Um meio entre nada e tudo
Um anúncio magnífico, original na forma e no conteúdo, promovido por uma empresa francesa de navios de cruzeiro.
Que é o homem na natureza? Um nada em relação ao infinito, tudo em relação ao nada: um meio entre nada e tudo. Infinitamente afastado de compreender os extremos, o fim das coisas e o seu princípio estão para ele invencivelmente ocultos num segredo impenetrável; igualmente incapaz de ver o nada de onde foi tirado e o infinito que o absorve (Pascal, Pensamentos).
“Não sei quem me pôs no mundo nem o que é o mundo, nem mesmo o que sou. Estou numa ignorância terrível de todas as coisas. Não sei o que é o meu corpo, nem o que são os meus sentidos, nem o que é a minha alma, e até esta parte do meu ser que pensa o que eu digo, refletindo sobre tudo e sobre si própria, não se conhece melhor do que o resto. Vejo-me encerrado nestes medonhos espaços do universo e me sinto ligado a um canto da vasta extensão, sem saber porque fui colocado aqui e não em outra parte, nem porque o pouco tempo que me é dado para viver me foi conferido neste período de preferência a outro de toda a eternidade que me precedeu e de toda a que me segue.
“Só vejo o infinito em toda parte, encerrando-me como um átomo e como uma sombra que dura apenas um instante que não volta.
“Tudo o que sei é que devo morrer breve. O que, porém, mais ignoro é essa morte que não posso evitar.
“Assim como não sei de onde venho, também não sei para onde vou Sei, apenas, que, ao sair deste mundo, cairei para sempre no nada ou nas mãos de um Deus irritado, sem saber em qual dessas duas situações deverei ficar eternamente. Eis a minha condição, cheia de miséria, de fraqueza, de obscuridade (Blaise Pascal, Pensamentos).
O eterno e o infinito
Nem sempre se proporciona confrontar dois anúncios excelentes e recentes. A qualidade é rara e nem sempre comparável.
O anúncio da Nokia aposta no encadeamento de fragmentos. Cada fragmento, contanto breve, concentra informação que o público consegue identificar, apreciar e assimilar. Em cada fragmento, prevalece a ideia de performance, a marca do extraordinário e a sensação de vertigem. O ritmo é acelerado. Adivinham-se homologias entre os fragmentos, o que não os impede de permanecer únicos e distintos. A ponte, ilusória, é providenciada pela própria aceleração. A ligação só se concretiza no fim do anúncio: os fragmentos desencontrados convergem para as oito teclas do telemóvel.
Anunciante: Nokia. Título: The amazing everyday. Novembro 2011.
O anúncio da John Lewis é também composto por uma longa série de fragmentos. Mas a sua variação é contida pela repetição: sempre o mesmo miúdo com ansiedade expectante. Alteram-se, apenas, os cenários. O ritmo, ao sabor da música, é lento e compassado. O desfecho é discreto. Resume-se a um pequeno texto: “For gifts you can’t wait to give” e “John Lewis in store / online / mobile”. Tudo, neste anúncio, respira espera.
Anunciante: John Lewis. Título: The Long Wait. Agência: Adam & Eve. Direcção: Dougal Wilson. Novembro 2011.
Em The amazing everyday, assisti-se a uma cavalgada no piano. As notas atropelam-se numa sucessão de instantâneos que percorrem o teclado. Em The long wait, os dedos obstinam-se a percorrer as mesmas sequências, o que proporciona uma sensação de duração. A multiplicidade instantânea cede o passo à continuidade, a um ensimesmamento melódico. Este tipo de duração é, paradoxalmente, uma quase eternidade, uma eternidade que se presentifica. Em suma, a cadeia de estabelecimentos comerciais John Lewis está, aqui e agora, sempre connosco. No caso de The amazing everiday, o instante, a cavalgada de instantâneos rumo ao telemóvel, torna-se, graças às novas tecnologias, infinito, uma plataforma de possibilidades sem fim.
