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Inocêncio e Felicidade

Domingo de Páscoa fui a Melgaço. Reencontrei familiares e amigos, almocei na Tasquinha da Portela, pasmei no pátio de infância, visitei a casa paterna e trouxe comigo o aparelho de rádio em que escutava o programa Quando o Telefone Toca, do Rádio Clube Português. Recarreguei a alma e reforcei os laços! Nota-se, não nota? Menos porque “aqui começa Portugal”, também começa a Galiza, mas talvez porque na minha aldeia morou um senhor chamado Inocêncio e uma senhora chamada Felicidade.

Insisto em colocar imagens fantásticas de Melgaço radical. Desta vez, percursos fluviais, Canyoning, pela mão da Montes de Laboreiro Animação Turística LDA, uma empresa de desporto aventura vocacionada para as práticas de turismo de natureza, sedeada na Vila de Castro Laboreiro.

Carregar na imagem seguinte para aceder ao vídeo. E ligar o som.

Montes de Laboreiro. Water Canyoning no Rio Laboreiro

Kayak na cascata do rio Laboreiro

Kayak na cascata do rio Laboreiro

Imagens espetaculares da prática de kayak na cascata do rio Laboreiro, em Castro Laboreiro, Melgaço. “Posiblemente sea uno de los rios  más espectaculares de Europa para practicar kayak”. Felicito a  Slowmo Castro Lovin’, a Pistyll Productions e os desportistas pela realização deste vídeo fantástico. Agradeço ao Fred Sousa a partilha na página Melgaço, Portugal começa aqui.

Carregar na imagem seguinte para aceder ao vídeo.

Slowmo Castro Lovin’. Rio Laboreiro – Radical Rider. Pistyll Productions. 2021 (?).

Virtualidades do menos bom

E quando o menos bom resulta em mais bom… Eis uma equação que palpita nas cabeças pensantes. Neste sentido, costuma dizer-se que existem males que vêm por bem. Neste anúncio japonês da agência Dentsu, um comportamento brutesco quase universal é responsável por uma quase beleza universal. Mas subsistem exceções decisivas…

Marca: Creapills. Título: Ajinomoto Stadium (?) / The Pills of your Creativity. Agência: Dentsu. Japão, fevereiro 2022.

Maternidade desportiva

Nike. The toughest athletes. 2021.

Guerreiros e atletas. Espartanos. Olímpicos. Semideuses e ídolos. Desde a Antiguidade, que a proeza exalta os seres humanos. Pela obra e pela devoção. À semelhança dos pódios gregos, muitos anúncios publicitários parecem escaparates elitistas de heroínas e heróis. No anúncio The Toughest Athletes, da Nike, as mulheres atletas, mães ou grávidas, são fortes e resistentes. O segredo provém do uso de roupas desportivas Nike. No contexto atual da natalidade, este anúncio é oportuno.

“Dados do Instituto Nacional de Estatística dão conta de que, em 2020, houve menos 2,6% nascimentos e mais 10,2% óbitos do que em 2019. Em 2020, nasceram menos bebés em Portugal e o número de óbitos cresceu muito, o que fez com que o saldo natural do país (a diferença entre o número de nados-vivos e de óbitos) continuasse negativo, pelo 12.º ano consecutivo, e em valores superiores aos anteriores. Os dados, ainda preliminares, são do Instituto Nacional de Estatística (INE) e foram revelados esta terça-feira (Morremos mais e houve menos nascimentos: saldo natural em Portugal cada vez mais negativo. Público, 16 de março de 2021: https://www.publico.pt/2021/03/16/sociedade/noticia/morremos-menos-nascimentos-saldo-natural-portugal-negativo-1954621).

Marca: Nike. Título: The Toughest Athletes. Agência:Wieden+Kennedy London. Reino Unido, março 2021.

Alteração climática

Salla 2032. Finlândia

E se Salla, povoação polar da Finlândia, se candidatar aos Jogos de Verão de 2032? Graças, precisamente, às alterações climáticas! A população antecipa o evento, aclimata-se. Humor on the rocks, glaciar. Estranha-se, mas não se entranha. Um arrepio. Acusamos o embate, o alarme, de uma ficção caricata e bem contada. Espantoso é este anúncio tão polar ser brasileiro. A agência Africa, de São Paulo, tem um portfólio ímpar.

House of Lapland / Supported by Fridays for Future. Título: Save Salla. Agência: Africa (São Paulo). Brasil, fevereiro 2021.

Regressar

Semideuses, quase divinos, os ídolos desportivos vingam na comunicação e na publicidade. No anúncio Never too far down, da Nike, o basquetebolista Lebron James, a tenista Serena Williams, o jogador de golfe Tiger Woods e o futebolista Cristiano Ronaldo persuadem-nos que vamos recuperar (da pandemia). Não há abismo ou descaminho que não tenha regresso. Estes quatro campeões não são peritos em coronavírus, mas são magos da bola. Possuem aura e argumentos. Exorbitam. A sequência com o maratonista a arrastar-se até à meta (ver imagem) é a quintessência da mensagem do anúncio: importa resistir, mais que resistir, importa não desistir.

Com a mestria da agência Wieden + Kennedy, uma das melhores a nível mundial, as imagens dos rostos, dos corpos e das posturas dos atletas resultam magníficas, quase transcendentes. Lembram as esculturas da Grécia Clássica. Lembram, também, os atletas do filme Olympia, de Leni Riefenstahl (1936). Será que existe uma estética dos semideuses desportivos? Aproxima-se da estética dos semideuses militares? Afasta-se da estética dos semideuses poetas?

Marca: Nike. Título: Never too far down. Agência: Wieden + Kennedy (Portland). Direcção: Lance Acord. Estados-Unidos, Maio 2020.

A fibra do guerreiro

O filósofo grego Filóstrato (séculos II-III d.C) escreve no Tratado sobre a ginástica:

“Estes antigos atletas tomavam banho nos rios e nas fontes, dormiam no duro, uns sobre peles, outros sobre ervas que cortavam nas pradarias. Os seus alimentos consistiam em maza e em pão mal cozido e não fermentado; alimentavam-se ainda de carne de boi, de touro, de bode e de antílope. Untavam-se com óleo de azeitonas vulgares ou de outras espécies de azeitonas; permaneciam assim resguardados de doenças e retardavam a devastação da velhice. Alguns participaram nos confrontos durante oito olimpíadas, outros durante nove, e tornaram-se hábeis no manuseamento de armas pesadas. Batiam-se como se fossem donos de uma fortaleza, e não se mostravam inferiores nesta espécie de combates; eram julgados dignos do prémio da valentia e de troféus; faziam da guerra um exercício para a ginástica, e da ginástica um exercício para a guerra” (Philostrate, Traité sur la gymnastique, Paris, Librairie de Firmin Didot Frères, Fils et Cie, 1858).

Norbert Elias fala em etos guerreiro (Elias Norbert. Sport et violence. In: Actes de la recherche en sciences sociales. Vol. 2, n°6, décembre 1976, p. 8; pdf anexo). Mas, agora como dantes, nem todos os desportos pressupõem disposições guerreiras.

“Em suma, desta breve comparação entre as características dos desportos mais populares e dos desportos mais novo-burgueses ressalta uma oposição paradigmática entre ascese (áskësis) e estese (æsthësis). Enquanto que muitas das práticas mais típicas dos desportos populares parecem movidas por um éthos guerreiro as dos desportos novo-burgueses remetem mais para o éthos do mestre ou do artista (Gonçalves, Albertino, Imagens e Clivagens, Porto, Afrontamento, 1996, p. 114); pdf anexo).

O anúncio The only way is through, da Under Armour, é uma ilustração concisa do etos guerreiro: esforça-te, castiga-te, resiste, treina, concentra-te, supera-te, enfrenta e vence. Under armour. Mas, ao contrário das olimpíadas da antiguidade, não podes, em princípio, nem estropiar nem matar o adversário.

Marca: Under Armour. Título: The only way is through. Estados Unidos, Janeiro 2020.

O espectáculo da violência

Bundesliga, Bayer Leverkusen 2 – Bayern Munich 0. 2015.

Quem só vive de ideias alheias é um cemitério do pensamento (AG).

No tempo em que escrevia artigos para revistas, classifiquei o futebol e o rugby como “simulacros de batalha” (“O desporto do nosso contentamento”, 2002, acessível em https://tendimag.com/2011/10/30/o-desporto-do-nosso-contentamento/). Seguia as pegadas de Johan Huizinga, Roger Caillois, Jean-Marie Brohm, Pierre Bourdieu e Norbert Elias.

Peguei na ideia, coloquei-a numa garrafa (de madeira) e lancei-a ao estuário. Afastou-se, aproximou-se, afastou-se aproximou-se, até que desapareceu. Surgem, entretanto, outras garrafas que lembram a minha. É o caso, ilustrativo, do anúncio Be Their Armour, da O2 Sports:

At O2, we’ve always believed that the power of support can help England overcome any obstacle, and your support during this autumn is no different. It acts like armour for the players; every tweet is another link of chainmail, every roar of support is another piece of armour and together we can make them stronger.

Marca: O2 Sports. Título: Be their armour. Agência: VCCP. Direcção: Sam Brown. Reino Unido, Setembro 2019.

Género e publicidade

Figura 1. Adidas. Hat-trick para la historia. 2019.

Uma jornalista pediu-me a opinião sobre o protagonismo actual da figura da mulher e das minorias, designadamente nos media. Por exemplo, o próximo filme da saga 007, cujo protagonismo é atribuído a uma mulher negra. Este é um assunto que, para evitar contratempos, costumo esquivar.

O protagonismo das mulheres não é novidade, nem nos filmes, nem nos videojogos. Recordo, por exemplo, Lara Croft. Esgotada, a fórmula da saga 007 requer uma “refundação”.

A publicidade é um barómetro das mudanças de valores. É abrangente, com ancoragem nas dinâmicas sociais. O cinema, em contrapartida, é mais lento, mais denso, mais profundo, mais complexo e possui outros desígnios.

A fazer fé na publicidade, a figura da mulher está a passar por uma fase ostensiva. Muitos anúncios falam de mulheres, incluem mulheres e promovem, explicitamente, as mulheres.

Para ilustração, escolho, entre muitos, três anúncios.

Vídeo 1. Marca: Adidas. Título: Hat-trick para la historia. Agência: VMLY&R Argentina. Direcção: Facundo Españon. Argentina, 21 de Agosto de 2019.

O anúncio argentino Hat-trick para la historia, da Adidas, resgata o episódio de uma futebolista que, no mundial de 1971, marcou quatro golos à selecção feminina da Inglaterra. O anúncio propõe a criação, a 21 de Agosto, do “Dia da Futebolista em Argentina”. Convém referir que já existe o Dia do Futebolista em Argentina, a 14 de Maio. A justificação é semelhante: comemora um golo da vitória da Argentina contra a Inglaterra em 1953. Existe, ainda, o Dia do Treinador de Futebol a 13 de Novembro. O Hat-trick para la historia, da Adidas, lembra o anúncio da Nike publicado no passado mês de Julho (ver vídeo 3).

Vídeo 2. Marca: Laboratorios Roemmers / Sertal Fem. Título: No existen. Agência: ADN Comunicación. Direcção: Dario Sabina. Argentina, 14 de Agosto de 2019.

Publicado há uma semana, o anúncio argentino No existen, da Sertal Fem (vídeo 2), empenha-se em rebater estereótipos de género: “não existe roupa de mulher, nem um estilo de mulher, não existem desportos de mulher (…) nem os hobbies de mulher, mas existem, isso sim, coisas que são só nossas; por isso, para o odor menstrual existe Sertal Fem”. Não existem diferenças, salvo as diferenças.

Vídeo 3. Marca: Nike. Título: Never stop winning. Agência: Wieder + Kennedy (Portland). Estados Unidos, 7 de Julho de 2019.

O anúncio Never stop winning, da Nike, é um hino à mulher. Uma apoteose. Retomo o vídeo e o comentário do artigo Coroa de Louros:

“O futebol já não é o que era. Nunca foi! As mulheres jogam, treinam e sonham. No futebol, como no resto, aspiram ser as melhores.
Uma equipa feminina de futebol, a selecção americana, venceu o campeonato do mundo de futebol feminino de 2019. O sentido de oportunidade da Nike e a categoria da agência Wieden + Kennedy resultaram numa campanha de publicidade que alia visão, drama e emoção. Never stop winning estreou no dia 7 de Julho, dia da vitória da selecção americana.
Acrescento dois anúncios da Nike, do mesmo teor, publicados antes da edição do campeonato do mundo de futebol feminino (7 de Junho a 7 de Julho, em França): Dream with us (12 de Maio) e Dream further (1 de Junho). Estes hinos e chamamentos da Nike são excessivos, quase sagrados” (https://tendimag.com/2019/08/12/coroa-de-louros/).

Desconheço a política relativa ao género e às minorias das marcas Nike e Adidas. O mesmo para as agências Wieden + Kennedy e VMLY&R. À partida, o que lhes interessa é a promoção da marca junto do público. Sintonizar a bússola da sensibilidade colectiva. É verdade que, após décadas de mobilização, o género e as minorias estão na crista da onda. Mas a crista não é a onda e a onda não é o mar.

A Nike é omnívora em termos de causas sociais. Afirma-se como um expoente de “responsabilidade social”. O que não a impede de assinar anúncios com algum acento na virilidade. Creio ser o caso do anúncio Couldn’t Be Less Nice (Canadá, 2017).

O anúncio Couldn’t Be Less Nice, da Nike, convoca a violência, com os estereótipos do costume: a oscilação entre simpatia e agressividade; a figura do violento bom vizinho e amigo dos animais; e a profecia do vencido de que a força está do lado do inferno. O protagonista é uma versão do Alex, o vilão (sexista) do Laranja Mecânica (1971). A própria música do anúncio convoca a banda sonora do filme. A abertura de O Barbeiro de Sevilha (1816), de Gioachino Rossini, condiz com a abertura de La Gazza Ladra (1817) e a abertura de Guillaume Tell (1829), do mesmo compositor, incluídas no filme Laranja Mecânica ( https://tendimag.com/2018/01/22/o-lado-feio/ ).

Tudo indica que este anúncio da Nike foi retirado de circulação. No Tendências do Imaginário, deixou de estar acessível. Reproduzo-o neste artigo graças ao site Culturpub. Para aceder ao anúncio, carregar na imagem. Também pode aceder neste endereço: http://www.culturepub.fr/videos/nike-couldn-t-be-less-nice/.

Vídeo 4. Nice. Couldn’t Be More Nice. 2017.

São João do Churrasco

Saint John the Baptist in the Wilderness by Jheronimus Bosch, dated around 1489.

A churrasqueira é o equivalente popular da piscina burguesa. Não existe vivenda realmente acabada sem uma churrasqueira. Algumas fazem inveja a toda a gente e, sobretudo, aos vizinhos. A maioria releva do consumo ostentatório. À semelhança das piscinas, são pouco usadas, a não ser nos dias extraordinários e propícios ao ritual. Um ritual sacrificial: primeiro, queima-se o carvão no altar, em seguida, grelha-se o peixe ou a carne, designadamente as costelas e as sardinhas, por último, comunga-se à mesa. Entretanto, perfuma-se o ar. Uma graça atmosférica.

Uma pergunta: por que motivo tende a ser o homem a ocupar-se do churrasco? Será que, como Pierre Bourdieu (Esquisse d’une théorie de la pratique, 1972) afirma a propósito dos cabilas da Argélia, o interior é feminino e o exterior, masculino? Logo, compete à mulher o interior da casa e ao homem, o exterior. Nada que a tradição não sugira: “quem manda na casa é ela…”

Hoje é dia de Don Churrasco, perdão, de São João. Festa de balões, manjericos, alhos, fogueiras, dança, folia e churrasco. Já me cheira a fumo; do vizinho da direita. O vizinho da esquerda atrasou-se, mas também já deita fumo. Quem dera estar em Moledo. No mar não se costuma fazer churrascos!

Para terminar, duas sugestões:

  1. Talvez fosse musicalmente interessante convencer o Quim Barreiros a dedicar uma canção ao churrasco;
  2. É de ponderar colocar uma churrasqueira no centro de uma rotunda.

Existem muitos anúncios com o triângulo homem + futebol + churrasco. O Parri in Picture, da Directv, é um bom exemplo.

Marca: Direct tv. Título: Parri in Picture. Agência: Ogilvy & Mather (Argentina). Direcção: Fede Russo. Argentina, 2016.