As Termas do Peso no início do século XX. Cortejo Histórico de Melgaço 2024

Entre os primeiros temas a surgir, as Termas do Peso no início do século XX foi dos últimos a ser adotado. Apesar do inegável interesse, pela carga histórica, mas também como promessa para o futuro, receava-se que se revelasse demasiado difícil. Ao contrário dos outros temas, não se tratava de encenar um evento ou uma ação, mas um ambiente, que, por sinal, se repartia por cenários distintos: as fontes, o balneário, os hotéis, as festas, os bailes, os serões, os passeios…
O tema acabaria por vingar graças a vários argumentos decisivos.

Num início do Século XX de indigência e precariedade, as Termas do Peso constituíam um reduto de luxo, hedonismo e elegância reservado à elites, visitantes mas também locais, onde se ensaiavam iniciativas de progresso e, até, de vanguarda. Recorde-se a criação, em 1912, da empresa de transporte passageiros entre Melgaço a Valença e, em 1913, do cinematógrafo, ambos pelo Cícero Cândido Solheiro, “brasileiro” empreendedor e visionário.
Inestimável embaixadora do concelho, a estância termal atraía pessoas, muitas ilustres, que conhecedores, quando não estudiosos, do património local o divulgam. Não é só o mundo que vem a Melgaço, Melgaço também corre o mundo. Este duplo efeito de atração e expansão ainda não se dissipou por completo. Ainda sensibiliza muita gente, por via direta ou indireta. Nem todas as brasas se reduziram a cinzas, persistem, por experiência própria ou por contágio, fagulhas que podem tornar-se centelhas. Recorde-se, por exemplo, Manoel de Oliveira e o filme Viagem ao Princípio do Mundo, estreado em 1997. As memórias podem revelar-se mais resistentes do que as paredes do hotel Rocha.

Mas a história das Termas do Peso não se restringe aos visitantes. Convoca, também, os residentes que as promoveram, como o António Ranhada, ou que, em elevado número, as frequentaram, principalmente nos anos sessenta e setenta. Impôs-se como um local de encontro, convívio, lazer e desporto que deixou marcas indeléveis.
| Permito-me um parênteses com um testemunho pessoal para ilustrar a influência das termas na vida das pessoas. Enquanto jovem, frequentava regularmente as termas: jogava mini golf, ténis ou patela, andava de barco, convivia e pasmava a observar a vegetação, as trutas, as libelinhas e os meus semelhantes. Assisti, ainda, aos bailes no salão devoluto do Grande Hotel do Peso. Tive, assim, acesso a atividades invulgares numa sociedade rural. Íamos ao Peso em grupo por atalhos através dos campos. Pelo caminho, fazíamos questão de provar as uvas e antecipar a vindima. Tínhamos muito respeitinho a uma gruta que considerávamos um refúgio do Tomás das Quingostas. Acontecia aventurar-me só com os meus patins imprudentes, da Serra ao Peso, pela estada de alcatrão muito liso. Sempre a descer, sem parar. A não ser para um ou outro tombo. Nem sequer as “carreiras”, que em algumas curvas ocupavam quase toda a passagem, me inibiam. Numa queda, em Bouça Nova, quase afocinhei num tanque de água. O tio Nino era diabético. As águas não podiam faltar em casa. No verão, colocadas na mina, misturavam-se com vinho. Servia como refresco. Uma figura típica de Prado, a Vera, uma idosa solteira dedicava-se ao transporte de garrafas de águas a pedido. Ainda se conta que um dia um par de malandros lhe deu boleia num carrinho com rodas de rolamentos. Radiante, acenava a anunciar: “Cá imos (caímos)!”. Na garagem do hotel Rocha, fiz, em 1975, um dos meus primeiros e últimos comícios políticos e no café Internacional festejámos a vitória nas eleições. Apareceu o responsável pelo partido rival que, com fair-play, fez questão de nos felicitar demorando-se a confraternizar. Naquele tempo, os cafés do Peso constavam entre os mais frequentados do concelho. O meu avô paterno, Avelino, foi quase toda a vida cozinheiro chefe no hotel Rocha. Contava, a brincar ou não, que quando havia demasiados comensais até às latas de ervilhas se recorria na cozinha. Quando, à noite, regressava a pé do Peso aos Moinhos, comentava-se que cheirava bem, cheirava, naqueles tempos de carestia, a comida boa! A casa onde cresci comprou-a o meu avô materno, Amadeu, ao Cícero, figura incontornável das termas no início do século XX, entretanto com casa no Peso, a casa da Dona Angelina. A casa era, portanto, duplamente de “brasileiro”: mandada construir por um e comprada por outro. Ainda me lembro do leilão, muito participado, do mobiliário do Grande Hotel do Peso. O meu avô, oportuno, aproveitou para renovar um quarto que eu viria a ocupar; arrebatado, arrematou um lote de várias dezenas de lavatórios. Atafulharam anos a fio uma das divisões do rés-do-chão. É assim! Quando se desfia o passado, tudo se enrosca de tal feição que resulta difícil escapar à teia que se avoluma e adensa. Cada um tem o seu próprio percurso, mas no que respeita a sentir o Peso nas veias, estou muito longe de ser um caso isolado. |

Outros motivos contribuíram para a eleição do tema.
Antes de mais, a manifesta adesão por parte das juntas da freguesia de Paderne e do Agrupamento das Freguesias de Prado e Remoães. Tratava-se de uma condição indispensável, tanto mais que a missão se apresentava exigente e complicada.

A estância termal do Peso comporta uma importância atual estimável enquanto promessa para o futuro. Há tempos que o Município almeja a sua revitalização económica e social. A reabilitação e ampliação do Grande Hotel do Peso e a tendência presente para o incremento do turismo termal podem concorrer para esse desígnio. A inclusão do tema no Cortejo Histórico assinala simbolicamente esta aposta do Município. O estudo de Antero Leite e Susana Ferraz, “O edifício da Fonte Principal das Termas do Peso (Melgaço)” ( Boletim cultural, 2007. N.º 6, p. 109-136), associado a um projeto promovido pela Comunidade Intermunicipal do Vale do Minho, conclui com esse repto: O Complexo Termal do Peso, como outras estâncias, aguarda um plano de revitalização centrado não só na reabilitação dos edifícios dos seus hotéis e na exploração das suas águas mas também considerando outras valências. A animação deverá ser uma delas tirando partido da sua envolvente natural e patrimonial”. Há lugares que, como a Bela Adormecida, parecem estar à espera de algo ou de alguém para despertar.

Dois motivos suplementares reforçaram a adesão ao tema. Por um lado, existe imensa documentação, sobretudo fotografias e artigos de jornais, sobre as termas no início do século XX, o que facilitava a caraterização dos figurantes e dos ambientes. Por outro lado, podia-se contar com a colaboração do Válter Alves, que acabara de escrever um artigo sobre as termas para publicação no próximo Boletim Cultural. Fonte inesgotável de informação, o Válter Alves foi o autor do texto para a apresentação durante o Cortejo, bem como da galeria de imagens das termas no início do século XX para o presente artigo.
Galeria de imagens das Termas do Peso selecionadas por Válter Alves
































Tanto argumento favorável não diminuiu significativamente a dificuldade da missão. Valeu a mobilização e o engenho das juntas e das gentes da freguesia de Paderne e do Agrupamento de Freguesias de Prado e Remoães. Merece especial menção a forma como souberam envolver entidades locais tais como a APPACDM, o Centro Hípico de Melgaço e associação Noites Gaiteiras.
Um pequeno incidente ocorreu durante o cortejo. Um dos cavalos das carruagens evidenciou sinais de nervosismo. Por precaução, a apresentação foi abreviada, ficando por apresentar algumas cenas. Por exemplo, a distribuição de águas do Peso pelo público assistente.

Houve um pouco de quase tudo: carruagens, cavalos, uma maquete da fonte primitiva, empregadas fardadas a rigor e aquistas trajados à moda da Belle Époque. Ao todo, cerca de 60 participantes.
De um modo geral, o cortejo valorizou o acompanhamento musical. Abriu com música medieval e fechou com uma valsa. A música era um dos ingredientes da vida das termas, com recurso a orquestras (chegaram a coexistir várias em Melgaço) nas festas e nos bailes e ao piano e ao canto nos serões. Intentou-se formar uma pequena orquestra, pedindo a cedência de instrumentistas a bandas filarmónicas dos concelhos vizinhos. Mas o pico das festas coincide com o 10 de agosto. Não sobrava trompete, trombone, saxofone, tuba ou bombo. Contratar uma charanga na Galiza era hipótese que comportava uma despesa excessiva. Chegou a pensar-se numa voz feminina a cantar a solo e à capela um fado. Depressa se descartou a ideia: com o ruído de fundo de um desfile ao ar livre, pouco ou nada se ouviria. Adotou-se uma solução de recurso: numa das carruagens, uma coluna de som emitiria música da época.

Mas nada nos impede de sonhar. Mergulhemos na atmosfera de um dos hotéis do Peso na primeira metade do século passado.
“Os empregados de mesa do Hotel Ranhada nunca iam vestidos “às três pancadas” para a sala de jantar. Faziam sempre duas mudas diárias. Ao almoço envergavam casaquinho branco, com botões dourados, e calça preta. Ao jantar, iam de trajo escuro, tipo smoking, com os colarinhos de camisa branca virados e laçarote preto. Mas José Meleiro de Castro, que lá trabalhou ainda no período áureo, já não é do tempo dos colarinhos virados e do “fato à grilo”. Embora vestisse à noite fato escuro, a gola do casaco já levava cetim preto. Ao almoço era a farda do costume. Os hóspedes não se aprontavam por aí além para a refeição do meio-dia. Mas à noite já iam para a mesa mais aperaltados. Os cavalheiros caprichavam com “bom fato de fazenda lisa, de tons azuis ou castanhos, e gravata a condizer”, tanto quanto se recorda José Meleiro. As senhoras apareciam com vestidos de seda, muito “levezinhos”, e não esqueciam os seus colares. Só as mais idosas faziam questão de levar, às vezes, o seu “xailezinho”. Em Julho e Agosto, serviam-se entre 150 a 200 hóspedes. “Todos ao mesmo tempo naquela sala de jantar”, lembra José Meleiro. Eram rápidos a comer, estavam quase todos a dieta, “tudo à base de peixe cozido e de carnes grelhadas”. Durante a refeição conversavam baixinho, eram muito delicados, não se ouvia sequer um bater de talheres. “Até exageravam”. Mas eram pessoas “de muito respeito e de muita educação”. À noite, acabada a refeição, passavam à sala de jogos e não resistiam a contar anedotas “sem palavrões, nem grandes gargalhadas”. Os cavalheiros falavam também de negócios, mas a conversação era cordata. Aos fins-de-semana, a sala de visitas virava, às vezes, sala de baile, mas apenas se polcava, à falta de melhor orquestra, ao som das concertinas” (Termas de Melgaço: os dias saborosos de uma glória submersa”, texto de Pedro Leitão, in: SIM, Revista do Minho, editado em 6 de Maio de 2013; retirado de Melgaço, entre o Minho e a Serra (https://entreominhoeaserra.blogspot.com/), blogue de Válter Alves: https://entreominhoeaserra.blogspot.com/2013/05/1948-um-qualquer-dia-no-hotel-ranhada_14.html).

Imaginemo-nos encostados a um canto do salão, eventualmente com um copo na mão e um cigarro nos lábios. A noite promete: as damas, prendadas e elegantes, entregam-se ao piano e ao canto. Escolhem, porventura, canções da Ercília Costa, “a santa do fado”, atriz, compositora e fadista, nascida em 1902, que alcançou um sucesso notável, inclusivamente no estrageiro, com digressões em França, nos Estados Unidos e no Brasil.
“Se sonhássemos todas as noites a mesma coisa, ela nos afectaria tanto quanto os objectos que vemos todos os dias; e, se um artesão estivesse certo de sonhar, todas as noites, durante doze horas, que é rei, creio que ele seria quase tão feliz quanto um rei que sonhasse, todas as noites, durante doze horas, que era artesão” (Pascal, Blaise, Pensamentos, 1670. Artigo XIII).
Com um convite ao sonho, despeço-me.
Seguem:
- Uma galeria com fotografias de Ana Macedo, Miguel Bandeira e Município de Melgaço
- O texto da autoria de Válter Alves que serviu de base para a apresentação durante o cortejo;
- Um recorte, “As origens do hotel Ranhada, com uma nota biográfica dedicada a António Ranhada;
- Um recorte, “O Animatógrafo em Melgaço”, com uma nota biográfica dedicada a Cícero Cândido Solheiro;
- Três fados de Ercília Costa.
Galeria de imagens: As Termas do Peso no início do século XX. Cortejo Histórico de Melgaço 2024


























*****
As Termas do Peso no início do século XX. Texto para a apresentação durante o cortejo
Viajamos até ao Pezo do Minho na viragem para o século XX. Era por este nome que, fora da terra, era conhecido o Peso, onde em 1884 tinha sido descoberta uma nascente de águas termais com caraterísticas medicinais singulares. Rapidamente, a boa nova se espalhou pela região e pelo país e a chegada de doentes à procura destas águas milagrosas não se fez esperar.
A descoberta destas águas mergulhou o Peso numa era dourada durante várias décadas, tornando a estância num oásis de opulência, elegância e glamour, que contrastava com as dificuldades no resto do concelho.
A necessidade de hospedar um número crescente de aquistas levou ao surgimento de várias unidades hoteleiras. Depois do Ranhada, outras foram construídas, entre as quais o Hotel Quinta do Pezo, o Alto Minho e o Rocha, e mais tarde, a Pensão e Hotel Boavista.
Pelo Peso, nas temporadas termais, era frequente encontrarmos governantes, industriais, magnatas, fidalgos, artistas, ou distintos membros da comunidade científica das mais reputadas academias deste país. Nomes como Leite de Vasconcelos ou Rocha Peixoto, na área da etnografia, o pintor António Carneiro, ou Aurélio da Paz dos Reis, pioneiro do cinema em Portugal, entre tantos outros, eram presença assídua. A afluência de académicos deste calibre ao Peso tornava as temporadas termais, épocas de intensa produção científica. Algumas das mais importantes recolhas arqueológicas ou etnográficas no concelho de Melgaço datam desta época e eram realizadas em passeios exploratórios a locais como Paderne, São Gregório ou Castro Laboreiro. Entre os tratamentos, os passeios a pé, as tertúlias, o Peso também se tornou uma espécie de Academia.
O Peso do início do século XX representava a procura da cura das maleitas, o glamour, a ostentação, as festas mas também promovia eventos de solidariedade a favor das instituições melgacenses.
A partir de meados do século XX, esta era dourada das termas do Peso começou a perder a luz, entrando numa sombria decadência com uma queda abrupta da procura destas águas. A inexistência de caminho de ferro era uma das principais fragilidades.
Nos anos oitenta do século passado, fecharam os últimos hotéis históricos e o Peso foi sendo invadido por uma agonia e uma saudade dos seus tempos dourados. Hoje, o Peso procura um novo futuro onde encontre novamente a prosperidade.
Válter Alves
*****
Recorte: As origens do Hotel Ranhada

*****
Recorte: O Animatógrafo em Melgaço

*****
Fados de primórdios do século XX: Ercília Costa
French Kiss: A minha língua, a tua língua

Num texto português de meia dúzia de linhas, surgem as palavras: smart city, start up, ranking, call e paper. Todas as gerações têm direito às suas palavras-chave. Smart city, start up, ranking, call e paper são chavões apreciativos. Parece que o português não tem palavras para os fenómenos do presente com futuro reluzente. Caem bem palavras de outros horizontes, outras peritagens e outros poderes.
Smart city. Não é o mesmo que “cidade inteligente”. É reduzir o valor (no sentido de Saussure) da expressão inglesa que significa, também, esperteza, requinte, capacidade… Cidade esperta? O melhor é seguir viagem.
Start up. Por que não “empresa emergente”? Perdia-se a ligação à bolha tecnológica. E start up vibra com ressonâncias ascendentes: wake up; make up; pin up…
Ranking? Ordenação, classificação, hierarquia, posição, nível… O português tem demasiadas palavras para dizer uma operação tão simples. Se antes pecava por defeito, agora peca por excesso.
Call. A palavra inglesa possui uma aura religiosa mais ampla e acentuada do que a palavra portuguesa “chamada”. Convoca a vocação e o chamamento, ambos pressupostos nos encontros científicos. Por sua vez, convite é, porventura, demasiado cortês.
Paper. Nada a dizer. Apenas a dissonância introduzida pelos papers electrónicos. Abençoadas as palavras que têm a sina de dizer mais do que aquilo que dizem.

Traduzir palavras do inglês para o português é tarefa difícil. O inverso, também. Talvez o French Kiss possa ajudar.
Smart city, start up, ranking, call e paper são palavras que assumem o sentido que lhes vamos concedendo. São smart words. Smart, mesmo Smart, é o carro. Very Smart!
Assim como o Smart tem mais lugares onde estacionar, a tua língua é melhor que a minha. O mesmo texto escrito em duas línguas diferentes não tem o mesmo alcance, melhor, o mesmo impacto. A língua é poder, bem como enpowerment. Palavra de blogger.
Ocasionalmente, apetece pintar meias verdades: o fraco tende a agarrar-se ao forte.
Pisar o risco
Seis anos separam os anúncios Border (Fevereiro de 2011) e Equality (Fevereiro de 2017). Uma distância apreciável em termos de publicidade. Duas marcas de topo: a Coca-Cola e a Nike; uma mesma agência de topo, a Wieden + Kennedy.
Comecemos pelo anúncio mais recente.
“Nike has a long history of speaking up for causes that reflect its values. That continues today with the launch of EQUALITY, in which Nike encourages people to take the fairness and respect they see in sport and translate them off the field.
EQUALITY is centered on using Nike’s voice and the power of sport to inspire people to take action in their communities, with Nike leading by example with its recently announced partnerships with world-class organizations dedicated to advancing this work.
A new film, simply titled “Equality,” anchors these values in the power of sport. The film, directed by Melina Matsoukas, features LeBron James, Serena Williams, Kevin Durant, Megan Rapinoe, Dalilah Muhammad, Gabby Douglas, and Victor Cruz, amplifying their voices in an effort to uplift, open eyes and bring the positive values that sport can represent into wider focus. “Equality” also features actor Michael B. Jordan, who voices the film, and a new performance by Alicia Keys, singing Sam Cooke’s “A Change Is Gonna Come” (http://news.nike.com/news/equality).
O anúncio Equality abraça algumas ilusões e desdobra-se em contradições. Podia ser de outro modo quando o tema é a igualdade? Não é porque se partilha um espaço comum com regras iguais para todos que a igualdade acontece. Norbert Elias (The Established and the outsiders, 1965), Pierre Bourdieu (La Reproduction, 1970) e Raymond Boudon (L’Inegalité des Chances, 1973) desmontaram, a seu tempo, esta ilusão. Se o sonho se quer olímpico, convém reconhecer que foi sempre um sonho, inclusivamente na Grécia Clássica (ver Norbert Elias & Eric Dunning, A busca da excitação, 1992). Para relativizar a crença no igualitarismo dos jogos olímpicos, aconselho a leitura de Jean-Marie Bhrom (Sociologie politique du sport, 1976) e o visionamento do filme Olympia de Leni Riefensthal (1938). Nos bons momentos, no desporto há fair-play, que, segundo Norbert Elias, emergiu há séculos em Inglaterra e consistiu na seguinte novidade: os oponentes deixam de se encarar como inimigos e passam a encarar-se como adversários, que importava vencer mas não eliminar. O fair-play valoriza o jogo, não nivela nem confunde os jogadores. O que vale para as “quatro linhas”, vale para o entorno, para os públicos e os aficionados. O desporto não exala fatalmente igualdade, os públicos tão pouco a respiram. Um desportista pode valer quarenta vezes mais que outro. No liceu, quando havia um intervalo, a turma costumava jogar futebol. Dois colegas eram encarregues de construir as equipas. O primeiro escolhia um colega, o segundo, outro; dos restantes, o primeiro voltava a escolher um colega e o segundo, outro; e assim do melhor ao pior até ao último. Cada intervalo bradava aos céus uma hierarquia. O anúncio Equality mergulha-nos numa dupla ilusão: a igualdade predomina nos jogos desportivos; essa igualdade é exportável para os públicos envolventes.
Para além das ilusões, o anúncio Equality confronta-nos com várias contradições. Como construir um discurso de igualdade com a voz das elites? Atendendo a Vilfredo Pareto, elites existem em todos os domínios (Tratado de Sociologia, 1916). “Amplificados”, os “embaixadores” do anúncio constam entre os melhores do mundo do desporto. Vislumbra-se um pequeno paradoxo: criar igualdade com desigualdade. Não é impossível: a história da Europa é fértil nesse tipo de proezas. Do ponto de vista formal, a câmara em “voo de águia” intercala o desfile das celebridades. Estamos nas alturas. Acrescentando o texto e a música, sentimo-nos mais capacitados e empolgados do que igualados.
Que um anúncio se manifeste vulnerável aos olhos do sociólogo, não o diminui. Um anúncio publicitário não tem que ser académico. Os argumentos e os propósitos são distintos. O critério de valor de um anúncio radica, principalmente, na sua performance. Pedir que obedeça às regras da Sociologia é mera vaidade terrorista, no sentido de aplicar a lógica de um discurso a um discurso de outra lógica. Equality sobressai como uma obra excelente. Graças, em parte, às ilusões e às contradições. Seduz e mobiliza, com ou sem falhas sociológicas. Reconhecer os limites de um discurso só faz bem à palavra. Daqui para o Qatar, um abraço a um amigo, dos poucos que me sabe aturar.
O segundo anúncio, Border, é aparentemente mais simples. Meticulosamente minimalista e francamente humano. A linha e a fronteira existem. A diferença disciplinada, também. Mas quando os homens querem conseguem, apesar da adversidade, fintar fronteiras, comunicar e partilhar vontades. Nem que seja por um tempo. A câmara raramente é panorâmica e ainda menos paira nas alturas. O registo é o da proximidade demarcada. A marca do anúncio reside em visar mais os pormenores do que os detalhes. Os pormenores, a começar pelo folha de papel, ajudam a construir o todo. Os detalhes testemunham o todo. Simplificando Omar Calabrese (A Idade Neobarroca, 1987), o pormenor vai da parte para o todo, o detalhe, do todo para a parte.
Marca: Nike. Título: Equality. Agência: Wieder + Kennedy. Direcção: Melina Matsoukas. Estados Unidos, Fevereiro de 2017.
Marca: Coca-cola. Título: Border. Agência: Wiener + Kennedy Portland. Editor: Steve Gandolfi. Estados Unidos, Fev. 2011.
Porcos, para sempre!
Pela mão de uma amiga, descobri a animação Ormie The Pig, de Rob Silvestri (2010). O porco tenta chegar às bolachas, mas não consegue. O povo também se esforça e fica com as favas. O “triunfo dos porcos” é uma quimera. Quem manda são os arganazes, os vampiros e os hipopótamos, as elites da política, da economia e das finanças. “Eles comem tudo, Eles comem tudo, Eles comem tudo e não deixam nada”. Deixam o respigo! Eles querem tudo, eles podem tudo, dispensam a responsabilidade. O povo não manda, soma culpas. A responsabilidade é uma feijoada à moda do povo. Este país inventou os inimputáveis de luxo. Mais o complemento: o Zé Povinho, albardado e penitente. Haverá país onde as elites ousem sacudir as culpas para o povo? No país do fado, fatalmente! Noutro, circulariam as elites… A arte vem-nos, pelo menos, desde D. João V, o Rei-Sol Português, cuja pragmática de 1749 decreta austeridade, motivada pela “desordem dos gastos” e pelas “despesas dos povos”. O tempo ainda é de arganazes, vampiros e Hipopótamos; e de porcos, carneiros e mexilhões. Este rectângulo lembra-me Don Quixote e Sancho Pança: um Don Quixote que não presta e um Sancho Pança que não pode.
Rob Silvestri. Ormie The Pig. 2010R
Os fumadores que paguem a crise
“Patrões querem subir imposto do tabaco para manter corte na TSU: CIP quer manter o corte de 5,75% da TSU paga pelas empresas e, para o compensar, propõe subida de 30% do imposto sobre o tabaco.” Eis uma notícia de primeira página do jornal Público de 24 de Setembro. Na página 6, fica-se a saber que “a CIP pretende manter a redução de 5,75%, “mas encontrando outras formas de compensação que não passem pelo rendimento dos trabalhadores.” Eis uma proposta. E quantificada! Num país tão carente de propostas, é um acontecimento. Descontando as do governo, a última proposta de que me lembro provinha também da área patronal: o despedimento de 100 000 trabalhadores da função pública. Uma proposta que traz a marca das nossas elites, desde o Zé Tostões até ao Zé Votos. Com aquele requinte predador e parasita que tão bem lhes fica. Chuta-se para o lado, tal como o Zé Povinho, e suga-se à maneira. Tudo isto é triste, tudo isto é fado e está há muito caricaturado: enquanto o Zé Povinho fuma (apita), alguém lhe esvazia as algibeiras. Tudo isto é triste, tudo isto existe. E por que não? Os fumadores são gente, mas não são gente como a outra. O pecado entra-lhes pela boca e aloja-se nos pulmões. Têm que pagar uma sobretaxa pelo direito ao fumo. Os judeus na Idade Média também tinham que pagar impostos escorchantes pelo direito à liberdade.
O fumador é gente, naturalmente. Quem sustentaria o contrário? Mas é gente de outra espécie. Por isso se pode argumentar que uma subida de 30% do imposto sobre o tabaco é uma “forma de compensação que não passa pelo rendimento dos trabalhadores”. Só lhes passa pelos brônquios… Segundo um inquérito promovido pelo Departamento de Epidemiologia do Instituto Nacional de Saúde Dr. Ricardo Jorge, administrado nos anos 2005 e 2006 e publicado em 2009, em cada 100 fumadores, 52 são trabalhadores ativos, 5 desempregados, 23 reformados, 8 estudantes, 10 domésticos, 2 incapacitados permanentes. Cerca de metade (49,1%) tinha menos de 5 anos de escolaridade; três quartos (75,2%) têm até 9 anos de escolaridade. Eis a mina proposta para encher o poço das empresas portuguesas! E nada “passa pelos rendimentos dos trabalhadores”. Como nada sai da algibeira do Zé Povinho distraído com o apito. É esta a população sobre a qual se pretende fazer incidir uma sobretaxa especial, ou seja, os mais desfavorecidos e os mais fustigados pela crise. Os fumadores que paguem a crise! Escrever estas letras de nada serve. A questão do tabaco foi de tal modo envenenada que, nestes dias, onde há fumo não há juízo.


