O Rei Vai Transparente

Vídeos que convocam a nudez, estilizada ou não, como os seguintes são cada vez mais raros na publicidade e na comunicação social. Migraram para as redes sociais e páginas especializadas da Internet. Trata-se de uma mudança de mentalidade e de sensibilidade, de uma contradança acelerada a que o homem eletrónico nos habituou.
Neste contexto e com esta dinâmica, não admira que estes três anúncios sejam difíceis de encontrar, sobretudo La Poire, de 1990, e Anti Dioxine, de 1997. Para exibir o primeiro, recorri ao arquivo pessoal; o fabuloso arquivo da Culturepub valeu-me no segundo. Procurei e procurei, principalmente o Antidoxine, cujo acesso, em dois tempos, não é amigável: primeiro, carrega-se na imagem do artigo; em seguida, abre-se o vídeo na Culturepub. Nem sequer no arquivo da Greenpeace International o encontrei. O que se compreende. Diferente dos demais, Anti Dioxine não mostra, como diria um tio, as “partes pudibundas”. Sugere algo pior. Dá asas à imaginação. Ora, os neurónios em voo não são de fiar.

Andam deveras zelosos os guardiões da ética. E muito atarefados, também. A amplitude e as subtilezas do mal não param de alastrar. Neste cenário adverso, toda a ajuda é pouca!
Há quatro ou cinco séculos, as famílias respeitáveis retocavam ou amputavam as pinturas e as esculturas para furtar as crianças a semelhantes obscenidades. Hoje, os bebés mergulham, porventura demasiado cedo, nos ecrãs e folheiam histórias duvidosas. Até a literatura infantil requer pente fino. A começar pelos títulos. Proponho, por exemplo, a alteração de O Rei Vai Nu, de Hans Christian Andersen, para “O Rei Vai Transparente”. Assim, toda aquela multidão não “vê” o rei nu mas transparente! Esta solução possui, aliás, a virtude de se coadunar com o linguajar e as preocupações atuais.
Enfim, o único intuito com que partilho estes vídeos indecorosos é de ordem meramente profilática, em jeito de vacina ou para homeopatia. Não se brinca com estas coisas!
Três dedos abaixo de cão
Tive um blogue chamado Marginália. Retomo parte do artigo Bestialidade (http://dobras.blogspot.pt/2010/08/bestial.html).
O grotesco não está de volta. Ele nunca nos deixou. Mas está no vento! Tal como “o feio, o porco e o mau”. Afirmar que ultrapassa os limites não passa de um pleonasmo. O grotesco está sempre a ultrapassar limites. Essa é a sua sina. Mas, por vezes, surpreende. Pela pujança e pelo insólito. É o caso do anúncio “slow motion” da Carlton Draught.
Marca: Carlton Draught. Título: Slow Motion. Agência: Clemenger BBDO. Direcção: Paul Middleditch. Austrália, Agosto 2010.
Não deixa de ser tentador, mas infundado, entrever neste anúncio alguma intertextualidade perversa, uma espécie de paródia do grotesco “hiper-realista” e degradante de algumas campanhas anti álcool, anti tabaco, anti obesidade e anti coiso. Atente-se, por exemplo, nos seguintes anúncios provenientes de campanhas anti álcool.
Anunciante: Binge Drinking Awareness. Titulo: Anti Binge Drinking NHS. Agência: Atticus Finch. Direcção: Chris Richmond. Reino Unido, Julho 2010.
Anunciante: Vinbúdin. Título: Don’t be a pig. Agência: Ennemm. Direcção: Sammuel & Gunner. Islândia. Maio 2008.
É provável que os promotores destes anúncios tenham razão. Mas ter razão não é o mesmo que ter a razão, e muito menos ser capaz de fazer bom uso dela. Afigura-se-me que uma campanha de sensibilização comunitária não pode dispensar o respeito pelo outro, seja este vítima ou infractor. Certos (ab)usos da razão despertam, de algum modo, velhos fantasmas, tais como as purgas dos totalitarismos do séc. XX ou os desmandos das Guerras da Religião dos séculos XVI e XVII, ambos propensos a conceber o outro como um animal ou um mostrengo. Mas há quem tendo (a) razão também a sabe utilizar, a preceito, com criatividade e bom gosto. É o caso do seguinte anúncio português premiado em Cannes.
Anunciante: Fundação Portuguesa de Cardiologia. Título: Balão. Agência: Ammirati Puris Limpas. Portugal, Julho1999

