Tag Archive | entrega

All you need is love

Fisher PricePoucas horas após a publicação do artigo O fetichismo da mercadoria, o novo anúncio da Fisher Price vem a preceito: “Wishes for Baby” é o paroxismo do espírito de entrega e de partilha. Recém-nascidos durante a passagem de ano foram filmados em nove hospitais de sete países: Brasil, Estados Unidos, Japão, México, Quénia, Bangladesh e Polónia. Nos primeiros momentos pós-parto, o que desejam as mães para os filhos? Esta exortação ao mandamento novo tem a ver com a quadra natalícia? Eis um tema para dissertação de doutoramento: como variam os valores na publicidade ao longo do ano?

“Meet the first YouTube stars of 2015. Delivered in 24 hours, this heartwarming short film captures the excitement and anticipation surrounding some of the first babies born around New Year’s all over the world. Watch real parents hold their babies for the first time, showing that the best possible start in life begins with love” (Fisher Price).

A Fisher Price é uma empresa de jogos e brinquedos. Normalmente, quem compra é para oferecer. Compreende-se, sobremodo, a aposta  no “aquecimento do coração”.

Marca: Fisher Price. Títulos: Wishes for Baby. Agência: Weber Shandwick. Direcção: Patrick Creadon. USA, Janeiro 2015.

Chamamento

Nike. The Jogger

O Carlos Nascimento é um amigo. Tem uma empresa de publicidade e deu-me o prazer de o acompanhar no doutoramento em Ciências da Comunicação. Numa conversa vadia, afloramos a importância crescente da figura do chamamento nos anúncios publicitários. Enviou-me, como exemplo, um anúncio soberbo da Nike: The Jogger, pela agência Wieden+Kennedy Portland. Estreado em 2012, foi um autêntico devorador de prémios. Desafiei o Carlos a fazer o comentário. Ganhei uma lição: a qualidade deste blogue pode melhorar.

O chamamento da grandeza ou a grandeza do chamamento?

À convocatória que as marcas fazem nos anúncios actuais, Albertino Gonçalves designa de chamamento, atribuindo-lhe assim algo de religioso que visa, mais do que uma relação material, uma ligação emocional, assente na partilha de missão e de valores e menos na experiência de produto.

Este anúncio da Nike é um excelente exemplo de chamamento, onde a marca não nos convoca nem pela experiência nem pelo benefício do produto mas sim por um exemplo de anónima virtude que nos toca: Greatness.

Dois movimentos fazem o filme: o de uma estrada gasta, agreste e inóspita que o efeito da câmara transforma num tapete rolante; o de um jovem anónimo, numa corrida sofrida e pesada. À medida que o filme avança, ambos os movimentos classificam e competem um com o outro. O esforço do corredor torna a estrada num calvário. Por sua vez, a estrada revela naquela figura desajeitada e quase grotesca um lutador persistente. O movimento da estrada, apesar de racional, regular e perpétuo vai perdendo para o da pessoa, emocional, desajeitado e ocasional. A aproximação sofrida da personagem à câmara é a prova maior de superação.

Neste exemplo rude é o texto que lhe dá o sentido. Greatness não apenas um exclusivo de alguns, poucos, nem tão pouco de super heróis mas também de all of us. É pelo texto que aquele episódio anónimo e aleatório passa a ser uma referência de virtude. Sem saber e sem contar, o chamamento daquele rapaz, longe dos olhares e de exibicionismos é também o nosso chamamento. E lá estava a marca para nos servir o exemplo como deve ser: cru, sem vaidades nem juízos.

Carlos Nascimento

Marca: Nike. Título: The Jogger. Agência: Wieden+Kennedy Portland. Direção: Lance Acord. USA, 2012.