Tag Archive | fogo

O cru e o cozido

Levi-straussSaiu hoje o anúncio La découverte du feu, da Burger King, segunda empresa de hamburgers em França, logo a seguir à McDonald’s. O anúncio é delirante, recheado com situações hilariantes. O herói descobre o fogo, mas não sabe como o utilizar. Em vias de desistir, dá-se conta, por acaso, que a carne “queimada” tem um cheiro e um sabor maravilhosos. Sublinhe-se que os hamburgers Burger King são os únicos feitos em chamas. Este desvio pela pré-história, pelo fogo e pelos hamburgers inspira-me uma asneira. A divisão da história da humanidade em três eras: a era do cru, a era do cozido e a era do podre. Este disparate é uma homenagem arrevesada a Claude Lévi-Strauss.

Marca: Burger King. Título: La découverte du feu. Agência: Buzzman. Direcção: The Perlorian Brothers. França, Agosto 2016.

O Fumeiro da Razão

Este anúncio da Three Mobile assume que o rugby tem uma ética e uma estética próprias. Uma virilidade cavalheiresca. O rinoceronte, as borboletas e as chamas dorsais constituem soluções de comunicação originais. Festivo, hipnótico, purificador, o fogo aquece os ânimos. As fogueiras de São João e de São Martinho, as velas das procissões, os isqueiros dos concertos, os carros incendiados nos protestos de rua, os sopradores de fogo e a pirotecnia galvanizam a efervescência colectiva.

Marca: Three Mobile. Título: All it Takes is Everything. Agência: Boys and Girls. Direcção: Brett Foraker. Irlanda, Fevereiro 2015.

O fogo era arte dos saltimbancos medievais e magia na forja do ferreiro. A iluminura Le Bal des Ardants, que antecipa o anúncio, remonta ao séc. XV. O fogo fascina-nos. De pirófilo e pirómano, todos temos um pouco. “O inferno são os outros”? O inferno somos nós, está dentro de nós. As memórias mais indeléveis estão gravadas a fogo: a “menina de Napalm” da guerra do Vietname; a imolação do monge tibetano e do estudante de Praga; as torres gémeas em chamas.

Le bal des ardants. British Library MS Harley 4380, folio 1, 15th Century.

Le bal des ardants. British Library MS Harley 4380, folio 1, 15th Century.

O fogo é purificador. Tudo apodrece na água, na terra e no ar; nada apodrece no fogo. “Tu és pó e ao pó retornarás”. O fogo é um atalho da carne rumo à poeira. Atesta-o a cruzada contra os cátaros, bem como a Santíssima Inquisição, esse extenso fumeiro da razão. Cinzas são salvação na óptica dos detergentes do espírito que continuam a punir pelo fogo.

Ken Russel é um realizador excessivo. Barroco, a declinar para o grotesco, assinou, entre outros, os filmes Mahler, Delírio Fantástico (1974), e Tommy (1975), ópera-rock com os The Who. Este excerto de Os Diabos (1971) é violento, completamente avesso a almas sensíveis. Certo é que, volvidos quarenta anos, continua, à semelhança do Laranja Mecânica ou do Exorcista, a faiscar na nossa memória.

Ken Russel. The Devils. 1971. Excerto.

Azul e vermelho

takis-windshield-wipeAzul e vermelho, água e fogo, fogo por dentro, fogo por fora, o que é? Pelo sim, pelo não, não deite água insalubre no automóvel. Pode ter calores que requeiram resfriamento urgente. Em suma, um bom anúncio cómico e disparatado.

Marca: Takis. Título: Windshield Wiper. Agência: Publicis Dallas. Direção: Nicolas Lyer. USA, Novembro 2013.

Nina Simone. Beautiful land.

Marcas de fogo

Este anúncio da Zew Zealand Fire Service é exemplar. É minimalista até não poder mais. Nas sequências, nos movimentos, nas personagens, na cor, nas palavras e na música. E, no entanto, impressiona. Sem falhar o alvo.

Anunciante: New Zealand Fire Service. Título: Nightmares. Agência: M&C Saatchi New Zealand. Direção: Glendyn Ivin. Nova Zelândia, Janeiro 2013.

A vida por um cabelo

Esta publicidade é brutesca (brutalmente grotesca). É desconcertante. Não há ponta por onde se lhe pegue que não queime a racionalidade e se esfume em absurdo. Emoção, espanto, reviravolta. Rumo a quê? A quem? Este anúncio é uma curta-metragem bastante criativa.

Produto: Asience Shampoo. Título: Burning Sayuri. Agência: Hakuhodo. Direção: Yoshinari Kamiya. Japão, Março 2006.

À volta da lareira

Ao fim de semana, chovem menos anúncios. Boa maré para a pesca nos baús de antiguidades. À primeira sondagem, três relíquias: uma, ternurenta; outra, ousada; e a última, “nojenta”. Estes anúncios davam para uma aula de sociologia: o primeiro, a constituição de blocos de classes e fracções de classe, segundo Karl Marx; o segundo, a persistência das estruturas antropológicas do imaginário, segundo Gilbert Durand; e o terceiro, a força coerciva do grupo, segundo Emile Durkheim. Tudo sob o signo do fogo.

Anunciante: Real Fire. Título: Dog, Cat, Mouse. Agência: Saatchi & Saatchi. Direcção: Tony Kaye. Reino Unido, 1989.

Anunciante: Real Fire. Título: Python. Direcção: Tony Kaye. Reino Unido, 1990.

Marca: Coca-Cola. Título: Round the fire. Agência: Ogilvy & Mather. Direcção: Josh Taft. Argentina, 2006.

A magia do secador de cabelo

Há objectos que não estão fadados para despoletar o sonho? Por exemplo, os secadores de cabelo? Desenganem-se. Tudo, mesmo tudo, pode funcionar como faísca onírica. Pelo menos, nos vídeos de Bruno Aveillan. Sem perder beleza, a magia democratizou-se.

Apesar de este post, com três anúncios de Bruno Aveillan, já ir longo, acrescento, a propósito, o vídeo musical “Lux libera nos”, de Roberto Cacciapaglia.

Anunciante: Thermasilk. Títulos: 1) Dragon; 2) Dagger; 3) Party. Agência:  J. Walter Thompson (New York). Direcção: Bruno Aveillan. EUA, 2002.