A dança de Paris

O acordeão desperta as folhas mortas no cais da paixão. Ressonâncias, saudades… Ao longe, na água, o silêncio. No fundo, a memória das coisas distantes.
Como gostaria de escrever sem pintar as palavras!
Et la vie sépare ceux qui s’aiment,
Tout doucement, sans faire de bruit.
Et la mer efface sur le sable,
Les pas des amants désunis.
(Jacques Prévert. Excerto de Les Feuilles Mortes. Paroles. 1945).
O império das mercadorias

A Coca-Cola oferece-se como uma poção mágica (vídeo 1). À semelhança da beberagem do Panoramix (vídeo 2). A primeira resulta numa dança acelerada e colorida, a segunda, numa pancadaria ciclópica. Os objetos, as mercadorias, apoderam-se de nós e transfiguram-nos. Atente-se nos sofás Snug (vídeo 3).
O Rito da Primavera

Não é possível suspender as palavras. Não o permite o sentido do mundo. Mas, às vezes, apetece. Apetece o silêncio das palavras caladas.
Dança suja

No anúncio He-Man and Skeletor Dancing, da Money Supermarket Commercial, música, dança e fantasia desenham um triângulo absurdo. Os super-heróis He-Man e Skeletor, um par improvável, dançam a música (I’ve Had) The Time of My Life, de Bill Medley e Jennifer Warnes. Uma dança sórdida.
A música na publicidade

Quando a música e, eventualmente, a dança são estrelas, o resto perde brilho. São exemplo os anúncios Dairy Dancing, da Pump e Little Angels, da Hyundai. O motivo e a marca podiam mudar, o impacto e a promoção mantinham-se. Repare-se, por último, que a música produz um efeito de união: em Dairy Dancing, as pessoas sintonizam-se; em Little Angels, a música pacifica e gera comunhão dentro e fora da família.
A dança das rãs

A elasticidade das rãs é proverbial, desde as pernas até à língua. Prestam-se à dança, com as devidas sintonias e distâncias. Por que dançam as rãs? Para promover a acessibilidade dos serviços de uma instituição financeira londrina.
A dança das máscaras

Conversa parva:
No mês de Agosto, há trinta anos, estava a banhos numa praia a sul da Zambujeira. Obrigava-me a uma boa caminhada. Um dia, um velhote, com um garrafão de água, ultrapassa-nos numa descida. Na subida, é a nossa vez de o ultrapassar. Digo-lhe: “a subir custa mais”. “Ná senhor ná! Fui atleta”, e desata a correr rampa acima. Não é fácil prever quando se despoleta a mola humana! Numa máscara cabe o infinito.
As máscaras gostam de música e de dança. Com música dos Dead Can Dance, os vídeos seguintes conjugam máscaras, música e dança.
Sugiro uma visita à fotogaleria “Como as sociedades se reinventam para a distância social da covid-19” do jornal Público: https://www.publico.pt/2020/08/07/fotogaleria/sociedades-reinventam-pandemia-covid19-402133
Pausa para trabalhar

“Durante muito tempo, pensei que o papel do artista era despertar o público. Hoje, quero oferecer-lhe no palco aquilo que o mundo, cada vez mais duro, deixou de lhe oferecer: momentos de amor puro (Pina Bausch).
A pandemia comprime o tempo e multiplica os surtos de trabalho. Julho revelou-se um pico maior que o Evereste. Ocorre a figura do judeu em terras de faraó a subir a montanha de costas. Nos próximos tempos, prometo empenhar-me em fazer aquilo que não presta, bem como aquilo que não devo. Que prazer poder e não fazer, ouvir as sereias junto à Ilha dos Amores. O Tendências do Imaginário esteve onze dias quedo e mudo. É estranho ter saudades do vício. “O trabalho não liberta”, tal como o resto. “Welcome to the pleasuredome” (https://tendimag.com/2018/06/19/canteiros-do-prazer-pleasuredomes/).
Pina Bausch é a dança. Wim Wenders dedicou-lhe um filme: Pina (2011). O vídeo “Seasons March” é um excerto. A última música é um fado de Coimbra: “Os teus olhos são tão verdes”. Aproveito para recolocar o vídeo “Dead Can Dance – Song of the Stars (Versão Pina Bausch”. Se já viu, é uma ocasião para ver com outros olhos.
Trampolinar

Há coisas prodigiosas capazes de transformar as pessoal. Ora enfraquecem, como a kryptonita do Superman, ora revigoram, como os espinafres do Popeye. A publicidade também promete quimeras. E se andar na rua fosse pisar trampolins? Andar mais alto, mais longe e mais rápido, tudo em suavidade. Como ter “amigos de amigos” no bailado social. A chave: os auscultadores AirPods, da Apple. E se deslocar-se fosse “dancing in the streets”, num mundo recolorido a frisar o psicadélico? A chave: os auscultadores Airpods, da Apple. Os convidados de hoje são o David Bowie e o Mick Jagger.
David Bowie & Mick Jagger. Dancing in the streets.
Sensação de viver

“O coração tem razões, que a própria razão desconhece” (Blaise Pascal).
O anúncio português “E a vida sorri”, da Olá (1986), e o anúncio britânico “Food dancing”, da Sainsbury’s (2017), recordam um anúncio português da Coca-cola: “Sensação de viver” (1989). Velocidade, comunicação, parceria, alegria e emoção. Nos dois últimos anúncios, a dança acompanha, envolvente, a música. O que cativa nestes anúncios? O intelecto ou o afecto? O pensamento ou o sentimento? A razão ou a emoção? Seria curial acreditar que quanto mais se pensa mais se sente. Mas não é verdade. Conhecer pela razão e conhecer pelo coração não são as duas faces da mesma moeda.
A comercialização da Coca-cola em Portugal remonta a 1977. Proibida durante o fascismo, assim permanece durante os três primeiros anos da democracia. Pelos vistos, a coca-cola tinha paladar político. Lembro as grades de coca-cola despachadas, clandestinamente, de Espanha para a dispensa. Mas a proibição da coca-cola não abrangia as ex-colónias. Os regressados sentiram a falta.
Our first work for Sainsbury’s celebrates the real power of food – not just a set of ingredients on a plate, or Instagram eye-candy, but something that lies at the heart of living well, bringing us joy and making us feel good. In doing so, it pours meaning back into Sainsbury’s endline “live well for less” (Wieden + Kennedy: http://wklondon.com/work/food-dancing/).
