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O tamanho do poder

Na fantasia histórica, não existe baixinho mais célebre do que Napoleão Bonaparte. O psicólogo Alfred Adler chamou, inclusivamente, “complexo de Napoleão” ao sentimento de inferioridade associado à estatura. Na realidade, considerando a época, Napoleão não era assim tão baixinho. Media entre 1,68 metros, medidos pelo seu médico. Na primeira metade do século XIX, o homem tinha em média 1,62 metros: 6 a 7 cm menos que Napoleão. A ideia de Napoleão como anormalmente baixo pode decorrer de uma ilusão: aparecia em público rodeado pela guarda imperial, composta por autênticos gigantes. A moldura não lhe era favorável. Existem várias explicações. Acrescento duas. Tendemos a associar o poder à altura. Abraham Lincoln (1.93) e Charles de Gaulle (1,96) são dois casos exemplares. Mas abundam as “excepções”. A estatura corporal e a estatura política de Napoleão revelam-se divergentes, o que o rebaixa. Por outro lado, pode-se conjecturar que as elites eram mais altas do que a população em geral. Entre as elites, Napoleão era comparativamente baixo, como se comprova no quadro de Nicolas Gosse:

Nicolas Gosse - Napoleon receives the Queen of Prussia at Tilsit, July 6, 1807

Nicolas Gosse – Napoleon receives the Queen of Prussia at Tilsit, July 6, 1807.

Na imaginação publicitária, Napoleão é mesmo baixinho. No segundo anúncio, Napoleon, do Al Balad Newspaper, é associado a uma criança que se esforça por trepar à mesa de bilhar. No primeiro anúncio, Follow the leader, da Garmin, Napoleão conduz, invisível, um carro minúsculo. Vale-lhe o GPS. No fim do anúncio, Napoleão e o seu ”pónei” contrastam com a envergadura da guarda imperial e respectivos cavalos.

Marca: Garmin. Título: Follow the leader. Estados Unidos, 2008.

Marca: Al Balad Newspaper. Título: Napoleon. Agência H&C Leo Burnett Beirut. Direcção: Carlos Lascano. Líbano, Março de 2009.

Alice e o chocolate

Nestlé Alice

Trás e frente, dentro e fora, mole e duro, constituem alguns dos tópicos cardeais do nosso imaginário, nomeadamente no que respeita à nossa relação com o corpo e com o mundo. Destacam-se, contudo, a altura, subir e descer, e o volume, crescer e diminuir. Por exemplo, numa contenda, diz-se que fulano se agigantou, cresceu para o outro, e que sicrano se encolheu, ficou de rastos.

À semelhança da Alice de Lewis Carrol, a Alice do anúncio da Nestlé também muda de tamanho. Entre bebes, comes e leques, a Alice de Carrol vai crescendo e diminuindo, até estabilizar. A Alice da Nestlé apenas cresce. Regressa à estatura normal graças às artes mágicas do chocolate. A Alice de Carrol reduz-se até ficar muito pequena, a Alice da Nestlé apenas cresce. “A vida faz a gente crescer”. Sinais dos tempos. Os tempos da bolha.

Marca: Nestlé. Título: Alice. Agência: David Brasil. Direcção: Marcelo Burgos & Giancarlo Barone. Brasil, Fevereiro 2018.

Tori Amos. Strange little girl. Strange little girls. 2002.