Umbilicados, narcisistas e egoístas
Andamos precisados de uma onfalectomia (intervenção cirúrgica para a extracção do umbigo). Esta sociedade é a mais umbilical de toda a História. Nunca se umbilicou tanto. Mais que líquidos, plásticos, tribais ou pós-humanos, somos umbilicados. Não confundir com narcisistas. Narciso vê a sua imagem pelos seus olhos. O umbilicado vê o mundo pelo seu umbigo. Narciso mata-se, o umbilicado faz birra. Por seu turno, o egoísta zela pelos seus interesses, é heterocentrado, concentra-se nos outros; o umbilicado atende aos seus impulsos, é autocentrado, concentra-se em si mesmo. O egoísta conquista, o umbilicado reclama. Os umbilicados são o grau zero da solidariedade e da acção colectiva. Nós sem laços. Mais vale plantar pedras na serra da Peneda do que apascentar umbilicados na cidade.
O maior parvalhão do universo

The World Biggest Asshole, da Donate Life, é um anúncio de consciencialização dedicado à doação de órgãos. O protagonista é um homem execrável. Grande parte do anúncio aplica-se a mostrá-lo. Mas eis que morre de repente. Descobre-se que, afinal, é um herói, um ser humano exemplar: é um doador de órgãos, um salvador de vidas. Este é um esquema corrente: uma narrativa que se precipita numa reviravolta final. Por outro lado, a doação de órgãos parece funcionar como uma indulgência. Neste mundo e no outro.
Anunciante: Donate Life. Título: The World Biggest Asshole. Agência: The Martin Agency. Direcção: Speck Gordon. USA, Agosto 2016.
O ego na publicidade
O ponteiro da publicidade nem sempre pende para a generosidade. Aponta para o umbigo e dá-lhe para a ruindade. Ao volante de um automóvel, dificilmente cedemos as rédeas. Não é coisa que se partilhe. Os anúncios de automóveis constam entre os mais egocentrados. Eu mais o meu carro, eis a fórmula mecânica do prazer. Nada como esperar que a chuva passe para conduzir, solitário, o Lincoln com o tejadilho aberto… Mas pela boca também morre a dádiva. Até à última migalha, nunca é demais. Repartir um hamburger é uma afronta para o guloso omnívoro! Afortunadamente, temos direito a dueto com egoísmo cantado.
Marca: Kentucky Fried Chicken – KFC. Título: Can I have a bite. Agência: Bartle Bogle Hegarty (London). Direcção: Scott Vincent. UK, 2005.
Marca: Lincoln MKZ. Título: Matthew McConaughey and the Lincoln MKZ: Extended. Direcção: Nicolas winding REFN. USA, Dezembro 2014.
O fetichismo da mercadoria
Quando fazemos compras não somos tão egoístas quanto o apregoam os salvadores da humanidade… O prazer da compra existe, mas pode não residir nem na mercadoria, nem no fetichismo à moda de Marx. O prazer é outro. O prazer é o outro. Egoísmo? Naturalmente, mas egoísmo heterocentrado.
Nos anúncios, as personagens evoluem heterodeterminadas e heterocentradas. A promessa anunciada tende a convocar o outro. Com o outro e para o outro, com a benção da comunicação e da boa vontade. O altruismo é, até enfastiar, a matriz do discurso publicitário.
Vem estas efabulações a propósito do anúncio The call, da Fervex. Se a mãe não quer passar por um sádico aos olhos da filha, não há como tomar Fervex. O anúncio é curto (20 segundos), mas contrastado: sádico / mãe; pânico / sossego. Cuide da voz. É importante para os outros. Fervex é uma promessa de cura e a cura é uma promessa de boa relação com os outros. Para sugerir a necessidade de Fervex, impôs- se um segundo elemento (a filha que ocupa quase todo o tempo do anúncio) para revelar a oportunidade do medicamento. Na publicidade, o fetichismo da mercadoria não aliena, enlaça.
Marca: Fervex. Título: The call. Agência: Nude. Direcção: François Nemeta. França, Dezembro 2014.
Beijo cremoso
Será o retrato de Dorian Gray pós-moderno? Vagueamos em bóias de egoísmo, incapazes de partilhar o que quer que seja, a não ser o sexo? O currículo oculto, como dizem os “educólogos”, do anúncio assevera-se preocupante. Nada de exageros, que o tempo não está para pudores deslocados. Trata-se de uma piada. Ninguém lê a história literalmente. A mensagem é mais requintada: amem-se uns aos outros com iogurte líquido. Quanto à mulher, cabe-lhe, agora como outrora, o papel de “filha de Eva”.
Marca: Yoplait. Título: Yop le baiser. Agência: Publicis Conseil, Paris. Direção: Ilan Teboul. França, Agosto 2013.
Para bem dos meus pecados
O que motiva a publicidade a convocar cada vez mais valores negativos? O egoísmo, por exemplo. Onde se enfiou a miragem do ser humano perfeito? A propósito do anúncio Monsi, a agência Leo Burnett Argentina explica: “Este comercial sigue con el posicionamiento que venía teniendo la marca. Creo que logramos dar un paso más y hacer una buena evolución de la campaña contando el egoísmo que producen las Tentaciones, sobre todo, si tienen chocolate Aguila”. Que o egoísmo está em alta, não falta quem o proclame há décadas. Que vende bem, também sobram os casos de sucesso. Que o egoísmo se apresente cada vez menos eufemizado e cada vez mais em bruto, eis uma tendência que merece atenção.




