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O superpoder do homem banal

 

Gigliola

Gigliola Cinquetti

Os artigos anteriores pecam por excesso de pretensão intelectualóide. Costuma curar-se com uma pitada de humor, se possível, brejeiro, acompanhada por um dedo de música ligeira. É um excelente oxigenante cerebral.

O anúncio Power of the Crunch, da Doritos, convoca a magia e o superpoder. Como a poção mágica do Asterix ou os espinafres do Popeye. Uma dentada num dorito e o maravilhoso acontece. Uma “mulher objeto” fica toda despida, excepto a lingerie; a caixa do multibanco tem uma disenteria de dinheiro; o polícia fica reduzido a um macaco. O que passa pela cabeça de um homem quando come um dorito? O mesmo de sempre: sexo, dinheiro e poder! Apenas falta a desmancha-prazeres do costume: a morte num autocarro. Mas, para uma vida de prazer, a morte é pequeno estorvo.

Marca: Doritos. Título: Power of the crunch. Direcção: Eric Heimbold. Estados Unidos, Janeiro 2009.

“Sexo, dinheiro e poder”. Não resisto a recordar a canção espanhola “Salud, dinero y amor”. A saúde, a padroeira do século, no lugar do poder! A versão original data de 1967 e é interpretada por Cristina y los Stop (https://www.youtube.com/watch?v=q6VapvI_uv0). Opto pela interpretação de Gigliola Cinquetti (1968), tão fresca e tão bonita! Não é a primeira vez que coloco uma canção de Gigliola Cinquetti; aproveito para acrescentar a canção Dio come ti amo, de 1966.

Gigliola Cinquetti y El Trío Los Panchos. Salud, Dinero y Amor. 1968.

Gigliola Cinquetti. Dio, Come Ti Amo. Filme Dio, Come Ti Amo. 1966.

Discos pedidos

 

Temos uma Europa de cidadãos, não temos uma Europa dos cidadãos. As decisões nunca moraram tão longe, nem se concentraram tanto. Esperava-se que a União Europeia aproximasse os povos, afinal separa-os. Abertura ao exterior, clausura interna. Nunca senti Portugal tão longe da Itália. Os italianos deixaram de compor música? De fazer filmes? De escrever livros? Ressalvando a moda, o “Vaticano” e o programa Erasmus, instalou-se uma ignorância recíproca. Recordo que no programa de discos pedidos Quando o Telefone Toca, do Rádio Clube Português, ainda no tempo de Salazar, as canções italianas figuravam entre as mais concorridas. Era o programa preferido de minha tia, que, volvido meio século, vai reouvir Non Ho L’eta (1964), de Gigliola Cinquetti, Non Son Degno di Te (1965), de Gianni Morandi; ou L’Arca di Noe (1969), de Sergio Endrigo. Entre os filmes anunciados nas casas de cinema era habitual constar um ou outro italiano. Nos livros publicados pelo Círculo dos Leitores, criado em 1971, os autores italianos destacavam-se. O que aconteceu? Um colapso da arte ou um colapso do gosto? A jangada de pedra ibérica está a afastar-se da jangada de mármore italiana? A não ser colapso da arte nem do gosto, será um problema de comunicação associável à arquitectura europeia? Uma comunidade plural que pretende falar a uma só voz corre o risco de ficar afónica.

Gigliola Cinquetti, Non Ho L’eta. Original 1964.

Gianni Morandi, Non Son Degno di Te: =riginal 1965.

Sergio Endrigo, L’Arca di Noe. Original 1969.