Tag Archive | Esquecimento

Quem não se encosta não pesa

No contentor

A ninguém

Após ano e meio de confinamento rigoroso, agora que começo a ter forças para sair de casa (já fui a Moledo, a Melgaço, ao museu D. Diogo de Sousa, a uma reunião do Fórum Cidadania: Pela Erradicação da Pobreza e ao Mercadona), considero chegado o momento oportuno para balanço, para reequacionar a minha própria inscrição no mundo e partilhar testemunho.

Durante este longo período de isolamento e incapacidade, quase não tive visitas! Foi um aperto de solidão. A esmagadora maioria dos familiares, amigos e colegas entendeu por bem não dar esse passo. Contam-se pelos dedos das mãos as exceções, a maior parte, ironicamente, amizades da minha mulher. Ressalvo o Miguel Bandeira que me visitou mais do que uma vez. Significará este facto que passei a ter familiares de não trazer por casa, falsos amigos e colegas de pacotilha?

Não creio que esta “distância social”, esta travessia do deserto, seja imputável a um qualquer menosprezo ou apagão. Não desapareci do mapa mental dos familiares, amigos e colegas. De qualquer modo, a minha obsessiva participação nas redes sociais não o terá permitido. Continuei a bater à porta das pessoas. Este alheamento justifica-se, sobretudo, devido a dois fatores.

Não desapareci do mapa mental das pessoas. Desapareci, isso sim, da sua agenda, um risco das ausências de longa duração. Uma crise mais ou menos aguda, mas breve, por exemplo uma cirurgia, demarca um momento de visita, um clímax ou punctum no tempo. Neste caso, a afluência até pode revelar-se incomodativa. Já o afastamento prolongado, mesmo com sofrimento, tende a arrastar-se num calendário pantanoso. Não existe urgência. Sem agenda, o adiamento propicia-se. Sobra quem confesse, sinceramente, ao telemóvel, andar para me visitar há mais de um ano. Acomoda-se, eventualmente, um pequeno “peso na consciência”, um grilo falante afónico, que, quanto mais se prolonga, paradoxalmente, mais se normaliza e menos estimula e apressa. Envolvido nesta dinâmica, o familiar mais próximo, o amigo mais íntimo e o colega de projetos nunca chega ao porto. Quero, convém-me, apostar com convicção nesta leitura.

Mas admito ser o principal responsável por este isolamento. Não sou um misantropo, mas detesto encostar-me às pessoas. Sou bastante alérgico a dependências. Tanto no trabalho como no lazer. Peco, confesso, por algum orgulho, orgulho que comporta vários custos, incluindo uma dose de desprendimento e solidão. Quem não se encosta, não pesa! Sem peso, diminuem e aligeiram-se as rotinas de interação e os rituais de lealdade.

Sinto-me abençoado: já posso sair de casa, ir ao encontro de familiares, amigos e colegas. No dia 6 de abril, regresso, por exemplo, à Universidade do Minho para a eleição dos órgãos do Centro de Estudos em Comunicação e Sociedade. Vou certamente re(a)ver amigos e colegas. Ressurgir, recomeçar um “novo normal”. Hoje é o dia 1 de abril. Este texto, reflexivo, cru e duro, parece uma mentira, um desvario insano que, não obstante, assino com um revigorado sentimento do mundo, da vida e da humanidade.

José Afonso. Traz outro amigo também. Traz Outro Amigo Também. 1970.
Xutos & Pontapés. Contentores. Circo de Feras. 1987. Ao vivo: Estádio do Restelo 2009″.

O mundo na mão (extended version)

Folk Meeting : Odetta, Joan Baez, Maria Carta, Amália Rodrigues (Musica sì e I lunedì del Sistina). Concerto de inícios dos anos setenta editado em 2013.

“Sopra, sopra, vento hibernal, não és tão desapiedado quanto a humana ingratidão” (William Shakespeare. Como vos agradar. 1623).
“ Bendita a hora que o esqueci por ser ingrato / E deitei fora as cinzas do seu retrato” (Amália Rodrigues: Só à noitinha).

Discriminação, exclusão, dominação, exploração são flagelos da humanidade. Preocupo-me, sobretudo, com a injustiça. Não poupa vivos nem mortos. “Personally, I can’t believe she’s not more well-known than she is” (https://www.youtube.com/watch?v=GOk2M6C9dck).

Estamos a falar de Odetta (1930-2008), compositora, cantora e activista social norte-americana. Talentosa, original e influente. No início dos anos setenta, cantou com Amália Rodrigues, Joan Baez e Maria Carta no Teatro Sistina, em Roma. He´s got the whole world in his hand (1957) foi uma das canções interpretadas. Acrescento duas: Hit or Miss (1970) e Another Man Done Gone (1956).

Ao original, o público preferiu o cover. Acontece! O Tendências do Imaginário sonha despertar a memória adormecida. Por um mundo maior.

Não resisto a recolocar dois anúncios com músicas de Odetta.

Odetta. He’s got the whole world in his hand. At the Gate of Horn. 1957. Ao vivo em 1993.
Odetta. Hit or Miss. Odetta Sings, 1970.
Odetta. Another Man gone Done. Odetta Sings Ballads and Blues. 1956.
Marca: Adidas. Título: Carry. Agência: TBWA\CHIAT\DAY, USA, San Francisco, Direção: Chuck McBride. EUA, 2004.
Marca: Southern Comfort. Título: Beach. Whatever’s Comfortable. Agência: Wieden + Kennedy, New York. Direção: Tim Godsall. EUA, Julho 2012.

Águas turvas

Órgão da Igreja do Mosteiro de Tibães

Órgão da Igreja do Mosteiro de Tibães.

“O esquecimento é um oceano gigantesco no qual navega um único navio, que é a memória” (Nothombe, Amélie, 2004, Hygiène de l’assassin, LGF)

Amanhã, 2 de Setembro, vou falar ao Mosteiro de Tibães (Biblioteca, 15:30). Um dos temas possíveis seria o esquecimento. Mas optei pelas formas de despertar a memória. Ocorreram-me, mesmo assim, vários apagões da memória. Por exemplo, os Genesis, uma banda de culto dos anos setenta que parece ter naufragado no “oceano gigantesco” do esquecimento. Na minha Internet, cada um tem a sua, só os encontro quando os procuro. O álbum The lamb lies down on  broadway estreou em 1974, ano em que a concorrência foi particularmente forte. Lembro uma canção óbvia: The Carpet Crawlers.

Genesis. The Carpet Crawlers. The lamb lies down on broadway. 1974.