A menina dos fósforos

Pelos vistos, existem dois tipos de confinamento: o insular e o peninsular. No primeiro, confina-se por todo o lado. No segundo, confina-se por todo o lado menos por um, por sinal, enorme e tentacular. Afinal, quais são os objetivos do confinamento. Salvar vidas? Evitar o colapso da Saúde? Tudo isto é confuso. Estamos a queimar fósforos?
Entrar no mundo dos contos é um deslumbramento. A Menina dos fósforos, de Hans Christian Anderson, é um dos contos mais ilustres da humanidade. Um concentrado de ternura, compaixão e revolta. Contra a exclusão social. A adaptação da Save the Children propõe um final alternativo menos desolador. Não é um caso isolado. Sucedeu o mesmo com o Capuchinho Vermelho, de Charles Perrault. Segue o anúncio The Little Match Girl e o conto A menina dos fósforos.
“A menina dos fósforos
Estava tanto frio! A neve não parava de cair e a noite aproximava-se. Aquela era a última noite de Dezembro, véspera do dia de Ano Novo. Perdida no meio do frio intenso e da escuridão, uma pobre rapariguinha seguia pela rua fora, com a cabeça descoberta e os pés descalços. É certo que ao sair de casa trazia um par de chinelos, mas não duraram muito tempo, porque eram uns chinelos que já tinham pertencido à mãe, e ficavam-lhe tão grandes, que a menina os perdeu quando teve de atravessar a rua a correr para fugir de um trem. Um dos chinelos desapareceu no meio da neve, e o outro foi apanhado por um garoto que o levou, pensando fazer dele um berço para a irmã mais nova brincar.
Por isso, a rapariguinha seguia com os pés descalços e já roxos de frio; levava no avental uma quantidade de fósforos, e estendia um maço deles a toda a gente que passava, apregoando: — Quem compra fósforos bons e baratos? — Mas o dia tinha-lhe corrido mal. Ninguém comprara os fósforos, e, portanto, ela ainda não conseguira ganhar um tostão. Sentia fome e frio, e estava com a cara pálida e as faces encovadas. Pobre rapariguinha! Os flocos de neve caíam-lhe sobre os cabelos compridos e loiros, que se encaracolavam graciosamente em volta do pescoço magrinho; mas ela nem pensava nos seus cabelos encaracolados. Através das janelas, as luzes vivas e o cheiro da carne assada chegavam à rua, porque era véspera de Ano Novo. Nisso, sim, é que ela pensava.
Sentou-se no chão e encolheu-se no canto de um portal. Sentia cada vez mais frio, mas não tinha coragem de voltar para casa, porque não vendera um único maço de fósforos, e não podia apresentar nem uma moeda, e o pai era capaz de lhe bater. E afinal, em casa também não havia calor. A família morava numa água-furtada, e o vento metia-se pelos buracos das telhas, apesar de terem tapado com farrapos e palha as fendas maiores. Tinha as mãos quase paralisadas com o frio. Ah, como o calorzinho de um fósforo aceso lhe faria bem! Se ela tirasse um, um só, do maço, e o acendesse na parede para aquecer os dedos! Pegou num fósforo e: Fcht!, a chama espirrou e o fósforo começou a arder! Parecia a chama quente e viva de uma candeia, quando a menina a tapou com a mão. Mas, que luz era aquela? A menina julgou que estava sentada em frente de um fogão de sala cheio de ferros rendilhados, com um guarda-fogo de cobre reluzente. O lume ardia com uma chama tão intensa, e dava um calor tão bom! Mas, o que se passava? A menina estendia já os pés para se aquecer, quando a chama se apagou e o fogão desapareceu. E viu que estava sentada sobre a neve, com a ponta do fósforo queimado na mão.
Riscou outro fósforo, que se acendeu e brilhou, e o lugar em que a luz batia na parede tornou-se transparente como tule. E a rapariguinha viu o interior de uma sala de jantar onde a mesa estava coberta por uma toalha branca, resplandecente de loiças finas, e mesmo no meio da mesa havia um ganso assado, com recheio de ameixas e puré de batata, que fumegava, espalhando um cheiro apetitoso. Mas, que surpresa e que alegria! De repente, o ganso saltou da travessa e rolou para o chão, com o garfo e a faca espetados nas costas, até junto da rapariguinha. O fósforo apagou-se, e a pobre menina só viu na sua frente a parede negra e fria.
E acendeu um terceiro fósforo. Imediatamente se encontrou ajoelhada debaixo de uma enorme árvore de Natal. Era ainda maior e mais rica do que outra que tinha visto no último Natal, através da porta envidraçada, em casa de um rico comerciante. Milhares de velinhas ardiam nos ramos verdes, e figuras de todas as cores, como as que enfeitam as montras das lojas, pareciam sorrir para ela. A menina levantou ambas as mãos para a árvore, mas o fósforo apagou-se, e todas as velas de Natal começaram a subir, a subir, e ela percebeu então que eram apenas as estrelas a brilhar no céu. Uma estrela maior do que as outras desceu em direcção à terra, deixando atrás de si um comprido rasto de luz.
«Foi alguém que morreu», pensou para consigo a menina; porque a avó, a única pessoa que tinha sido boa para ela, mas que já não era viva, dizia-lhe muita vez: «Quando vires uma estrela cadente, é uma alma que vai a caminho do céu.»
Esfregou ainda mais outro fósforo na parede: fez-se uma grande luz, e no meio apareceu a avó, de pé, com uma expressão muito suave, cheia de felicidade!
— Avó! — gritou a menina — leva-me contigo! Quando este fósforo se apagar, eu sei que já não estarás aqui. Vais desaparecer como o fogão de sala, como o ganso assado, e como a árvore de Natal, tão linda.
Riscou imediatamente o punhado de fósforos que restava daquele maço, porque queria que a avó continuasse junto dela, e os fósforos espalharam em redor uma luz tão brilhante como se fosse dia. Nunca a avó lhe parecera tão alta nem tão bonita. Tomou a neta nos braços e, soltando os pés da terra, no meio daquele resplendor, voaram ambas tão alto, tão alto, que já não podiam sentir frio, nem fome, nem desgostos, porque tinham chegado ao reino de Deus.
Mas ali, naquele canto, junto do portal, quando rompeu a manhã gelada, estava caída uma rapariguinha, com as faces roxas, um sorriso nos lábios… mor ta de frio, na última noite do ano. O dia de Ano Novo nasceu, indiferente ao pequenino cadáver, que ainda tinha no regaço um punhado de fósforos. — Coitadinha, parece que tentou aquecer-se! — exclamou alguém. Mas nunca ninguém soube quantas coisas lindas a menina viu à luz dos fósforos, nem o brilho com que entrou, na companhia da avó, no Ano Novo.”
Hans Christian Andersen
Os melhores contos de Andersen
Editora Verbo, s/d
A sereia na idade da técnica
Os contos e as lendas não nos largam. São educação pelo sonho e pela imaginação. Umas vezes os revisitamos, outras os distorcemos, como no anúncio La Syrène, dos Sauveteurs en Mer.
Passadas algumas horas, o vento começou a soprar forte. A lua e as estrelas sumiram do céu e começaram a surgir trovões e relâmpagos.
O mar estava revolto, ondas gigantescas atacavam o navio. Os marujos, assustados, retiraram as velas do navio. As pessoas gritavam assustadas. O navio balançava muito, até que uma onda gigantesca o tombou para o lado. A escuridão foi total.
Um raio iluminou o céu e a Pequena Sereia viu pessoas gritando e tentando se salvar nadando.
De repente, a pequena sereia viu o príncipe. Ele estava se afogando. Ela sentia que tinha que ajudá-lo. Ela nadou entre os destroços do navio e o alcançou.
O jovem príncipe estava desmaiado. Ela segurou firmemente, mantendo a cabeça dele para fora da água, e flutuou com ele até a tempestade passar.
Ao raiar do sol, a pequena sereia verificou que o príncipe respirava tranquilamente. Ela ficou aliviada em ver que ele estava bem, ficou tão contente que o beijou. Nadou com ele até uma praia, o deitou na areia e escondeu-se atrás das rochas (Hans Christian Anderson, A pequena Sereia. Excerto. 1837).
A pequena sereia do anúncio, um pouco mais vestida do que o habitual, não tem força para valer ao príncipe. Será preciso um objecto técnico, um colete salva-vidas, para o salvar. Como avaliaria Hans Chistian Anderson esta adaptação? E.T.A. Hoffmann (1776-1822) talvez lhe encontrasse algum interesse. À semelhança do filme Quem tramou Roger Rabbit? (1988), a parte final do anúncio combina live-action e animação, para vincar, porventura, um maior efeito de realidade.
Quando era pequeno, devorava “revistas aos quadradinhos”. Identificava-me, sobretudo, com o Pateta, leal, voluntarioso, trabalhador, aplicado, mas sem resultados ou com resultados catastróficos, e com o Zé Carioca, preguiçoso, esperto, palrador e vadio, que consegue escapar aos problemas e alcançar o que deseja. Um é o contrário do outro, mas identificava-me com ambos. A identificação pode ser estrábica.
Amontoadas centenas de fotografias sobre a mesa, estranho aquelas onde figuro. Como é possível uma pessoa estranhar-se? Não é necessário ser Dorian Gray. A auto-identificação, aparentemente natural, pode revelar-se um labirinto sem fios. Fiódor Dostoievski sabia isso, tal como, cerca de trezentos anos antes, Panurgo, o amigo inseparável de Pantagruel. Como é bizarro este mundo: uma pessoa identifica-se com dois bonecos opostos e estranha-se a si mesmo.
Anunciante: Les Sauveteurs em mer. Título: La sirène. Agência: Publicis Conseil. Direcção: Flying V. França, Novembro 2016.
Sociologia sem palavras 12. Artes do poder
Sabe bem jejuar das superproduções globais. O Rei e o Pássaro é um magnífico filme de animação, de Paul Grimault, inspirado no conto A Pastora e o Limpa-chaminés, de Hans Christian Anderson. O texto, de Jacques Prévert, e a música, de Wojciech Kilar, são ambos excelentes. Vários realizadores japoneses se confessam influenciados por este filme. Iniciado nos anos cinquenta, este filme surrealista só foi concluído nos anos setenta. Este excerto contempla um inventário dos órgãos do Estado e o ritual do retrato do rei.
Sociologia sem palavras 12. Artes do poder. Excerto de Le Roi et l’Oiseau, de Paul Grimault. 1980
A revolta dos brinquedos
Os brinquedos e os contos alicerçam o nosso imaginário. O Quebra-Nozes e o Rei dos Camundongos (1816), de E.T.A. Hoffmann, é um conto clássico: o soldado quebra-nozes, oferecido à menina Marie, adquire vida e luta contra os Camundongos. Volvidos escassos anos, Hans Christian Andersen escreve O Soldadinho de Chumbo (1838): um soldadinho sem uma perna, oferecido a um menino, apaixona-se por uma boneca bailarina, enfrentando vários desafios.
Neste anúncio da Nissan, o brinquedo fantástico não é um soldadinho, mas uma miniatura de super-herói. Mudam-se os tempos, mudam-se, mas pouco, os fantasmas. O protagonista também não é uma criança, mas um adulto. Não espanta. Os historiadores, os demógrafos e os sociólogos defendem que não só a esperança de vida tem aumentado como os seres humanos crescem mais devagar. Se os bonecos fossem de peluche, este anúncio seria o prenúncio do Gremlins 4.
Marca: Nissan. Título: Revenge. Agência: TBWA Toronto. Direção: Leigh Marling. Canadá, Outubro 2014.
