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O enigma da arte comestível

How real is real? (Paul Watzlawick, 1976). Até que ponto a realidade é real? A autoria e a responsabilidade tornaram-se esfíngicas, diluídas? Quão bananas somos aqueles que navegamos na galeria virtual da vida? Serão necessários uns óculos Ray-Ban Meta (AI) para, além de acompanhados e assistidos, andarmos confusos e divididos?

Marca: Ray-Ban Meta. Título: BIG Game Spot Ft. Chris Hemsworth, Chris Pratt + Kris Jenner. Extended version. Direção: Matthew Vaughn. USA, fevereiro 2025

Amores humanos e lugares sagrados

O Canadá é um berço ímpar de intérpretes musicais: Neil Young, Leonard Cohen, Diana Krall, Celine Dion, Alanis Morissette… Chantal Chamberland destaca-se como um desses talentos. Ousa dar um toque pessoal, com um muito ligeiro sotaque québequois, a canções que nos convencemos ser indissociáveis das celebridades que as imortalizaram, tais como Joséphine Baker, Charles Trenet, Jacques Brel ou Yves Montand.

Imagem: No Mosteiro de Tibães. Fotografia de Maria Fátima Machado Martins

Guimarães também é berço. Da Nação e de excelentes artistas visuais.

Antigo emigrante em França, adoro entreter-me a faire des bricoles. Desta vez, deu-me para sobrepor duas séries relativamente extensas: uma lista com canções interpretadas pela Chantal Chamberland e uma galeria com fotografias da Maria Fátima Machado Martins. Preguiçoso, confinei a seleção às fotografias partilhadas que tirou no Mosteiro de Tibães, um recanto privilegiado para atividade e retiro. A Chantal Chamberland tanto canta em inglês como em francês. Por agora, abracei a segunda língua. Condiz mais com a minha cara. Quando se produz um regalo, importa assiná-lo!

A cada fotografia corresponde uma canção, identificada na respetiva legenda. Insinua-se uma certa dissonância entre ambas: as canções prendem-se com amores humanos e as fotografias com lugares sagrados. Na verdade, amores humanos e lugares sagrados não são de todo incompatíveis.

Chantal Chamberland – J’ai deux amours (Joséphine Baker, 1930). Soirée, 2014. Fotografia do Mosteiro de Tibães por Maria Fátima Machado Martins
Chantal Chamberland – Que reste-t-il de nos amours? (Charles Trenet, 1943) Soirée, 2014. Fotografia do Mosteiro de Tibães por Maria Fátima Machado Martins
Chantal Chamberland – Les feuilles mortes (Yves Montand, 1949). Serendipity Street, 2003. Fotografia do Mosteiro de Tibães por Maria Fátima Machado Martins
Chantal Chamberland – Ne me quitte pas (Jacques Brel, 1959). Serendipity Street, 2003. Fotografia do Mosteiro de Tibães por Maria Fátima Machado Martins
Chantal Chamberland – Dis moi (The Beatles, 1966). Soirée, 2014. Fotografia do Mosteiro de Tibães por Maria Fátima Machado Martins
Chantal Chamberland – Je l’aime à mourir (Francis Cabrel, 1979). Autobiography, 2015. Fotografia do Mosteiro de Tibães por Maria Fátima Machado Martins
Chantal Chamberland – Mon mec à moi (Patricia Kaas, 1988). Soirée, 2014. Fotografia do Mosteiro de Tibães por Maria Fátima Machado Martins

Testemunhos

Leica. The World Deserves Witnesses, 1. TBWA Paris. Fotógrafo Eliott Erwitt. França, março 2022.

O mundo precisa de testemunhas e de testemunhos. A fotografia é um dos mais válidos, oportunos e expressivos. A não ser quando é fabricada. Neste último caso, pode, eventualmente, aproximar-se da arte ou, inclusivamente, tornar-se mais real do que o real. O anúncio da Leica, The World Deserves Witnesses, providencia uma magnífica galeria de imagens.

Marca: Leica. The World Deserves Whitnesses. Agência: TBWA\Paris. Internacional, 2021.

Super-humanos

We're the Superhumans

“O indivíduo estigmatizado pode, também, tentar corrigir a sua condição de maneira indireta, dedicando um grande esforço individual ao domínio de áreas de atividade consideradas, geralmente, como fechadas, por motivos físicos e circunstanciais, a pessoas com o seu defeito. Isso é ilustrado pelo aleijado que aprende ou reaprende a nadar, montar, jogar tênis ou pilotar aviões, ou pelo cego que se torna perito em esquiar ou em escalar montanhas” (Erving Goffman, Estigma, 1963).

Há várias formas de lidar com o estigma. Por exemplo, ultrapassar os limites. O indivíduo estigmatizado, portador de deficiência, excede-se num gesto que o aproxima do estatuto de um herói ou de um semideus. É uma forma não vitimizadora de lidar com o estigma.

O anúncio, excelente, da Channel 4, para os Paralímpicos de 2016, no Rio de Janeiro, convoca atletas, músicos e artistas que superam as suas próprias limitações: We’re the Superhumans. O anúncio apresenta seres humanos extraordinários. Recuando no tempo, insinuam-se os fantasmas dos circos e das galerias dos séculos XIX e XX. Atente-se, por exemplo, no filme O Homem Elefante (1980), de David Lynch, inspirado no caso de Joseph Merrick (1866-1890). De deriva em deriva, o anúncio aproxima-se de uma galeria da era digital.

Marca: Channel 4. Título: We’re the Superhumans. Agência: Channel 4 Blink Productions. Direcção: Dougal Winson. UK, Julho 2016.

Com um brilho nos olhos

Städtische Galerie Dresden

Städtische Galerie Dresden

Eu não gosto de fazer nada, mas não me importava de ter feito este anúncio. E sugerir a cada um dos milhões de espectadores: tu não és cinzento, mereces um Golf! E deixá-lo com um brilho nos olhos, daqueles que iluminam o ego. Este anúncio não precisava do prémio em Cannes para se impor como uma excelente peça de comunicação.

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Marca: Golf. Título: La Galerie d’art. Agência: DDB. Direcção: Xavier Giannoli. França, 1999

A porca e o parafuso

Nos últimos dias, tomei conhecimento de duas iniciativas: a plataforma SHAIR (www.shairart.com), associada à galeria Emergentes, implementada pela empresa DST (Domingos da Silva Teixeira); e a limitação do acesso a redes sociais nas escolas por decisão do Governo. A primeira abre, a segunda, fecha. Ainda bem! Se todos abrissem as portas, a ventania arejava demasiado os espíritos. Em termos atmosféricos, não há nada como o ar condicionado.


DST. SHAIR. Como Funciona. Março 2014.

A DST, empresa sedeada em Braga, é reputada pelo apoio à cultura e à arte. A presente iniciativa aposta na divulgação e na avaliação de obras de arte, cruzando um espaço online, SHAIR (digital), com uma galeria física (Emergentes), sita na Rua do Raio, em Braga. “O “conceito” da plataforma consiste na “oportunidade” dada a artistas de exporem as suas obras sujeitando-as à votação do público, e de um especialista convidado pela dst, sendo que as mais votadas serão, depois, expostas no espaço físico da Galeria Emergentes dst” (Lusa, 20 de Março). Para mais informação, ver o anúncio promocional (vídeo 1) e a reportagem da Tv Minho (vídeo 2).


Tv Minho. Março 2014.

“No final da semana passada, as escolas receberam um e-mail da Direção Geral de Estatísticas da Educação e Ciência (DGEEC) anunciando que o acesso a determinadas redes sociais e aplicações, tais como o Youtube, passava a estar “limitado a uma utilização máxima”, ou o Facebook, Instagram e Tumblr, que ficariam indisponíveis durante toda a manhã até às 13h30 e depois do almoço teriam também um “limite de utilização máxima”” (Lusa, 26 de Março de 2014). Pelos vistos, o motivo é técnico:Questionado pela Lusa sobre a decisão de limitar aquelas redes e aplicações, o Ministério da Educação e Ciência (MEC) explicou que a DGEEC “verificou que a pressão sobre a rede decorria do acesso a determinados sites/aplicações que não são essenciais ao funcionamento das escolas e das atividades letivas”. Trata-se de garantir “as condições para o normal funcionamento da internet das escolas, quer para atividades letivas, quer para os serviços administrativos e similares”.

O problema é, portanto, técnico. Quer-me parecer que todos os problemas neste País são técnicos. E os nossos técnicos que são os melhores do mundo… Os melhores! E não há modo de casar o técnico com a técnica? A culpa deve ser, mais uma vez, do povo. Técnicos tão bons lá no alto e nós, cá em baixo, tão desaparafusados…

Maio 68. É proibido proibir.

Maio 68. É proibido proibir.

Sou injusto, mas a memória é vadia. Este problema técnico lembra-me o meu tempo do banco da escola. Lembra-me a proibição da Coca-Cola e dos livros. Lembra-me, também, a despropósito, o imposto dos isqueiros. Anda uma pessoa a desgastar neurónios para propor cursos oportunos e sustentáveis e a solução aqui tão perto: um mestrado em ciências da proibição.