Tag Archive | erotismo

Sensualidade tumular

Halloween, Dia de Todos os Santos e Dia dos Fiéis Defuntos formam um interlúdio em que as fronteiras do além se esbatem. Os vivos visitam os mortos e os mortos visitam os vivos. Uma comunidade de vivos e de mortos. Convido-o a um passeio pelos cemitérios da Europa ao encontro de quatro belas esculturas mortuárias que revelam alguma sensualidade e algum erotismo.

 

 

Fobias

TyC Sports 2018

O canal de televisão argentino TyC Sports destaca-se pelos anúncios politicamente ousados. Em 2016, visou, por ocasião da Copa América, a xenofobia de Donald Trump. Nas vésperas do Campeonato do Mundo de Futebol, na Rússia, no próximo Junho, lança um anúncio que visa, agora, a homofobia de Vladimir Putin. Os anúncios assumem a paixão do futebol como uma paixão de homens entre homens, paixão que ronda uma espécie de erotismo tribal masculino. Ser homem é partilhar, paroxisticamente, emoções com carga corporal. As objecções ao anúncio Putin contribuíram, entretanto, para a sua retirada da Internet.

Marca: TyC Sports. Título: Putin. Agência: Mercado McCann. Argentina, Maio 2018.

Marca: TyC Sports. Título: Trump. Agência: Mercado McCann. Argentina, Maio 2016.

Virtualidades

Antonio Corradini. La femme voilée (La foi). 1743-1844. Musée du Louvre

Os véus das esculturas de Antonio Corradini resguardam virtudes e castidades. Os lenços da Red Riding insinuam, qual dança do ventre, o encanto da mulher. Nas esculturas de Corradini, as virgens portam véus; no anúncio da Red Riding, os lenços portam mulheres. Em ambos os casos, desprende-se um toque de erotismo.

Marca: Red Riding. Título: I’m my fairytake. Produção Yaanus Films. Direcção: Ranadeep Bhattacharyya & Judhajit Bagchi. Índia, 2017.

Lembrei-me, a destempo e meio a propósito, de uma canção de Luís Cília: Canção para uma virgem (Espanha, 1973).

Luís Cília. Canção para uma virgem. Gravada em França em 1969, publicada em Espanha em 1973.

Canção para uma virgem (Luís Cília).

Menina de escuro
Figurinha mansa
Teu calmo olhar puro
No longe descansa

Porque a figurinha
De cera e cetim
Feneces sozinha
No roxo jardim

E vestes de escuro
Já é Primavera
Não olhes o muro
Com ar de quem espera

Acaso a tua alma
Ficou-se na infância
Não há nessa calma
Qualquer febre ou ânsia

Não tens namorado
Ninguém te beijou
Beijar é pecado
Quem ama pecou

Mas olha que a vida
Não é um jardim
Menina vestida
De negro cetim

Perfume e erotismo

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Por que motivo o perfume aparece associado ao erotismo? Afloramos o tema no artigo “Perfume, comunicação e personalidade” (2014; endereço: https://tendimag.com/2014/04/05/perfume-comunicacao-e-personalidade/). Retomo uma passagem de Georg Simmel:

“o perfume (…) acrescenta à personalidade algo completamente impessoal, algo que vem do exterior mas que se lhe incorpora tão bem que dela parece se desprender. Aumenta a esfera da pessoa causando uma impressão semelhante aos fogos do diamante e aos reflexos do ouro. Quem se aproxima mergulha nesta atmosfera; fica de algum modo preso na esfera da personalidade. Tal como as peças de vestuário, o perfume encobre a personalidade realçando-a” (Simmel, Georg, 1981,Sociologie et Epistémologie, Paris, PUF, p. 237-238).

O perfume envolve a pele para a tornar mais apetecível. No jogo de sedução, o destino é a pele e o perfume, uma máscara. Segundo Georg Simmel, o cheiro é o mais intrometido dos sentidos. Invade, sem cerimónia, o espaço pessoal, a “esfera de intimidade”. Pode-se desviar a vista, tapar os ouvidos, evitar o contacto, mas afastar o cheiro torna-se mais complicado.

Nós somos construtores de catedrais, estradas e estádios de futebol, mas também somos construtores de verdades. Associamos, desde a antiguidade, o perfume ao erotismo. Este anúncio resume-se a mais uma réplica. A vida é feita de pequenos ecos, que educam as mentes e os corpos. Se é suposto o perfume ser erótico, o que o desmente? Se, no futuro, as organizações governamentais, as organizações não governamentais e algumas empresas rotularem, por exemplo, os perfumes como tóxicos, é possível que tóxicos venham a ser.

Sondemos, de forma abreviada, alguns contributos de psicólogos.

“Determinados perfumes podem fazer-nos descair para o domínio do erotismo graças à presença – discreta mas ambígua – de notas animais, como as almíscares ou a algália”. Um parênteses: convém evitar confundir animalidade e erotismo. As “notas animais” geram, quando muito, efeitos humanos

“O perfume de amor não existe (…) numa relação amorosa, a acção desenrola-se em dois tempos. Primeiro, a etapa da sedução, onde se opera uma primeira aproximação dos corpos: somos, então, autorizados a penetrar na esfera do outro, no seu espaço privado, que é, também a sua zona de aromatização (parfumage), onde se captam realmente as fragâncias (…) Quando a relação erótica se instala, instala-se uma outra alquimia. Neste momento, temos sede de carne, de vida à nossa frente… O corpo a corpo esquece o perfume, a excitação exige os odores do corpo verdadeiro e rejeita os artifícios exteriores” (…) Atente-se, também, na reputação das feromonas, sinais odorosos emitidos pelos animais destinados à sedução e à reprodução, cuja existência no homem foi comprovada, mas de modo algum o efeito.” (Ces parfums érotiques. Psychologies. Décembre 2003, pp. 1-2. Endereço: http://www.psychologies.com/Beaute/Parfums/Articles-et-Dossiers/Ces-parfums-erotiques/4).

Um último apontamento. Uma pessoa quando mergulha no perfume de outrem compartilha uma atmosfera olfactiva. Nesta troca há quem não resista a marcar o cheiro do parceiro. Na rua ou em casa, o outro desdobra-se em dois, tantos quantos os perfumes que transporta.

 

Marca: Ranking. Título: Introducing S&X, The new fragance from Ranking & Azzi. Reino Unido, Outubro 2016.

Erótica política

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O Américo, antes de vir das arábias, enviou-me um anúncio escaldante relativo ao Salón Erótico de Barcelona Apricots 2016. O discurso da estrela porno aplica-se só a Espanha? Ou serão os nossos ouvidos? Se mal me lembro, a última vez que Portugal e Espanha partilharam alguma coisa foi, há cem anos, a gripe espanhola. Fico sossegado. Para terminar esta espécie de comentário, como classificar este discurso político a partir de uma almofada erótica recostada à Pátria? Uma ressurreição das gravuras de Goya? Uma erótica política? (Grau Duhart, O., 2013, “La materialidad de los vínculos para pensar una (im)posible erótica política”, disponível em http://www.memoria.fahce.unlp.edu.ar/trab_eventos/ev.2910/ev.2910.pdf).

Anunciante: Salón Erótico de Barcelona Apricots 2016. Título: Pátria. Agência: Vimema. Direcção: Carles Valdes. Espanha, Setembro 2016.

Morte, erotismo e política

'Riding with Death' by Jean-Michel Basquiat. 1988.

Jean-Michel Basquiat. Riding with Death. 1988.

Riding With Death, de Jean-Michel Basquiat, é uma pintura que surpreende. Foi concluída no ano, 1988, em que Basquiat faleceu vítima de uma overdose de heroína, com 27 anos de idade. Entre as imagens da morte, não tenho memória de uma figura humana a cavalgar a morte. São, aliás, raras as imagens em que a morte aparece subordinada, como no episódio excepcional da descida de Cristo ao inferno (ver O Triunfo sobre a Morte).

O Rapto de Europa,  c. 340 a.C.

O Rapto de Europa, c. 340 a.C.

Quem conduz? O título do quadro não é “Riding Death”, cavalgando a morte, mas Riding With Death, caminhando com a morte. Estes cambiantes lembram duas lendas. Na primeira, conduz quem é montado. É o caso do rapto de Europa por Zeus, transformado em touro. Europa senta-se no dorso do touro que a sequestra ( ver O rapto de Europa. Com os olhos no retrovisor). Na segunda lenda, relativa a Fílis e Aristóteles, conduz quem monta.

01. Phyllis riding Aristotle. 13th c.

Phyllis riding Aristotle. 13th c.

Alexandre O Grande andava perdido de amores por Fílis, uma bela mulher proveniente da Índia. A tal ponto que descurava as responsabilidades e o governo do reino. Aristóteles, tutor de Alexandre, chamou-o à razão: devia moderar os seus encontros com Fílis. Alexandre acedeu ao pedido de Aristóteles.

Fílis não gostou da interferência de Aristóteles. Decidiu, com êxito, seduzi-lo. É a vez de Aristóteles andar perdido de amores por Fílis.

04. Aquamanile (late 14th century) New York Metropolitan Museum

Aquamanile (late 14th century) New York Metropolitan Museum

Um dia, Fílis propõe a Aristóteles: “dou-te o meu corpo, mas, primeiro, acedes que ande montada nas tuas costas”. Alexandre, avisado, assistiu à cena. Quis expulsar Aristóteles. Mas, em verdade, só agora a lição se perfazia: se até um velho sábio não resiste ao encanto de uma mulher, que esperar de um jovem rei”.

Na lenda de Fílis e Aristóteles, o amor e o erotismo vencem o político e o sábio. A imagem de Fílis a montar Aristóteles, com trejeitos de sadomasoquismo, tornou-se célebre, em particular, na Idade Média e, sobretudo, no chamado Renascimento do Norte.

14. George Pencz. Fílis e Aristóteles. 1530

George Pencz. Fílis e Aristóteles. 1530. Tal como na figura 13, Fílis usa esporas.

Um último apontamento sobre a Farsa de Inês Pereira (1523), de Gil Vicente. Inspirada na máxima “mais quero um asno que me carregue do que cavalo que me derrube”, a farsa termina com o segundo marido a carregar às costas Inês Pereira para a levar até ao amante, o Ermitão. “Pois assi se fazem as cousas” ( ver pdf: Gil Vicente. Farsa de Inês Pereira. Parte final).

Galeria de imagens: Fílis e Aristóteles

Cascata erótica

Coco de Mer 2Consta que o homem médio pensa em sexo cada seis minutos. Bom sinal, sinal que pensa. Esta obsessão percorre o anúncio X da Coco de Mer. Ao nível dos conteúdos, o peito é a parte do corpo que se destaca, seguindo-se as nádegas, as pernas e a boca, acompanhados por cascatas vertiginosas de símbolos sexuais. Tantos, que parecem esgotar os livros de Carl Jung e Gilbert Durand. Vislumbra-se um toque pavloviano neste anúncio: uma cavalgada de maçãs que fazem salivar o animal antes de o deixar trincar. A lingerie e os sex toys não são corpo mas fazem corpo. Pixel a pixel, desenham o limiar da interioridade. Vagas de luxúria na pele do desejo.

Marca: Coco de Mer. Título: X. Agência: TBWA London. Direcção: RANKIN. UK, Maio 2015.

Linguagem peitoral

toyota-corolla-breast-small-83935Consoante a parte anatómica mobilizada, a linguagem corporal subdivide-se em linguagens específicas, tais como a linguagem facial, a linguagem do olhar ou a linguagem peitoral. Estes três anúncios sul-americanos apostam na linguagem peitoral. Nos anúncios brasileiros, da Toyota (1999) e da Nissan (2003), a linguagem é poética; no anúncio colombiano, da Air aruba (2000), a linguagem é mais prosaica. Os três anúncios recorrem a uma linguagem minimalista. Os seios respondem, velados, ao ar condicionado, meio velados, à suspensão dos automóveis e, desvelados, ao encurtamento das distâncias entre aeroportos.

Nissan. PeitosMarca: Toyota. Título: Peitos. Ag.: F/Nazca Saatchi & Saatchi. Brasil, 1999.

Marca: Nissan. Título: Peitos. Agência:  Lowe (Sao Paulo). Brasil, 2003.

Air arubaMarca: Air aruba. Título: Peitos. Ag.: McCann Erickson. Colômbia, 2000.

A Maçã

René Magritte, Les pommes masquées. 1966

René Magritte, Les pommes masquées. 1966

A maçã é um fruto perverso e pretensioso. Intromete-se no destino da humanidade: Eva, Newton, Guilherme Tell, Magritte (ver imagem), Prévert (ver poema em português e em francês), Branca de Neve, The Beatles… Nada que a Apple descuide: desta vez, convida-nos a uma dentada num iPhone (ver anúncio) acompanhada pela música sensual dos Goldfrapp (oohlala)?

Marca: Apple iPhone 5s. Título : Apple Metal Mastered. Agência : TBWA. USA, Outubro 2013.

Recreação de Picasso (La Promenade de Picasso)

Numa base bem redonda de porcelana real
posa uma maçã
Face a face com ela
um pintor da realidade
em vão tenta pintar
a maçã tal como ela é
mas
ela não vai deixar
a maçã
ela vai se pronunciar
e tem várias tramas no seu saco de maçãs
a maçã
e ali está ela rodando
numa base real
dissimuladamente em si mesma
docemente sem se mover
e à guisa dum Duque de Guise que num truque é guizo
para que não lhe tirem a imagem a contragosto
a maçã disfarçada desfruta seu traje de bela bruta
e é então
que o pintor da realidade
Passa a perceber
que todas as aparências da maçã são contra ele
e
como o pobre indigente
como o miserável que se vê de repente à mercê de alguma associação beneficente e caridosa e assombrosa por sua beneficência e caridade e assombrosidade
o pobre pintor da realidade
se vê então de repente como a triste presa
de uma incontável multidão de associações de idéias
E a maçã a rodar evoca a macieira
o Paraíso terrestre e Eva e depois Adão
a sidra o leitão à mesa Nova Iorque e a maçaneta
a Argentina as Hespérides a verde a vermelha e a golden
branca do amor e a maçã de neve
e o pecado original
e as origens da arte
e a Suíça com Guilherme Tell
e até mesmo Isaac Newton
várias vezes premiado na Exposição da Gravitação Universal
e o pintor atordoado perde de vista seu modelo
e adormece
É então que Picasso
enquadrando-se ali como em toda oportunidade
cada dia como em sua casa
vê a maçã e o prato e o pintor adormecido
Que idéia de pintar uma maçã
diz Picasso
e Picasso come a maçã
e a maçã lhe diz Obrigado
e Picasso quebra o prato
e sai dali sorridente
e o pintor arrancado de seus sonhos
como um dente
se encontra só novamente diante da sua tela inacabada
com os terríveis caroços da realidade
bem no meio da sua louça despedaçada.

Jacques Prévert, 1949

La promenade de Picasso

Sur une assiette bien ronde en porcelaine réelle
une pomme pose
Face à face avec elle
un peintre de la réalité
essaie vainement de peindre
la pomme telle qu’elle est
mais
elle ne se laisse pas faire
la pomme
elle a son mot à dire
et plusieurs tours dans son sac de pomme
la pomme
et la voilà qui tourne
dans une assiette réelle
sournoisement sur elle-même
doucement sans bouger
et comme un duc de Guise qui se déguise en bec de gaz
parce qu’on veut malgré lui lui tirer le portrait
la pomme se déguise en beau bruit déguisé
et c’est alors
que le peintre de la réalité
commence à réaliser
que toutes les apparences de la pomme sont contre lui
et
comme le malheureux indigent
comme le pauvre nécessiteux qui se trouve soudain à la merci de n’importe quelle association bienfaisante et charitable et redoutable de bienfaisance de charité et de redoutabilité
le malheureux peintre de la réalité
se trouve soudain alors être la triste proie
d’une innombrable foule d’associations d’idées
Et la pomme en tournant évoque le pommier
le Paradis terrestre et Ève et puis Adam
l’arrosoir l’espalier Parmentier l’escalier
le Canada les Hespérides la Normandie la Reinette et l’Api
le serpent du Jeu de Paume le serment du Jus de Pomme
et le péché originel
et les origines de l’art
et la Suisse avec Guillaume Tell
et même Isaac Newton
plusieurs fois primé à l’Exposition de la Gravitation Universelle
et le peintre étourdi perd de vue son modèle
et s’endort
C’est alors que Picasso
qui passait par là comme il passe partout
chaque jour comme chez lui
voit la pomme et l’assiette et le peintre endormi
Quelle idée de peindre une pomme
dit Picasso
et Picasso mange la pomme
et la pomme lui dit Merci
et Picasso casse l’assiette
et s’en va en souriant
et le peintre arraché à ses songes
comme une dent
se retrouve tout seul devant sa toile inachevée
avec au beau milieu de sa vaisselle brisée
les terrifiants pépins de la réalité.

Jacques Prévert, 1949

Feronomas

Interpol2Charlie White é um realizador cujo fascínio pela iconografia porno é conhecido. Neste videoclipe Lights, para os Interpol (2010), o enredo resume-se em poucas palavras: acompanhada por duas ajudantes orientais, uma mulher, a “Pheromone Doe”, despe-se e veste-se com latex, injecta e expele um líquido seminal. Não obstante a carga erótica, Lights é um vídeo estranho e desconfortável. Lembra filmes como Histoire d’O (1975). Lembra, também, embora de uma forma invertida, o videoclipe All is full of love, de Chris Cunningham, para a Björk: erotismo eufórico de máquinas humanizadas versus erotismo disfórico (sacrificial) de humanos maquinizados, ambos percorridos por fluídos aparentemente seminais. Enfrentam-se no filme Blade Runner (1982), com humanos demasiado máquinas a perseguir máquinas demasiado humanas.

Charlie White. Interpol: Lights. Interpol.2010

Chris Cunningham. Björk. All is full of love. 1999.