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Para uma sociologia do polvo

A reportagem Sabe porque no Norte do País o polvo é o prato da Consoada, de Ricardo J. Rodrigues (Notícias Magazine. 08-12-2017), é uma espécie de sociologia do polvo, notável pela ideia e pelo modo. Tive o gosto de participar. Para aceder, carregar na imagem.

O polvo ainda é o prato tradicional da noite de Consoada junto à fronteira com a Galiza. Um ato de resistência contra o tempo.. Fotografia de Gonçalo Delgado.

O polvo ainda é o prato tradicional da noite de Consoada junto à fronteira com a Galiza. Um ato de resistência contra o tempo. Fotografia de Gonçalo Delgado.

Sentir para além dos sentidos

Marcel Proust

Marcel Proust

Este anúncio lituano é deliciosamente bucólico. Muitos anúncios de produtos alimentares optam pelo bucólico. Bucólico e bucal. Embora o pareça,  creio nada ter a ver com uma fixação ou regressão oral, Este anúncio serve-nos uma gastronomia bucólica com o tempero nostálgico do regresso às origens. Neste mundo de apetites, o sabor simbólico dos alimentos é apreciado em qualquer lugar por qualquer motivo. Sentir para além dos sentidos é uma experiência, um encantamento. Leia-se, por exemplo, Marcel Proust (ver texto a seguir ao anúncio).

Marca: Iki. Título: Welcome Back. Agência: MILK, Vilnius, Lithuania. Direção: Nicole Volavka. Lituânia, Maio 2014.

A madalena de Proust

“Por um dia inverno, ao voltar para casa, vendo minha mãe que eu tinha frio, ofereceu-me chá, coisa que era contra os meus hábitos. A princípio recusei, mas, não sei por quê, terminei
aceitando. Ela mandou buscar um desses bolinhos pequenos e cheios chamados madalenas e que parecem moldados com aquele triste dia e a perspectiva de mais um dia tão sombrio como o primeiro, levei aos lábios uma colherada de chá onde deixara amolecer um pedaço de madalena.

Mas no mesmo instante em que aquele gole, de envolta com as migalhas do bolo, tocou o meu paladar, estremeci, atento ao que se passava de extraordinário em mim. Invadira-me um prazer delicioso, isolado, sem noção da sua causa. Esse prazer logo me tornara indiferentes as vicissitudes da vida, inofensivos os seus desastres, ilusória a sua brevidade, tal como o faz o amor, enchendo-me de uma preciosa essência: ou antes, essa essência não estava em mim; era eu mesmo. Cessava de me sentir medíocre, contingente, mortal.

De onde me teria vindo aquela poderosa alegria? Senti que estava ligada ao gosto do chá e do bolo, mas que o ultrapassava infinitamente e não devia ser da mesma natureza. De onde vinha? Que significava? Onde aprendê-la? Bebo um segundo gole em que não encontro nada demais que no primeiro, um terceiro que me traz um pouco menos que o segundo. É tempo de parar, parece que está diminuindo a virtude da bebida. É claro que a verdade que procuro não está nela, mas em mim.

A bebida a despertou, mas não a conhece, e só o que pode fazer é repetir indefinidamente, cada vez com menos força, esse mesmo testemunho que não sei interpretar e que quero tornar a solicitar-lhe daqui a um instante e encontrar intacto à minha disposição, para um esclarecimento decisivo. Deponho a taça e volto-me para o meu espírito. É a ele que compete achar a verdade. Mas como? Grave incerteza todas as vezes em que o espírito se sente ultrapassado por si mesmo, quando ele, o explorador, é ao mesmo tempo o país obscuro a explorar e onde todo o seu equipamento de nada lhe servirá. Explorar? Não apenas explorar: criar. Está em face de qualquer coisa que ainda não existe e a que só ele pode dar realidade e fazer entrar na sua luz.”

(Marcel Proust. Em busca do tempo perdido: No caminho de Swann. 1913).

Terrivelmente delicioso

Peixe Leão. Colômbia
O anúncio Terribly Delicious incide sobre uma variedade de peixe que se tornou uma epidemia ambiental. Para o combater, nada como o transformar em petisco nacional. Coma-se a praga!

Por cá, também existem infestantes. Se nas águas do Pacífico prolifera o peixe leão, no nosso País, nada o peixe gato e engorda o peixe orçamento (budget fish). Falta-nos, no entanto, a voracidade colombiana. O peixe orçamento tira-nos o apetite.

Anunciante: Ministerio de Ambiente y Desarrollo. Título: Terribly Delicious. Agência: Geometry Clobal Colombia / Ogilvy & Mather. Direção: Agustin Calderon. Colômbia, Maio 2014.