Tag Archive | Egoismo

O açambarcador, a abelha e a formiga

Nos tempos que correm, um açambarcador representa um risco sério. Conjuga egoísmo e medo. Ambos potenciam uma ameaça à comunidade. O egoísmo só é bom na Fábula das Abelhas (1714) de Bernard de Mandeville e o medo não devia sair dos contos de E.T.A. Hoffmann (1776-1822). Juntos formam um binómio sinistro. Existem pormenores no anúncio tailandês Think, da Land and Houses, que manifestam a arte de emocionalizar mensagens. Por exemplo, a sequência em que a criança devolve o pacote ao açambarcador anómico: o inocente e o inconsciente.

Marca: Land and Houses. Título: Think. Agência: Phenomena (Bangkok). Tailândia, Março 2020.

Umbilicados, narcisistas e egoístas

The Universal Man, Liber Divinorum Operum of St. Hildegard of Bingen, 1165

The Universal Man, Liber Divinorum Operum of St. Hildegard of Bingen, 1165

Andamos precisados de uma onfalectomia (intervenção cirúrgica para a extracção do umbigo). Esta sociedade é a mais umbilical de toda a História. Nunca se umbilicou tanto. Mais que líquidos, plásticos, tribais ou pós-humanos, somos umbilicados. Não confundir com narcisistas. Narciso vê a sua imagem pelos seus olhos. O umbilicado vê o mundo pelo seu umbigo. Narciso mata-se, o umbilicado faz birra. Por seu turno, o egoísta zela pelos seus interesses, é heterocentrado, concentra-se nos outros; o umbilicado atende aos seus impulsos, é autocentrado, concentra-se em si mesmo. O egoísta conquista, o umbilicado reclama. Os umbilicados são o grau zero da solidariedade e da acção colectiva. Nós sem laços. Mais vale plantar pedras na serra da Peneda do que apascentar umbilicados na cidade.

Gerard van Kuijl. Narcissus. 1645.

Gerard van Kuijl. Narcissus. 1645.

O maior parvalhão do universo

the biggest asshole

The World Biggest Asshole, da Donate Life, é um anúncio de consciencialização dedicado à doação de órgãos. O protagonista é um homem execrável. Grande parte do anúncio aplica-se a mostrá-lo. Mas eis que morre de repente. Descobre-se que, afinal, é um herói, um ser humano exemplar: é um doador de órgãos, um salvador de vidas. Este é um esquema corrente: uma narrativa que se precipita numa reviravolta final. Por outro lado, a doação de órgãos parece funcionar como uma indulgência. Neste mundo e no outro.

Anunciante: Donate Life. Título: The World Biggest Asshole. Agência: The Martin Agency. Direcção: Speck Gordon. USA, Agosto 2016.

O ego na publicidade

Matthew McConaughey for Lincoln Motor Company - DinerO ponteiro da publicidade nem sempre pende para a generosidade. Aponta para o umbigo e dá-lhe para a ruindade. Ao volante de um automóvel, dificilmente cedemos as rédeas. Não é coisa que se partilhe. Os anúncios de automóveis constam entre os mais egocentrados. Eu mais o meu carro, eis a fórmula mecânica do prazer. Nada como esperar que a chuva passe para conduzir, solitário, o Lincoln com o tejadilho aberto… Mas pela boca também morre a dádiva. Até à última migalha, nunca é demais. Repartir um hamburger é uma afronta para o guloso omnívoro! Afortunadamente, temos direito a dueto com egoísmo cantado.

Marca: Kentucky Fried Chicken – KFC. Título: Can I have a bite. Agência: Bartle Bogle Hegarty (London). Direcção: Scott Vincent. UK, 2005.

Marca: Lincoln MKZ. Título: Matthew McConaughey and the Lincoln MKZ: Extended. Direcção: Nicolas winding REFN. USA, Dezembro 2014.

O fetichismo da mercadoria

Fervex. The call

Quando fazemos compras não somos tão egoístas quanto o apregoam os salvadores da humanidade… O prazer da compra existe, mas pode não residir nem na mercadoria, nem no fetichismo à moda de Marx. O prazer é outro. O prazer é o outro. Egoísmo? Naturalmente, mas egoísmo heterocentrado.

Nos anúncios, as personagens evoluem heterodeterminadas e heterocentradas. A promessa anunciada tende a convocar o outro. Com o outro e para o outro, com a benção da comunicação e da boa vontade. O altruismo é, até enfastiar, a matriz do discurso publicitário.

Vem estas efabulações a propósito do anúncio The call, da Fervex. Se a mãe não quer passar por um sádico aos olhos da filha, não há como tomar Fervex. O anúncio é curto (20 segundos), mas contrastado: sádico / mãe; pânico / sossego. Cuide da voz. É importante para os outros. Fervex é uma promessa de cura e a cura é uma promessa de boa relação com os outros. Para sugerir a necessidade de Fervex, impôs- se um segundo elemento (a filha que ocupa quase todo o tempo do anúncio) para revelar a oportunidade do medicamento. Na publicidade, o fetichismo da mercadoria não aliena, enlaça.

Marca: Fervex. Título: The call. Agência: Nude. Direcção: François Nemeta. França, Dezembro 2014.

Beijo cremoso

yoplait le baiserSerá o retrato de Dorian Gray pós-moderno? Vagueamos em bóias de egoísmo, incapazes de partilhar o que quer que seja, a não ser o sexo? O currículo oculto, como dizem os “educólogos”, do anúncio assevera-se preocupante. Nada de exageros, que o tempo não está para pudores deslocados. Trata-se de uma piada. Ninguém lê a história literalmente. A mensagem é mais requintada: amem-se uns aos outros com iogurte líquido. Quanto à mulher, cabe-lhe, agora como outrora, o papel de “filha de Eva”.

Marca: Yoplait. Título: Yop le baiser. Agência: Publicis Conseil, Paris. Direção: Ilan Teboul. França, Agosto 2013.

Para bem dos meus pecados

O que motiva a publicidade a convocar cada vez mais valores negativos? O egoísmo, por exemplo. Onde se enfiou a miragem do ser humano perfeito? A propósito do anúncio Monsi, a agência Leo Burnett Argentina explica: “Este comercial sigue con el posicionamiento que venía teniendo la marca. Creo que logramos dar un paso más y hacer una buena evolución de la campaña contando el egoísmo que producen las Tentaciones, sobre todo, si tienen chocolate Aguila”. Que o egoísmo está em alta, não falta quem o proclame há décadas. Que vende bem, também sobram os casos de sucesso. Que o egoísmo se apresente cada vez menos eufemizado e cada vez mais em bruto, eis uma tendência que merece atenção.