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A carreira no reino da parvoíce

Mordillo (1932-2019)

Os actores sociais, quanto menos hipóteses de carreira têm, mais carreiristas ficam. Este paradoxo é um desafio para a sociologia. Colide com o princípio da “causalidade do provável”, da sociologia praxeológica de Pierre Bourdieu. Colide, também, com o modelo da relação entre apostas e expectativas, proposto pelo individualismo metodológico de Raymond Boudon. Para colmatar estas aberrações, Pierre Bourdieu importou da química a noção de histerese: a prossecução de uma reacção comportamental para além das condições que a justificaram. Quanto a mim, hesito entre histerese e histeria.

Mordillo. As Girafas. 1973.

Mudemos de assunto que este é polémico.

Mordillo faleceu há uma semana, no dia 29 de Junho de 2019. Fonte de inspiração com humor colorido. Se tivesse que decorar o quarto de um neto, optava pelos seus desenhos. Mordillo, tal como Quino, não é um sociólogo, mas um sábio da humanidade. Prefiro a ironia gentil do Mordillo ao elogio programado da tribo.

Memória puxa memória, há muito tempo, cantarolei em coro, nas ruas tranquilas de uma praia do Norte, a canção Le Roi (des Cons), de Georges Brassens (1972). Brassens tem razão: nunca destronaremos o rei dos parvos.

Georges Brassens. Le Roi (des Cons). Fernande. 1972.

Confidências de um guarda-chuva solitário

Pendurado na cancela. Fotografia de João Gigante. Livro Pedra e Pele. 2018.

O meu dono deixou-me pendurado nesta cancela metálica. Deixou-me a falar com os meus botões. Um guarda-chuva não fala? Se assim o diz, mas, na verdade, não pode não comunicar, como os humanos de Erving Goffman. O meu dono deixou-me aqui sozinho e pendurado. Pareço um marco ou um padrão: este território tem dono e o dono anda por perto. Sinais de guarda-chuva! Quem passa olha para mim e inteira-se: o Tio Zé anda nos campos. Se não houvesse outras possibilidades, a minha capacidade de comunicar seria questionável. Mas quando há alternativas, a vontade e o sentido intrometem-se. O meu dono possui dezenas de sítios para me colocar. Por exemplo, dentro da propriedade. Mas coloca-me logo à entrada. De outro modo, os transeuntes não saberiam que o Tio Zé está no campo. Para me consolar, sonho que sou um guarda imperial na fronteira de um “reino maravilhoso” (Miguel Torga).

Disse que lembro um marco. Nestes tempos de satelização, assemelho-me também a um ponto de GPS. Na minha aldeia, passa-se a palavra. Uma pessoa pode não estar comigo e saber onde estou. O Tio Zé? O Tio Zé está no campo, deixou o guarda-chuva à entrada.

Pendurado nesta cancela, aguardo a hora da missa. Se chover, vamos em cortejo. Os guarda-chuvas e os donos (ver A Sociedade dos guarda-chuvas). Abrem-se as varetas como os anjos abrem as asas. Discursos e sinais à parte, a nossa missão não é falar, é molhar-nos pelos outros.

Os guarda-chuvas apreciam a música e a dança. Quem não se lembra de Singin’ in the rain (1952)? Entre a cancela e a igreja, apetece ouvir a canção Le Parapluie (original de Georges Brassens, 1952) na versão de Yann Tiersen & Natacha Regnier (2001), com fotografias de Robert Doisneau.

Yann Tiersen & Natacha Regnier. Le Parapluie. 2001.

Pode ser!

Georges Brassens“Um dia surgirá, por distracção do senhor, uma geração com direito a tudo e vontade de nada, bem-aventurada nos recursos e melancólica nas consequências. A geração do “pode ser” consta entre as mais esfíngicas dos últimos séculos” (AG, 2016).

O anúncio Scouts (Canal Digital) é absurdo, um exemplo de absurdo lógico. Com boa consciência e decisão ajustada, um grupo de escuteiros ajuda criminosos homicidas. A “ética da convicção” impele-os a ajudar o próximo. Trata-se, segundo Max Weber, de “uma acção racional com relação a valores” (Economia e Sociedade, 1910/1922), ou, segundo Vilfredo Pareto, de “uma acção não-lógica do 2º género” (Tratado de Sociologia Geral, 1916). Soa a “estúpido”, resumiria Carlo Cipolla (Allegro ma non troppo, 1976).

O anúncio Scouts é ousado. À primeira leitura, estranha-se, eventualmente, por “dissonância cognitiva” (Leon Festinger, A Theory of Cognitive Dissonance, 1957). À segunda leitura, percebe-se a narrativa, mas o anúncio não se entranha. À terceira, comenta-se. Vem à memória a palavra francesa con: “idiota”, segundo os dicionários. Na verdade, não existe nenhuma palavra portuguesa com “valor” semelhante. Basta o francês con significar também o sexo feminino. Os franceses abusam da palavra, mas não nos iludamos: os franceses têm a palavra e a realidade; nós não temos a palavra, mas temos a realidade. Georges Brassens, na canção Le temps ne fait rien à l’affaire (1961) repete 29 vezes a palavra con. Se pode ser, com algum jeito, também pode fazer. Angelo Branduardi mostra, na canção Si Può Fare, o quanto se pode fazer, em todos os sentidos e com as devidas contradições.

Marca: Canal Digital. Título: Scouts. Agência: TBWA/Stockholm. Direcção: Bart Timmer. Suécia, Maio 2016.

Charles Brassens. Le temps ne fait rien à l’affaire. 1961.

Angelo Banduardi. Si può fare. Si può fare. 1992. Ao vivo, em 1996.