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Telemóvel: O mundo na mão

World of Distraction Nissan Rogue. 2019

Os meus artigos mais lidos não são nem os mais bem escritos nem aqueles que têm conteúdo mais interessante; os meus artigos mais lidos são aqueles que têm um título mais apelativo e são publicados à hora, no dia e no canal certos.

Todas as sociedades cultivam as suas ameaças. Receios reais ou imaginários. Os judeus, no reinado de Don Manuel e no triunfo totalitário de Hitler. Os revisionistas, na era Estaline, e os comunistas, durante o Macarthismo. Hoje, as ameaças tendem a associar-se mais a objectos, eventualmente, técnicos. No pós-guerra, a bomba atómica era o quinto cavaleiro de Apocalipse. Nos anos sessenta, os cabos de mar perseguiam os biquínis nas praias. A televisão era a mãe de todas as alienações; o maço do tabaco, um caixão funesto em vala comum; a Internet, uma aranha pérfida à escala global; e, agora, os telemóveis, um malefício portátil generalizado.

Quino. Ni arte ni parte. Lumen.1982.

Face aos riscos dos telemóveis, existe a convicção de que urge fazer tudo e a sensação de que nada há a fazer. Situação propícia à inutilidade histérica do Estado. Por generalização abusiva, todo cidadão é um caso particular do geral. Esboce-se um “exemplo teórico”: Fulano faleceu ao engolir um telemóvel (notícia de primeira página); conclusão: todos somos passíveis de engolir um telemóvel (prognóstico); contra-ordenação preventiva: falar com o telemóvel a menos de um metro da boca é passível de multa; campanha: o telemóvel é um comestível fatal, mantenha-o longe do tubo digestivo.

Na época balnear, pior do que o telemóvel, só o peixe-aranha. Se for ao mar, vá e volte, mas sem telemóvel: pode electrocutar os caranguejos. Estou a brincar, mas a coisa manifesta-se séria; é, literalmente, a primeira vez que “temos o mundo na mão”!

“Canta, canta, amigo canta
Vem cantar a nossa canção
Tu sozinho não és nada
Juntos temos o mundo na mão!!!”
(António Macedo. Canta, amigo canta. 1974)

Em suma, se quer sobreviver à décima primeira praga, a praga dos teleles, conduza um Nissan Rogue, com música de Conan Osíris (Telemóveis, 2019). Afigura-se-me, contudo, que a praga dos telemóveis se pauta por um medo irónico. Menos drama, menos tragédia, menos profecia; mais humor, ambivalência, reflexividade e abertura dialógica.

Marca: Nissan Rogue. Título: World of Distraction. TBWAChiatDay (New York). Direcção: Tom Kuntz. Estados Unidos, Julho 2019.
Conan Osíris. Telemóveis (Lyric Video). Festival da Canção 2019.

A distração da morte

1925-1930-james-ensor-pierrot-and-yellow-skeleton

James Ensor. Pierrot and yellow skeleton. 1925-1930.

Partilhamos a crença de que a morte não desperdiça as ocasiões. Beijo, abraço, riso, dança, espírito, foice, esqueleto, triunfo, a morte não falha. Excepto quando saboreia a cerveja Greene King Ipa. O protagonista sobrevive a uma série de acidentes fatais, graças à cerveja Ipa e à gula da morte. O céu, o purgatório e o inferno podem esperar. Espanta a imagem da morte a beber cerveja num anúncio a cerveja. Desconheço o efeito. Mas a agência McCann Erickson deve saber. A mente humana é arrevesada e presta-se a inversões e associações intempestivas.

Marca: Greene King Ipa. Título: La mort l’attend. Agência: McCann Ericson (London). UK, 2002.

Distração Fatal

att-the-unseenThe Unseen, da AT&T, é um anúncio de prevenção rodoviária. Especial. Alerta sobre os riscos decorrentes de usos abusivos dos próprios produtos: atender ao telemóvel ou escrever mensagens enquanto se conduz. Não é a primeira vez que a AT&T recorre a este esquema (ver Close to Home, It Can Wait, 2015). É uma opção em expansão. Estamos perante uma nova modalidade, engenhosa, de publicidade de consciencialização.

O anúncio é primoroso. Os contextos, os protagonistas e os comportamentos são gizados e caracterizados ao mais ínfimo pormenor. Normais, as pessoas são encantadoras. O pai leva as filhas à escola. A mãe dá pela falta do cão. Liga ao marido. Este não atende, “it can wait”. Estaciona o carro para falar. Um rapaz “aparece” no banco de trás. Conversam. O rapaz desaparece. “Só”, o pai atende o telemóvel enquanto conduz. Atropela uma criança, aquela que lhe tinha aparecido no carro. “ You’re never alone on the road”. “Distracted Driving is never OK”. A aparição da vítima releva de uma espécie de premonição. Constitui o momento fulcral do anúncio. A premonição, crença arreigada na nossa história e na nossa cultura, não funcionou como aviso mas como prenúncio de morte. Em suma, um anúncio com impacto.

Marca: AT&T. Título: The Unseen. Agência: BBDO New York. Direcção: Frederic Planchon. USA, Setembro 2016.

Distracção fatal

Campanha contra a droga

Campanha contra a droga

A publicidade anda necrófila. Volta e meia, repete o mote: “Se insistir, morre!” A Maria João enviou-me o anúncio suíço “Anastase: The Magic Trick”, da Polícia de Lausanne. Escrever mensagens e ouvir música  num smartphone na rua é fatal. Como ilustração, um jovem é atropelado por um carro. “Abracadabra! Se tu também queres realizar este truque incrível [a morte], basta um telefone móvel, alguns excertos de música, uma aplicação sms e, sobretudo, um pouco de inatenção”. Com humor negro, ficamos elucidados: o abuso do smartphone mata. Como o álcool, a droga, a obesidade, o tabaco.

Campanha contra o alcool

Campanha contra o alcool

Desconversemos.

O uso indevido do smartphone mata. E o resto, não mata, nem morre? Eis uma pitada de absurdo lógico.

A política, o desporto, o amor, o sexo, o sol, os medicamentos e os hospitais, não matam? Até o ridículo.

A OMS, que se presta a estes alertas, bem podia discriminar uma lista exaustiva com tudo quanto mata. Morreríamos mais felizes, para sempre!

Campanha contra a obesidade

Campanha contra a obesidade

Scotland Against Narcotics

Scotland Against Narcotics

O meu rapaz, que detesta absurdos lógicos, corrige: sustentar que o uso indevido do smartphone mata não significa que a ligação seja linear nem geral. Basta meia dúzia de vítimas para se poder afirmar que o “smartphone” mata. Assim, relativizada, a sentença de que o smartphone mata tende a esvaziar-se. O que incha, desincha e passa. O uso do smartphone na rua não mata, pode matar. Matar, sem mais nem menos, é um concentrado votado à propaganda.

Segundo a Polícia de Lausanne, na Suíça, em 2013, “1100 pessoas foram gravemente feridas ou faleceram devido à distracção. Entre os peões, 66% reconhecem que telefonam ou ouvem música durante as suas deslocações a pé”. Algumas informações têm o condão de desinformar: das 1100 pessoas, quantas morreram? Para além do smartphone, que outras fontes de distracção estão contempladas? Os números prestam-se a diversas embalagens.

Anunciante: Police de Lausanne. Título: Anastase: the magic trick.  Direcção: Raphael Sibilla & Jerôme Piguet. Suíça, Maio 2015.