depois de uma polémica online em torno de um dos seus anúncios. Em causa está um anúncio onde uma mulher chinesa luta para conseguir comer pizza ou esparguete com pauzinhos. Os chineses não gostaram.

A controvérsia foi o tópico número um na plataforma Weibo, com mais de 120 milhões de leituras, já que celebridades, incluindo Zhang Ziyi, estrela de cinema de Memórias de uma Geisha, publicaram comentários críticos à marca. Celebridades, como a actriz Li Bingbing e a cantora Wang Junkai, disseram que boicotariam o desfile da marca italiana.

Alguns dos que viram os anúncios, ao todo são três, ficaram incomodados com o que consideram o tom paternalista do narrador, oferecendo lições sobre como comer com pauzinhos. Além disso, uma alegada troca de mensagens de Stefano Gabbana surgiu nas redes sociais que viriam a confirmar que o designer é racista. Este veio desmentir na sua conta de Instagram.

“Lamentamos o impacto e o prejuízo que essas observações falsas tiveram sobre a China e o povo chinês”, disse a marca de moda de luxo italiana, num pedido de desculpas online em chinês no Weibo, acrescentando que a conta do Instagram de Gabbana foi pirateada”.

(Público Online. https://www.publico.pt/2018/11/21/culto/noticia/dolce-gabbana-cancela-desfile-shanghai-criticas-anuncio-envolve-pauzinhos-1851859 (Reuters  21/11/2018). Acedido02/12/2018)

O tempo que resta

Philippe de Champaigne. Still-Life with a Skull. 1671.

Philippe de Champaigne. Still-Life with a Skull. 1671.

O desencanto com as novas tecnologias está a ganhar expressão. Muitos anúncios recorrem a encenações que, paradoxalmente, geram um efeito acrescido de realidade. São mais reais do que o real. O anúncio El Tiempo Que Nos Queda, da Ruavieja, dá-nos a ver um filme sob forma de reportagem. O desencanto com as novas tecnologias está a aumentar. Está em jogo a amizade e o amor. As novas tecnologias podem sobreaquecer-nos, mas é um sobreaquecimento que arrefece. Ao abraço virtual falta-lhe o corpo a corpo: o calor humano. O tempo não é infinito, não temos todo o tempo do mundo. O tempo que dedicamos a uma actividade falta a outras actividades.

“É uma contradição, não há lugar para dúvida. A gente afirma que os seus seres mais queridos são o mais importante. Mas a distribuição do seu tempo não mostra isso. Isto tem a ver com o modo como funciona o nosso cérebro. Estamos programados para evitar pensar no tempo que nos resta para viver. Temos, assim, a sensação de que sempre teremos a oportunidade de fazer as coisas que nos fazem felizes” (anúncio El Tiempo Que Nos Queda).

Marca: Ruavieja. Título: El Tiempo Que Nos Queda. Agência: Leo Burnett España. Direcção: Feliz Fernandez de Castro. Espanha, Novembro 2018.

Assenta bem uma dose de contradição. “As novas tecnologias podem sobreaquecer-nos, mas é um sobreaquecimento que arrefece. Ao abraço virtual falta-lhe o corpo a corpo: o calor humano”. Quem conheceu o desenraizamento sabe que o ser humano é um devorador de símbolos. Uma lembrança, um objecto, uma voz, uma fotografia, não é preciso muito para nos sobreaquecer. A imagem propicia calor humano. Os abraços virtuais multiplicam e aceleram o contacto entre pessoas distantes. É uma das vantagens da emigração actual. O corpo não é apenas carne.

Tese e antítese dá Um Dia de Domingo, de Gal Costa.

Music video by Gal Costa performing Um Dia De Domingo. (C) 2013 Universal Music Ltda.

Liberdade digital

Quando um poder alheio me invade o quintal, fico zangado. Asseguram que a Internet é uma infinita liberdade rumo ao paraíso da igualdade. Como são felizes aqueles que acreditam! Atrás, ao lado, dentro ou em cima de uma rede social, de uma plataforma ou de um algoritmo estão seres humanos, feitos do mesmo barro que nós. Prepotentes, omnipotentes, omnividentes e omniscientes, são deuses ocultos. Num ápice, apoderam-se da tua conta, da tua página, do teu blogue… Armados com regras e protocolos, censuram, retificam, bloqueiam, removem. Estes poderes do mundo digital fazem de nós o resto de nada. Um grão de areia na praia da Figueira da Foz.

A que propósito vem a praia da Figueira da Foz? Este fim-de-semana, o Facebook “encerrou”, sem aviso, mais de 2 000 artigos da minha página pessoal e bloqueou as ligações ao blogue Tendências do Imaginário. Uma autêntica purga. Qual o motivo? “Spam”! Componho os artigos no Tendências do Imaginário e partilho-os na página do Facebook. Uma rotina com, pelo menos, oito anos. Levou tempo a descobrir o “spam”! Isto dói.

Muitas das músicas dos Pink Floyd são de revolta e resistência. Hoje, apetece-me ouvir o álbum Meddle (1971), que conserva alguma frescura dos primeiros álbuns no momento de viragem para a maturidade.

Gosto dos Pink Floyd, sobretudo do álbum Meddle (1971), que conserva alguma frescura dos álbuns anteriores sem ceder ainda à maturidade dos seguintes. Quando estou zangado, costumo ouvir a primeira faixa, “One of these days”, e a terceira, “Fearless”. Nos dias de indignação, os Pink Floyd oferecem-se como um bálsamo estimulante.

Carregar nas imagens para aceder aos vídeos.

Pink Floyd. One of these days. Meddle. 1971. Video extracted from the DVD Pink Floyd Live @ Pompeii (The Director's Cut).

Pink Floyd. One of these days. Meddle. 1971. Video extracted from the DVD Pink Floyd Live @ Pompeii (The Director’s Cut).

Pink Floyd. Fearless. Meddle. 1971

Pink Floyd. Fearless. Meddle. 1971

O feitiço tecnológico

McDonald's Timeless

Se a publicidade fosse uma biblioteca, o tema das relações de género ocuparia várias estantes pejadas com livros de salmos e sermões. Mais pequena, mas em crescimento, aparece a estante da adição às novas tecnologias, cheia com livros de responsos e esconjuros. O anúncio Timeless, da McDonald’s, mostra quanto um pai tem que ser inventivo para cativar a atenção dos filhos, embruxados crónicos pelos telemóveis, tablets, videojogos & Cia. Deste anúncio depreende-se que para resgatar os filhos, o pai deve “tornar-se” criança, regredindo, com os filhos, até à sua própria infância. Esta fórmula é recorrente. A desintoxicação resulta cada vez mais fantástica. Uma boa parte dos anúncios sobre a cidadania e a qualidade de vida são promovidos por grandes marcas, incluindo a McDonald’s, que, nas alturas, tanto se preocupam com as nossas vidas. Tanto interesse comove qualquer um.

Marca: McDonald’s.Título: Timeless. Agência: DDB New Zealand. Direcção: Matt Devine. Nova Zelândia, Maio 2018.

Preservativo contra gatos digitais

Gato de Kazán. Rússia. Séc. XVIII.

Gato de Kazán. Rússia. Séc. XVIII.

No último artigo, os excrementos de gato eram preciosíssimos. Agora, os gatos são as maiores vedetas dos ecrãs contemporâneos. Desperdiçamos triliões de triliões de horas embasbacados com as peripécias felinas. Nós, trabalhadores inveterados, ascéticos até à medula. Os gatos desviam-nos do bom caminho. Por sua causa, caímos em procrastinação, adiamos o dever. Importa acabar com essa ameaça ao rendimento e à carreira profissional.

Um sindicato dinamarquês, investido por uma espécie de chamamento, inventou a extensão Katblocker, que livra o cibernauta da maléfica imagem felina. Quem instalar a extensão, está protegido contra os companheiros das bruxas.

Insólito, este anúncio suscita diversas leituras. O mundo é uma máquina do tempo dessincronizada. Nem sempre temos os pés, quanto menos o espírito, no presente. Este anúncio traz-me, por exemplo, à memória o calvinismo e o iconoclasmo do século XVI. Que o anúncio seja promovido por um sindicato, pouco me espanta: Max Weber demonstrou que o “espírito do capitalismo” tanto era perfilhado pelos burgueses como pelos trabalhadores.

A Danish labour union has declared war on cat videos in a new campaign video for The Katblocker, an extension that blocks cat videos in a browser to help workers overcome the natural urge to procrastinate.

The labour market is under constant development, and the pressure is on all of us to learn and grow. According to a new campaign from Danish union HK, procrastination is the enemy that stands between union members and the next step in their careers. That’s why they’ve now invented the Katblocker to fight the mother of all procrastination: Cat videos.

There’s currently about 91.6m, cat videos on YouTube totaling around 3,194,656,867 minutes of cats that can distract us from the next important step in our careers. The Katblocker was launched last week with a comical parody of the traditional TED Talk format, and the video has already earned a lot of nationwide attention with more than 1m views in its first week (http://www.thedrum.com/creative-works/project/co-noa-hk-katblocker).

Anunciante: HK. Título: Katblocker. Agência: &Co. Direcção: Peter Harton. Dinamarca, Janeiro 2018.

Conto de fadas à moda digital

McDonalds

Não há forma de evitar preconceitos e estereótipos. A mim, afigura-se-me que a publicidade oriental se dispõe entre dois extremos, sem meio termo: anúncios curtos e impactantes ou longos e emocionantes. O humor e o amor. Pelos vistos, rimos mais depressa do que choramos. O anúncio filipino The boy that loves to study é longo. É um conto de fadas com uploads, downloads e redes sociais. A fada madrinha é a McDonald’s.

Acrescento a canção Fate, interpretada, ao vivo, pela sul-coreana Sohyang (um cover de Lee Sun Hee).

Marca: McDonald’s. Título: The boy that loves to study. Agência: Leo Burnett. Filipinas, 2016.

Sohyang. Fate. Ao vivo. Cover de Lee Sun Hee.