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Como lavar as mãos sem água

Garnier

Começaram as aulas. Tocam os sinos nas caixas cranianas. Aleluia! Mais uma peregrinação ao Evereste. Para sentir “um pouco de céu”, como canta a Mafalda Veiga (https://www.youtube.com/watch?v=zQ6LuAHQzEE)! Voam e caem as palavras, como anjos brancos e negros. O ensino é uma missão bíblica. Abrir todos os dias o mar Vermelho. Nas aulas ecoa, porém, a mesma nota discordante: a aprendizagem a tender para zero e a evasão para o infinito.

O anúncio Tutorial, da UNICEF, é um caso à parte. Como é apanágio do diretor, Bruno Aveillan, as imagens são de um apuro estético supremo. Mas o conteúdo não desmerece, é um assombro de comunicação. As crianças esfregam e esfregam as mãos, mas as mãos continuam sujas. Como a nossa consciência.

Vem este devaneio a propósito da UNICEF. A pedagoga da humanidade. Acaba de sair o anúncio da Goodwill: Get it. Uma encenação barroca. Contrasta com o despojamento trágico do anúncio Tutorial da UNICEF. Na vida, como nas aulas, a teoria não basta.

Marca: Goodwill. Título: Get it. Agência: Digitas. Estados Unidos, Setembro 2018.

Marca: UNICEF & Garnier. Título: Tutorial. Agência: Buzzman. Direcção: Bruno Aveillan. França, Abril 2017.

 

Voluntariado em África

Meco. Quénia - Cópia

O Américo foi como voluntário para o Quénia. Trabalhou com crianças com dificuldades. Fez este vídeo atento aos pequenos pormenores. Uma experiência e um testemunho. O Meco tem muita classe. Está sempre a surpreender!

AIESEC Volunteer Kenya. Epic Journey. 2017.

O feitiço tecnológico

McDonald's Timeless

Se a publicidade fosse uma biblioteca, o tema das relações de género ocuparia várias estantes pejadas com livros de salmos e sermões. Mais pequena, mas em crescimento, aparece a estante da adição às novas tecnologias, cheia com livros de responsos e esconjuros. O anúncio Timeless, da McDonald’s, mostra quanto um pai tem que ser inventivo para cativar a atenção dos filhos, embruxados crónicos pelos telemóveis, tablets, videojogos & Cia. Deste anúncio depreende-se que para resgatar os filhos, o pai deve “tornar-se” criança, regredindo, com os filhos, até à sua própria infância. Esta fórmula é recorrente. A desintoxicação resulta cada vez mais fantástica. Uma boa parte dos anúncios sobre a cidadania e a qualidade de vida são promovidos por grandes marcas, incluindo a McDonald’s, que, nas alturas, tanto se preocupam com as nossas vidas. Tanto interesse comove qualquer um.

Marca: McDonald’s.Título: Timeless. Agência: DDB New Zealand. Direcção: Matt Devine. Nova Zelândia, Maio 2018.

Xeque mate

Queen project

Os jogos entre adultos e crianças parecem ser uma boa solução para a luta pela igualdade de género. A maioria dos jogos encerra pressupostos machistas. Desmascará-los é importante para promover a igualdade de género.

“FCB Inferno’s CCO Owen Lee added: “This crushingly simple insight came from a five-year-old girl asking a simple question that we all struggle to answer. We are all guilty of unconscious bias and as a communications business we have a chance to do something about that. Queen Rules is a way of playing any number of card games that will change the way people think. So, the next time a little girl asks ‘Are Kings better than Queens?’, the answer will unequivocally be ‘No, it depends how you want to play the game” (https://campaignsoftheworld.com/print/queen-rules-by-fcb-inferno-on-international-womens-day-against-gender-bias/).

Pode, porém, insinuar-se um efeito secundário, uma interpretação que não aponta para a igualdade de género mas para sua inversão: um género, neste caso feminino, passaria a ser mais igual que o outro. As frases dos adultos no final do anúncio dão azo a esta interpretação “abusiva”:

“The Queen Rules project launched on International Women’s Day as a new way to play cards where Queen outranks King. Simultaneous live events and poker tournaments took place around the world to mark the official launch of the new rules” (Coloribus Advertising Archive).

Anunciante: Queen Rules Project. Título: Queen Rules – Social Experiment. Agência: FCB Inferno. Direcção: Libby Durk Wilde. Reino Unido, Março 2018.

Feliz Natal!

Marca: Indie Junior. Título: Horse. Agência: Leo Burnett (Lisboa). Direcção: Telmo Vicente. Portugal, 2014.

Pavor eterno

Vincent Van Gogh. No limiar da eternidade. 1890 ( ano de sua morte).

Vincent Van Gogh. No limiar da eternidade. 1890.

Ao escrever o artigo Não me esqueças, ocorreram-me dois anúncios portugueses que abordam, também, a doença de Alzheimer: First Date, da Alzheimer Portugal e Alzheimer, do Instituto de Apoio à Criança. Este último segue uma fórmula conhecida: embarca-se num rio, a doença de Alzheimer, e desagua-se noutro estuário, os maus tratos a crianças. Comparado com o anúncio Forget Me Not, da Thai Life Insurance, o anúncio do Instituto de Apoio à Criança apresenta-se mais cerebral: reforça a razão em detrimento do coração, perdendo alguma imersão e emoção. Mas o conceito é brilhante: a dor e o medo, decorrentes dos maus tratos sofridos na infância, são eternos. Nem uma doença como a de Alzheimer consegue apagá-los da memória!

Edvard Munch. Ansiedade. 1894.

Edvard Munch. Ansiedade. 1894.

O anúncio do Instituto de Apoio à Criança corre um risco. Cruza imagens de dois sofrimentos: a doença de Alzheimer e os maus tratos às crianças. Não é, porém, líquido que duas imagens, ou duas emoções, se somem. Podem potenciar-se, adicionar-se, reduzir-se ou anular-se. Em criança, um livro dedicado às técnicas de judo ensinava que, durante a queda, importava bater com o braço no chão, gerando, assim, duas fontes de dor que se atrofiam mutuamente, numa espécie de engarrafamento neuronal. Por último, quando se juntam duas imagens, arrisca-se um eclipse: uma imagem pode sobrepor-se à outra.

Anunciante: Instituto de Apoio à Criança. Título: Alzheimer. Agência: Leo Burnett Lisboa. Direcção: Carlos Manga Jr. Portugal, 2006.

A morte entre as mãos de uma criança

brady-campaignA publicidade tem picos temáticos, tais como os jogos olímpicos ou o campeonato do mundo de futebol. Acrescente-se o Halloween. Semanas antes, em Outubro, disparam os anúncios alusivos a mortos ou, eventualmente, à morte. O estilo vai do humor, amiúde negro, à sátira, passando pela paródia e pela ironia.

O anúncio Toddlers Kill, da Brady Campaign to Prevent Gun Violence, não é um rebento do Halloween, mas é sinistro, satírico e irónico, substituindo, num registo jornalístico, o slogan clássico “Guns don’t kill people, people do” por um novo slogan, absurdo: “Guns dont’kill people. Toddlers kill people”.

Anunciante: The Brady Campaign to Prevent Gun Violence. Título: Toddlers Kill. Agência: McCann Erickson (New York). Estados Unidos, Outubro 2016.

O berço e a arca: crianças e animais

honda-lost-and-found

A inclusão de crianças e de animais nos anúncios é uma tentação da publicidade. Cativam e sensibilizam o público. As crianças e os animais são amorosos, desprotegidos, surpreendentes e expressivos. E gostam de nós! A escolha do primeiro anúncio não podia ser mais apropriada: bebés experimentam alimentos. O olhar atarda-se nas bocas e nas reacções faciais. A ternura de uma expressão canina vale mil imagens. Duplamente afeiçoado, o cão revela quão perturbador pode ser um coração dividido.

Marca: Superbrugsen. Título: How to get good eating habits. Agência: Konstellation & Republica, Copenhagen. Dinamarca, Setembro 2016.

Marca: Honda. Título: Lost and Found. Agência: RPA. USA, Setembro 2016.

Sementes de violência

Violence domestique

“Os homens são tão estúpidos que uma violência repetida acaba por lhes parecer um direito” (Claude-Adrien Helvétius, Proverbes, maximes et pensées (1765).

A violência é uma dimensão tortuosa e complicada do ser humano. Importa precaver contra a violência desde a infância. É decisivo. Mas como? Por um lado, não pode ser como os contrafogos que apagam o fogo com fogo. Por outro lado, as crianças aprendem com os adultos, mas o mundo dos adultos é um espectáculo de violência, com ou sem eufemismos.

Anunciante: Australian Government. Título: Stop it at the start. Agência: BMF Australia. Direcção: Derin Seale. Austrália, Abril 2016.

A ameaça intestinal

Luís Alves da Costa. O Sétimo Selo. Malinconia.  Trombetas

Luís Alves da Costa. O Sétimo Selo. Malinconia. Trombetas. httpapocalipsedepatmos.blogspot.pt201206o-setimo-selo-malinconia.html

Sabe que vai morrer? A publicidade votada ao bem público aplica-se a lembrar-lho. Morre-se de acidente cardiovascular ou rodoviário, de insuficiência renal ou hepática, de doença pulmonar crónica, de cancro na próstata, na mama, na pele, nos ovários, no pâncreas… e nos intestinos. O cancro do cólon sobressai entre os mais mortíferos. O nosso corpo é tão perfeito que podemos morrer por qualquer órgão. Pela Páscoa, sentimo-nos pecadores. Com a publicidade de consciencialização, sabemos que somos mortais. Só o medo é que não morre.

Le quatrième Ange sonne de la trompette (Apocalypse VIII), enluminure du Beatus de l'Escorial, vers 950-955.

O quarto anjo toca a trombetqa (Apocalipse 8), iluminura do Beatus de l’Escorial, ca. 950-955.

Neste anúncio da Felix Burda Foundation, um coro de crianças revela-se, de um modo tétrico, profeta da desgraça. Deve ser uma variante de angelismo apocalíptico. Soa estranho a palavra morte na boca de uma criança. Também soa estranha a devastação do mundo pelos sete anjos trombeteiros (Apocalipse 8). E se, em vez de sete anjos, tivermos um coro infantil com dezoito crianças num cenário de cemitério, com abutres a rondar o relógio e ninguém na plateia? Convenha-se que não é fácil conceber um anúncio em torno dos intestinos. Os intestinos localizam-se na zona dos infernos corporais, no epicentro do grotesco carnal.

 

Michelangelo. Detalhe do Último Julgamento, na Capela Sistina.

Michelangelo. Detalhe do Último Julgamento.

Com tanto medo da morte, ainda virá um dia em que desejaremos morrer sem o conseguir: “E naqueles dias os homens buscarão a morte, e não a acharão; e desejarão morrer, e a morte fugirá deles” (Apocalipse 9). Morra a morte, morra! Pim!

A Esmeralda Cristina enviou-me, da Alemanha ou do Brasil, este anúncio. Apesar de residir na Alemanha, é a orientanda com quem mais comunico. Fazemos imensos planos. Falho quase todos. Com paciência de Job, não leva a mal! Está a fazer uma tese, precisamente, sobre a publicidade de sensibilização. Seguem alguns excertos do seu comentário ao anúncio:

“Sensibilizar para a morte… Um anúncio alemão que tem como intenção chamar a atenção para o controlo regular dos intestinos como forma de precaver a morte. O texto cantado por crianças, o que demonstra um pouco de inocência, mas com palavras duras de crítica incipiente que afirmam que os adultos têm tempo para tudo, menos para controlar o corpo. O tempo passa…tic tac…tic tac… Tudo é feito menos o controlo do intestino, o que conduz a que de um dia para outro… tic tac ‘tu estás morto’! Com esta afirmação termina a canção e o spot publicitário. Mas será que as pessoas ficam a pensar em controlar o seu intestino ou será que pensam que podem morrer com algo no intestino? O medo também faz com que as pessoas fujam aos controles. Mas no subconsciente permanece o medo de morrer, o que pode levar o corpo à produção do que não quer… Assim o que produz este anúncio? medo? precaução? morte? ou felicidade? segurança? vida?” (Esmeralda Cristina).

Anunciante: Felix Burda Foundation. Título: The Children’s Song. Agência: Heimat, Berlin. Alemanha, Março 2016.