A Deriva das Ideias

A referência à fonte das ideias é cada vez mais um luxo dispensável. Com as novas tecnologias — IA, plataformas ou redes sociais —, exorbita a partilha e dissolve-se a autoria. As ideias circulam, misturam-se, reproduzem-se, transformam-se. Às vezes, enriquecem-se; outras, perdem o rasto de quem as teve primeiro.
Talvez haja aqui uma ironia: há doze anos, escrevi que gostava das minhas ideias “sobretudo quando são quase tuas”. Hoje, quando o “quase tuas” pode significar uma circulação quase instantânea e sem origem reconhecível, a frase ganha outro sentido. Continuo a gostar de ideias que deixam de ser apenas minhas. Já não gosto tanto que, ao deixarem de o ser, deixem também de ter raiz ou história.
Não imite nada nem ninguém. Um leão que copia um leão torna-se um macaco. (Victor Hugo, 1853)
Ideias quase tuas
Gosto de ideias. De vadios e vadias. Não gosto que as atrelem a um poste de vaidade. Não me interessam as ideias de trazer ao peito. Engomadas. As ideias gostam de se amachucar. Não gosto de ideias sólidas. Prefiro vê-las esguias, a fintar catálogos, formulários, protocolos, dicionários e citações. Gosto de ideias que dançam com o erro na corda bamba. Gosto de ideias que valem mais que o dono. Gosto das minhas ideias, sobretudo quando são quase tuas. Não gosto de ideias roubadas. Quem rouba ideias não as tem.
Este anúncio argentino estreia amanhã. Podes vê-lo hoje.
Marca: TEDxRíodelaPlata. Título: Ideas quasi tuyas. Agência: Ponce. Direção: Rosca. Argentina, Setembro 2014.

