Desfiguração
“Das coisas cuja visão é penosa temos prazer em contemplar a imagem quanto mais perfeita; por exemplo, as formas dos bichos mais desprezíveis e dos cadáveres” (Aristóteles, Arte Poética).
Na arte, a história do feio é antiga, tal como a história da interação entre o belo e o feio. As artes convocam o feio como polo oposto do belo. O feio entra no atelier do artista pela mão do belo. E se o polo do feio se reforça? E se o belo passa a polo do feio? E se o belo começar a entrar no atelier do artista pela mão do feio? E se a estética do feio rivalizar, enfim, com a estética do belo? Quem diz feio, diz horror, violência…
Beauty tips by Reshma: How to get perfect red lips, da organização indiana Make love not scars, é um anúncio de consciencialização impressionante. A desfiguração apodera-se, sem tréguas, do ecrã e do olhar. Reshma, 18 anos, vítima, na cidade de Mumbai, em 2014, de um ataque com ácido sulfúrico, conclui que “é tão fácil comprar ácido concentrado como bâton para os lábios”.
Anunciante: Make love not scars. Título: Beauty tips by Reshma: How to get perfect red lips. Agência: Ogilvy & Matter. Índia, Agosto 2015.
Grotescamente
Vermibus é um artista de Berlim. Em Dissolving Europe, retira as imagens de outdoors, desfigura-as com dissolvente e recoloca-as, deformadas, no mesmo local. Assim sucedeu em Paris, Barcelona, Amsterdão, Viena, Londres e Berlim. Os cartazes apresentam modelos famosos, que irradiam beleza, classe e estilo. Vermibus torna-os irreconhecíveis. Estamos confrontados com um conto de fadas invertido. O belo dá lugar ao disforme e ao grotesco, lembrando a estética de Francis Bacon, bem como a técnica de restauro da espanhola Cecilia Giménez.
Vermibus. Dissolving Europe. 2013.


