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Pandemónio. Vulnerabilidade auditiva

Volkswagen. Let’s Go. 2022

Segundo Georg Simmel, a relação com o mundo e com os outros tende a mudar consoante os sentidos mobilizados.

“Do ponto de vista sociológico, a orelha distingue-se do olho também pela ausência desta reciprocidade que institui o olhar face a face. Por natureza, o olho, não consegue abranger sem receber ao mesmo tempo, enquanto que a orelha é o órgão egoísta por natureza que recebe e não dá; a sua forma exterior parece quase um símbolo disso, porque ela dá a impressão de um apêndice passivo da figura humana, o menos móvel de todos os órgãos da cabeça. Paga este egoísmo com a sua incapacidade de se desviar ou fechar, à semelhança do olho; como pode apenas recolher está condenada a receber tudo o que se passa ao seu alcance” (Simmel, Georg, 1ª ed. 1908, Sociologie, Paris, Presses Universitaires de France, 1999, pp. 634-635).

O ouvido é, portanto, mais vulnerável do que o olho. Ao mesmo tempo, mais exposto à intrusão e mais perturbador só o olfato, mas num espaço mais restrito, circunscrito à “esfera da intimidade”. A maior vulnerabilidade, e correspondente intrusão, do ouvido face ao olho justifica que, ao nível do audiovisual, se recorra mais frequentemente ao som do que à imagem para significar o mal-estar e a agressão ambiental. É o caso do anúncio sul-africano Let’s Go, da Volkswagen, em que a protagonista é assediada por todo o tipo de ruídos.

Marca: Volkswagen. Título: Let’s Go. Agência: Ogilvy (Cape Town). Direção: Fausto Becatti. República da África do Sul, junho 2022.

Alegria dos sentidos

Jeep. Earth Odyssey. 2021.

Deixemos descansar a razão no colo dos sentidos. Georg Simmel aborda, no ensaio dedicado à sociologia dos sentidos (1981, Sociologie et épistémologie. Paris, PUF), a visão, o ouvido e o olfato. Para ele, “é muitas vezes o que ouvimos que nos permite saber o que vemos” (Paquot, Thierry, 2012, “En lisant Georg Simmel”, Hermès, La Revue 2012/2 (n° 63), pages 21 à 25). No anúncio 2021 Earth Odyssey, da marca Jeep, por extraordinárias que sejam as imagens, quem comanda a dança é o som. Um belíssimo anúncio. Não me importava ser o autor.

Marca: Jeep. Título: 2021 Earth Odyssey. Agência: Highdive. Direção: Lance Acord. Estados-Unidos, março 2021.
Richard Strauss: Also sprach Zarathustra / Gustavo Dudamel, conductor · Berliner Philharmoniker / Recorded at the Berlin Philharmonie, 28 April 2012.

Os sentidos na interação social

Na Digressão sobre a sociologia dos sentidos (1927), Georg Simmel aborda o modo como os sentidos participam na interacção humana. É um texto notável, a ler e reler sem vontade de bocejar. Um desequilíbrio nos sentidos pode afectar a normalidade social. No anúncio Overheard, da Eargo, o excesso de audição do pai perturba a família, que se descobre exposta a uma intrusão descontrolada.

Marca: Eargo. Título: Overheard. Agência: Huge. Estados Unidos, Janeiro 2020.

Sociologia sem palavras. Não há três sem dois.

Charlie Chaplin The Kid

A nossa relação com a profissão parece um tango. Entre distâncias e proximidades, ocorre-nos pensar: é pena não saber fazer outra coisa. Péssimo sinal, sinal que estamos cativos e enredados nos passos da dança. É ela quem comanda.

Georg Simmel (Sociologia, 1908) foi pioneiro ao estudar a importância do número na configuração e na interacção dos grupos. Por exemplo, quando se passa de um grupo com dois membros (díade) para um grupo com três membros, tríade, acontecem várias alterações: a possibilidade de fazer coligações ou a figura do bode expiatório. Neste excerto do filme The Kid (1921), de Charlie Chaplin, um grupo com dois membros funciona primorosamente como uma equipa. A aparição de um terceiro elemento, transforma a equipa numa coligação de dois contra um: a mulher como vítima ou o polícia como ameaça.

Charlie Chaplin. The Kid (excerto). 1921.

Perfume, Comunicação e Personalidade

Pascal está de folga. É a vez de outro autor trágico: Georg Simmel. Este excerto sobre o perfume é revelador do seu estilo de pensamento assente na aproximação paradoxal de contrários.

Georg Simmel

Georg Simmel

“O perfume artificial desempenha um papel sociológico ao promover, no domínio do odor, uma síntese estranha de teleologia simultaneamente egoísta e social. O perfume logra pelo intermédio do nariz os mesmos efeitos que os outros adereços conseguem pelo intermédio dos olhos. Acrescenta à personalidade algo completamente impessoal, algo que vem do exterior mas que se lhe incorpora tão bem que dela parece se desprender. Aumenta a esfera da pessoa causando uma impressão semelhante aos fogos do diamante e aos reflexos do ouro. Quem se aproxima mergulha nesta atmosfera; fica de algum modo preso na esfera da personalidade. Tal como as peças de vestuário, o perfume encobre a personalidade realçando-a” (Simmel, Georg, 1981, Sociologie et Epistémologie, Paris, PUF, p. 237-238).

Marca: Yves Saint-Laurent – Opium. Título: La droguée du parfum. Direcção: David Lynch. França, 1990.

Na publicidade, a erotização não se limita aos alimentos. A sensualidade dos perfumes também é proverbial. Existem imensos exemplos. Optámos por uma dupla de luxo: o estilista Yves Saint-Laurent e o realizador David Lynch, unidos na campanha do perfume Opium.

Marca: Yves Saint-Laurent – Opium. Título: Natalia Vodianova. Direcção: David Lynch. França, 1999.

Atendendo à quebra obsessiva da natalidade, não seria oportuno promover, a exemplo dos automóveis de luxo, um concurso de perfumes? Volto a bater no ceguinho. Não tenho emenda. O aumento da natalidade não é uma boa causa? Cheguei a uma velhice do Restelo crónica. A justeza das causas pouco me apoquenta, interessa-me, isso sim, a generosidade dos resultados. A força das causas não compensa a fraqueza dos meios. À grandeza das causas, prefiro as pequenas obras, menos dadas a deploráveis consequências.

Não há dois sem três

delta-push-up-che-guevaraNa cultura indo-europeia, o número três goza de um estatuto especial (Emile Benveniste, Le Vocabulaire des Institutions Indo-européennes, Paris, Ed. de Minuit, 1969). Georg Simmel (The Sociology of Georg Simmel, Glencoe, Illinois, The Free Press, 1950) releva, a propósito da composição quantitativa dos grupos, que quando se passa de uma díade para uma tríade ocorrem alterações decisivas. O que é impossível numa díade torna-se frequente numa tríade: a criação de coligações, ou seja, a disposição de dois contra um (Theodore Caplow, Two Against One: Coalitions in Triads, Englewood Cliffs, nj, Prentice-Hall, 1968). Esta fractura conflitual não é, porém, uma fatalidade. Existem trios com relações harmoniosas, ou seja, dois com um e um com dois. Esboçado este breve enquadramento teórico, podemos entregar-nos à observação empírica deste anúncio israelita da Delta Lingerie.

Marca: Delta Lingerie. Título: Mix&Relax. Agência: ACW Grey Tel Aviv. Direção: Ohav Flantz. Israel, Novembro 2013.