O Elogio do Movimento
Bruno Aveillan reaparece quando e onde menos se espera. Desta vez, num anúncio russo para os Jogos Paraolímpicos de Inverno de 2014. A fotografia permanece um dos seus trunfos. A primeira parte do anúncio é desconcertante: Natalia Vodianova, a sétima modelo mais bem paga do mundo, corre com uma perna biónica, o que causa perturbação. Segundo Ferdinand de Saussure e o estruturalismo, classificamos a experiência a partir de associações e dissociações. Habituamo-nos a associar a beleza à ligeireza, mas não à deficiência. Este tipo de “dissonância cognitiva” desemboca, em muitos filmes, no absurdo ou no medo. Não é o caso deste anúncio, que culmina numa apoteose de cor, triunfo e felicidade: os jogos paraolímpicos.
Anunciante: Sochi 2014 Paralympic Winter Games. Título: Neverstop. Agência: JWT International Moscow. Direção: Bruno Aveillan. Rússia, 2014.
Há seres humanos cuja missão parece consistir em tornar a beleza ainda mais bela. Pela lente de Bruno Aveillan, passaram as modelos e as atrizes mais deslumbrantes. É, por sinal, casado, desde 2002, com Inna Zobova, modelo e atriz de origem russa. Em 1998, Bruno Aveillan, realizador, e Inna Zobova, modelo, deram corpo a um anúncio, pautado por uma estética inovadora, para as Galeries Lafayette. Pode espreitar aqui: Palavras com Imagens.
Um par de cornos

Moisés. Sillería de coro de la catedral de San Salvador de Oviedo. Obra realizada entre 1491 y 1497.
Muitas pessoas contemplaram, presencialmente ou não, o Moisés de Michelangelo. Poucas repararam nos cornos. As duas protuberâncias não são artifício de penteado, são, ineludivelmente, dois cornos. Este tipo de “cegueira” remete para a teoria da dissonância cognitiva de Leon Festinger. Quando visitamos a basílica de San Pietro in Vincoli, em Roma, aspiramos à perfeição da arte e da religião, não a um par de cornos ao jeito de Pan ou de Lucífer. E, no entanto, eles lá estão.
O Moisés de Michelangelo não é um caso isolado (ver galeria de imagens). Na Idade Média, mas também nos séculos seguintes, muitas obras representam o profeta com cornos. Dizem os entendidos que esta anomalia decorre de um erro de São Jerónimo (347-420) na tradução da Bíblia do hebreu para o latim:
“Ao traduzir uma passagem do Êxodo que descreve o semblante do profeta Moisés, São Jerônimo escreveu em latim: cornuta esse facies sua, ou seja, “sua face tinha chifres”. Esse detalhe esquisito foi levado a sério por artistas como Michelangelo – sua famosa escultura representando Moisés, hoje exposta no Vaticano, está ornada com dois belos corninhos. Tudo porque Jerônimo tropeçou na palavra hebraica karan, que pode significar tanto “chifre” quanto “raio de luz”. A tradução correta está na Septuaginta: o profeta tinha o rosto iluminado, e não chifrudo. Apesar de erros como esse, a Vulgata reinou absoluta ao longo da Idade Média – durante séculos, não houve outras traduções.
30.E, tendo-o visto Aarão e todos os israelitas, notaram que a pele de seu rosto se tornara brilhante e não ousaram aproximar-se dele. Ex 34:30.” (“Chifres de Moisés”. Blogue Parafraseando a Verdade: http://parafraseandoaverdade.wordpress.com/2011/06/30/moises-do-antigo-testamento-com-chifres/.”
Custa-me a acreditar que um erro de tradução de uma palavra fosse suficiente para coroar, durante séculos, o profeta dos profetas com um brilhante par de cornos. A imagem vingou porque se enxertou no imaginário da época, nas crenças e nos sentimentos das pessoas. Fazia sentido.
Os cornos significam, em várias culturas, potência. No caso de Moisés, a força de Deus. Não é por acaso que os guerreiros celtas e vikings colocavam cornos nos capacetes. Dei, há semanas, uma aula sobre a relação entre o poder e a arte, incluindo as moedas. Começámos pelo início: Dario I, o imperador da Pérsia, cunhou moedas com o logotipo do arqueiro, o seu símbolo; Alexandre o Grande faz circular moedas com o seu perfil. Acontece que Alexandre o Grande é retratado nas moedas com cornos na cabeça! (Figura).
Não há símbolos unívocos. Os cornos remetem para a potência, para a virilidade, mas também para o oposto:
“C. G. Jung encara uma outra ambivalência no simbolismo dos cornos: representam um princípio ativo e masculino, pela sua forma e pela sua força de penetração; um princípio passivo e feminino, pela sua abertura em forma de lira e de recetáculo. Reunindo estes dois princípios na formação da personalidade, o ser humano, assumindo-se integralmente, atinge a maturidade, o equilíbrio, a harmonia interior” (Chevalier, Jean & Gheerbrant, Alain, Dictionnaire de Symboles, Paris, Robert Laffont, 1982, p. 290).
Palavras que lembram Gilbert Durand.
- Fig 01. Statue of Moses c.1150-1200, St. Mary’s Abbey, now in the Yorkshire Museum.
- Fig 02. Statue of Moses c.1150-1200, St. Mary’s Abbey, now in the Yorkshire Museum. Detail.
- Fig 03. Arbusto flamejante. Huntingfield Psalter. 1210-1220.
- Fig 04. Lyon, Bibliothèque Municipale. Ms a418. séc XIII.
- Fig 05. Fresco medieval. Deus dá a tábua dos dez mandamentos a Moisési. St. Andrews Church in Westhall.
- Fig 06. William de Brailes. The Israelites Worship the Golden Calf and Moses Breaks the Tablets. circa 1250
- Fig 07. Bury Bible (about 1355). Cambridge
- Fig 08. Andrea de Bonaiuto (1333-1392), Moisés. Afresco (detalhe)
- Fig 09. Moses with Horns in the Chapel at New College, Oxford. 1350.
- Fig 10. Moses with Horns in the Chapel at New College, Oxford. 1350. Detail.
- Fig 11 Moses with Horns in the Chapel at New College, Oxford. 1350. Detail.
- Fig 12. Moisés recebe as tábuas da lei. Ms. Rouen, BM 0.4. Séc. XIV.
- Fig 13. Moses, the ten plagues and the ten commandments. 1465-1480. The British Museum.
- Fig 14. Claus Sluter, Well of Moses. 1395-1403. Musée Archéologique, Dijon
- Fig 15. Janela da Capela de Rosslyn (construída ente 1446 e 1484). Moisés.
- Fig 16. Moisés. Sillería de coro de la catedral de San Salvador de Oviedo. Obra realizada entre 1491 y 1497.
- Fig 17. Michelangelo. Moisés. 1513-1515
- Fig 18. Michelangelo. Moisés. 1513-1515. Pormenor.
- Fig 19. Moses on the 1518 baptismal font in St. Amandus, Bad Urach, Germany, by the sculptor Christoph von Urach.
Anomalia
Este anúncio admirável da Orange ilustra como os “apanhados” inventivos, simulados ou não, podem desafiar as próprias ciências sociais. Como lidam as pessoas com uma dissonância cognitiva inesperada? Os olhos acreditam no que vêem? Quanta exposição é necessária para se reconhecer um facto anómalo? Para admitir a presença do “impossível”? Como é gerido o conflito entre a razão e a percepção? Quem é anormal? A pintura embuste ou o público estupefacto? Como se desloca esta sensação de anormalidade? Quanto tempo demora a procura de confirmação alheia? O olhar dos outros, a experiência comum, funciona como uma âncora para a travessia cognitiva? Uma dissonância partilhada deixa de ser uma dissonância? A comunicação e o consenso conduzem à verdade? O que justifica o alívio festivo provocado pela “reposição dos factos”? Uma catarse? Uma recomposição? O resgate do “mundo natural”, do conforto da evidência? Pode a reconversão do olhar tornar-se profética? Suspender a ordem? Reconfigurar os dispositivos de acção? E, já agora, até que ponto estes sorrisos e estas piscadelas de Mona Lisa atrevida são estratégicos para a Orange? Por quê a Mona Lisa e não outro quadro qualquer? Este anúncio é da Orange, para a Orange, da Publicis Conseil ou da Publicis Conseil para a Orange? Aceitam-se respostas múltiplas.
Marca: Orange. Título: Mona Lisa. Agência: Publicis Conseil. Direção: Bo Platt. França, Julho 2013.


























