Excelência
“Portugal já tem oitenta e dois centros de referência nos hospitais” (Público, 11.03.2016).
“Para já, o que se fica a saber é que, em 19 áreas clínicas, foram apresentadas 134 candidaturas e seleccionadas 74 (que na realidade correspondem a 82 instituições, se considerarmos todos os serviços, uma vez que há centros que vão funcionar em consórcio, o que é novidade em Portugal). Os que não foram escolhidos não serão prejudicados, porque continuam a fazer o que faziam. “Isto não serviu para seleccionar centros especializados, mas sim centros altamente especializados”, sublinha Alexandre Diniz, da Direcção-Geral da Saúde (DGS) e membro da comissão de peritos que escolheu as unidades” (Público, 11.03.2016).
Sobressalto de espanto e júbilo: “Portugal já tem oitenta e dois centros de referência nos hospitais”! Na ciência, também existem muitos centros de excelência. E mais que excelentes! Pontos de referência. Para quem? Lembro-me de uns rectângulos avermelhados que, molhados, eram pontos de referência para as moscas.
Os centros “que não foram escolhidos (…) continuam a fazer o que faziam”. Precise-se que “isto não serviu para seleccionar centros especializados, mas sim centros altamente especializados”. A avaliação esmera-se. Mais um caso nacional em que a avaliação se faz para avaliar e, por contágio, descriminar. Consequências? O arrasto do costume.
“O que muda para os doentes? Por enquanto, não haverá grandes alterações, porque para que um paciente seja tratado num destes centros precisa primeiro de ser encaminhado pelo seu clínico assistente” (Público, 11.03.2016).
Resta uma postura nacional com tradição excelente e, por sinal, de referência: esperar! Pela centelha da predição criadora do oráculo burocrático. Entretanto, vou deslocar-me para Lisboa, Porto ou Coimbra. Cidades onde a gente é gente, com centros de excelência e pontos de referência. Quanto ao clínico, mais do que um médico, espero que seja bom encaminhador e, caso disso, bom alavancador.

Boquiaberto. Escultura de uma máscara de teatro do período helenístico. Museu Arqueológico Nacional. Atenas.
As palavras têm altos e baixos. Ora estão na mó de cima, ora estão na mó de baixo. Excelência e referência são palavras em que as burocracias europeias apostam. Pouco importa se os ventos são atlânticos ou nórdicos, estas duas palavras incham que nem sapos com um cigarro na boca. Como nos vasos comunicantes, outras palavras esvaziam-se. Por exemplo, a palavra “elite”, penalizada pelo lastro histórico. Ressalve-se, porém, que não é por uma burocracia integrar uma sociedade democrática que ela é democrática. As burocracias não são democráticas!
“Portugal já tem oitenta e dois centros de referência nos hospitais”. Já? Nem sei o que pensar.Tanta excelência deve ser excelente!
Desta vez, não comento o anúncio. O anúncio ilustra, como contraponto de referência, o comentário.
Marca: Nike. Título: Jogger. Agência: Wieden+Kennedy Portland. Direcção: Lance Acord. USA, 2012.
Cereais com ética
“Não faças aos outros aquilo que não queres que te façam”. Eis uma recomendação partilhada pelas grandes religiões. Este anúncio avança com uma fórmula alternativa: “O que é bom para ti não é necessariamente bom para os outros” (“It’s not because it’s good for you, that’s good for them”). Cereais à parte, agrada-me esta nova fórmula. A primeira comporta uma forte carga egocêntrica (“não faças”, “não queres”, “te façam”). Os outros giram à volta de ego num movimento de ajustamento. A segunda, em contrapartida, é alocêntrica (“com interesses e atenções centralizados em outra pessoa”) e respeitadora da diferença (contempla a referência cardinal “bom para os outros”). Não me parece que a publicidade seja santa, mas faz milagres, como este de nos pôr a consumir cereais com ética.
Marca: Olvarit. Título: New hype: Baby fitness with personal trainer. Agência: TBWA Pride. Junho 2012.

