Empreendedorismo anal
A escatologia ocupa-se dos últimos dias. Mas a escatologia comporta outros sentidos. Por exemplo, “ciência” dos excrementos, também conhecida por coprologia. O anúncio This Unicorn Changed the Way I Poop, da Squatty Potty, usa e abusa da escatologia. Três minutos de excrementos incontinentes. Uma exorbitância grotesca em embalagem feérica. Um unicórnio não para de evacuar sorvetes ostensivamente apetitosos! Em termos de contos de fadas, as botas do gato e os sapatos da Cinderela são substituídos por um suplemento de sanita: o Squatty Potty toilet stool. Conseguem imaginar crianças a lamber sorvetes de excremento de unicórnio e a limpar a boca com papel higiénico? Não? Imaginação curta! Este anúncio é mais um caso de shrekização do mundo. Viral, já ultrapassou, no site da marca, 2 milhões de visualizações.
Marca: Squatty Potty. Título:This Unicorn Changed the Way I Poop. Direcção: Daniel Harmon & Dave Vance. Estados Unidos, Outubro 2015.
Esta arte de bem defecar só tem paralelo nas experiências de Gargântua sobre “o melhor meio de limpar o cú”. Analidade por analidade, segue um excerto do capítulo XIII do livro Gargântua (François Rabelais,1534):
“-Eu, respondeu Gargântua, por longa e curiosa experiência, inventei um meio de me limpar o cu, o mais senhorial, o mais excelente, o mais expediente que jamais foi visto. -Qual? disse Grandgousier. -Vou contar como foi, disse Gargântua. Limpei-me uma vez com uma meia máscara de veludo de uma moça, e achei bom, pois a maciez de sua seda me causou uma voluptuosidade bem grande no traseiro. Uma outra vez com um véu, e foi a mesma coisa. (…) Com um gorro de pajem, bem emplumado à suíça. Depois, andando atrás de uma moita, encontrei uma marta e me limpei com ela, mas as suas unhas me feriram todo o períneo. Logo que me curei, no dia seguinte, limpei-me com as luvas de minha mãe, bem perfumadas de benjoim. Depois me limpei com feno, aneto, manjerona, rosas, folhas de abóbora, de couve, de beterraba, de parreira, de alface e de espinafre. (…) Depois, limpei-me com os lençóis, as cobertas, a cortina, uma almofada, um tapete, um outro tapete verde, uma toalha de mesa, um guardanapo, um lenço e um penhoar. Em tudo achei prazer, mais do que em coçar uma sarna. (…) Limpei-me com feno, palha, crina, lã, papel, mas ‘sempre os culhões arranha, com certeza/ quem com papel do cu faz a limpeza’. (…) Depois, disse Gargântua, eu me limpei com um gorro, um chinelo, uma bolsa, um cesto, mas que limpa-cu desagradável! Depois com um chapéu. Mas vê que os chapéus são uns lisos, outros peludos, outros aveludados, outros de tafetá, outros de cetim. O melhor de todos é o peludo, pois faz boa absorção da matéria fecal. Depois, eu me limpei com uma galinha, um galo, um frango, um couro de boi, uma lebre, um pombo, um alcatraz, uma pasta de advogado, uma touca.
Mas, concluindo, digo e sustento que não há limpa-cu igual a um ganso novinho, bem emplumado, contanto que se mantenha a cabeça dele entre as pernas. E pode acreditar, palavra de honra. Pois a gente sente no olho do cu uma volúpia mirífica, tanto pela maciez das penas como pelo calor temperado do ganso, a qual é facilmente comunicada ao cano de cagação e a outros intestinos, até chegar à região do coração e do cérebro. E não penses que a beatitude dos heróis e semideuses, que estão nos Campos Elísios, esteja no abrótano, na ambrosia ou no néctar, como dizem estas velhas. Está, segundo penso, em limparem o cu com um ganso novo. Esta é a opinião de Mestre Jehan da Escócia.”
(http://puragoiaba.blogspot.pt/2005/08/humor-anal-e-o-melhor-do-carnaval.html0)
Apontamentos escatológicos II. Criatividade.
Nem todos os anúncios escatológicos são grosseiros. Alguns mostram algum refinamento. Creio ser o caso deste Lion, do Zoo de Adelaide (Austrália), galardoado em Cannes. Curto, quase minimalista. Natural…
Marca: Royal Zoological Society of South Australia Zoo Poo Fertilizer. Título: Lion. Agência: Escape Plan / Anifex, Adelaide. Direcção: Michael Kusack. Australia, 2002.
Prometi, no artigo precedente, uma segunda anedota escatológica:
Sentado no meio do caminho, Zéquinha entretem-se com um monte de bosta.
Vem o padre que, incomodado, lhe pergunta:
– Zéquinha, o que estás a fazer?
– Estou a fazer um padre, responde Zéquinha.
O padre afasta-se ofendido.
Vem a professora que pergunta horrorizada:
– Zéquinha, o que estás a fazer?
– Estou a fazer uma professora.
A professora afasta-se indignada.
O padre e a professora apressam-se a contar o desaforo ao polícia.
O polícia dá uma volta e encontra o Zéquinha mais o monte de bosta no caminho. Com voz grossa, pergunta:
– Zéquinha, o que estás a fazer?
– Não sei!
O polícia, presumido, prossegue a conversa:
– Pensei que estavas a fazer um polícia.
O Zéquinha explica de imediato:
– Para fazer um polícia era preciso mais bosta.
Apontamentos escatológicos. Rebaixamento.
A Eduarda enviou-me um anúncio que considera de “um mau gosto atroz”. Não sei o que sucede, mas parece-me que o anúncio está a ser retirado de circulação. Será fake? Será flop? Será banned? No momento em que escrevo este artigo, ainda está acessível no seguintes endereços: http://www.dailymotion.com/video/x32bgk9; ou http://www.culturepub.fr/videos/dude-wipes-plip-and-plop/.
De qualquer modo, os anúncios escatológicos não são raros. Só na base de dados da Culture Pub, os anúncios com excrementos são às dezenas. A “coisa”, por incrível que pareça, compensa. Regenera: rebaixa e fertiliza. A coisa é convocada em festas e rituais. Na linguagem, é exuberante. Na literatura, Pantagruel envia ao pai uma extensa lista com as técnicas cientificamente testadas de limpar o rabo. O caricaturista Alonso desenha um penico a transbordar de políticos. Muniz Sodré e Raquel Paiva (O império do grotesco. Rio de Janeiro, Mauad, 2002) alongam-se sobre o grotesco escatológico, que consideram um géneros do grotesco.

Marca: Point Defiance Zoo & Aquarium. Título: Joggers. Agência: Wongdoody. USA, 2002 [Carregar na imagem para visualizar]
O anúncio Plip and Plop “estreou” há dias. Joggers estreou há treze anos (http://www.culturepub.fr/videos/point-defiance-zoo-aquarium-grosse-merde/). Neste anúncio, a coisa é enorme. Prenda de dinossauro, capaz de cobrir um ser humano adulto! A propósito da coisa, acodem-me duas anedotas. Ambas mostram como a coisa é talhada para rebaixar. Segue a primeira. No próximo artigo, conto a outra.
Um inglês passeia, de fato e guarda-chuva, na Avenida dos Aliados, no Porto. A um dado momento, surpreende-se com uma coisa estranha no chão. Observa, observa… e conclui.
– Isto parece merda, mas merda no Porto não pode ser!
Com a ponta do guarda-chuva mexe e remexe. E diz para os seus botões.
– Isto é mole como merda, mas merda no Porto não pode ser!
Com a ponta do guarda-chuva, pega numa pequena amostra e cheira.
– Isto cheira a merda, mas merda no Porto não pode ser!
Pega num pequeno pedaço e prova.
– Que horror, isso é mesmo merda, por pouco não pisei.
As minhas desculpas ao Porto e ao inglês, mas foi assim que, já lá vão quarenta anos, me contaram a anedota.
Política e escatologia
Uma das mudanças mais marcantes ao nível do exercício do poder na Europa aponta para o eclipse da figura do político carismático. Desvanece-se, assim, a confiança empática, sem cálculo, por parte dos cidadãos. A adesão tende a ser negociada ou sofrida. Que saudade de um bom discurso político! Os políticos, agora, quase não discursam; prestam declarações. Esta evolução recorda-me, perversamente, certas figuras do passado, assaz populares na Idade Média. Figuras codificadas, prenhes de sentido. As três figuras contempladas neste artigo operam um movimento de rebaixamento associado a uma purgação ou catarse. A iluminura provém do Gorleston Psalter, datado de cerca de 1310 (British Library). Com o “Penico John Bull” (1897), Rafael Bordalo Pinheiro também não resiste à tentação escatológica. A escultura, eventualmente do século XVIII, encontra-se no Musée de Flandre, que faculta a seguinte interpretação:
“This man in the middle of defecating is part of an ancient and common iconography in Flemish art. In several of the works by Hieronymus Bosch (?- 1516), Pieter Bruegel (1525/1530 – 1569) and Pieter Balten (1520/1525 – before 1598), women or men are captured in this position, relieving themselves. There is nothing shocking about this: reality was reproduced as it was. In 1559, Bruegel, in Flemish Proverbs, depicted two figures, with only their bare buttocks visible, caught in their latrine by surprise. Below them, a nobleman throws coins into the water. Childplay, dated 1560, shows a square chamber pot in the foreground and, a little further away to the right, a little girl stirs the excrement with a stick for fun. This scatological dimension is portrayed in an entirely natural way as part of everyday life.
“These sketches may come across as misplaced, slightly coarse and rude humour. But there is a meaning and symbolism of words behind the pictures. Indeed, this theme conceals something very subtle. In Flemish culture, the expression: “Uit schijten” (to leave droppings) also means “to mock”. This brings us to the moral of the picture: the pooper is not only a means of making fun of human nature, but also puts Man back into his rightful place: we are all equal during our time on Earth.” (Musée de Flandre http://museedeflandre.lenord.fr/en/Collections/HetSchiijtmanneke.aspx).
Inocência
Aos bobos tudo era permitido, menos enfurecer o rei. Aos bebés, também, menos magoar-se. Os anúncios com crianças comportam ousadias vedadas aos demais. Porquê? Porque são inocentes. No anúncio da Doritos, o bebé voa, fantasticamente, como um herói da Marvel. Num anúncio da Rexona, três jovens divertem-se sem cinto de segurança no banco de trás de uma carrinha: censurado (http://tendimag.com/2011/11/29/zelai-por-nos/)! Num anúncio da Zip.Net, um bebé Casanova assedia um anjo atarefado (uma top model), recorrendo, inclusivamente, a violência escatológica: nada! Num anúncio da Tom Tom, uma mulher corre com os peitos, resguardados, a abanar: censurado (http://tendimag.com/2014/07/25/pos-modernidade-vitoriana/). Qual é a diferença? A inocência infantil! Por exemplo, a mulher que corre, imparável, com os peitos a abanar pode visar um efeito global: pôr o mundo zonzo e desequilibrado para, logo, o endireitar com uma mezinha qualquer: farmacológica, psicológica, religiosa… Sabe-se lá que mais! Abençoadas criancinhas!
Marca: Doritos. Título: Sling Boy. Agência: Goodby, Silverstein & Partners. USA, 2012.
Marca: Zip.Net. Título: Bebé. Agência: F/ Nazca Saatchi & Saatchi. Direção: Rodolfo Vanni. Brasil, 2000.





