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Pavor eterno

Vincent Van Gogh. No limiar da eternidade. 1890 ( ano de sua morte).

Vincent Van Gogh. No limiar da eternidade. 1890.

Ao escrever o artigo Não me esqueças, ocorreram-me dois anúncios portugueses que abordam, também, a doença de Alzheimer: First Date, da Alzheimer Portugal e Alzheimer, do Instituto de Apoio à Criança. Este último segue uma fórmula conhecida: embarca-se num rio, a doença de Alzheimer, e desagua-se noutro estuário, os maus tratos a crianças. Comparado com o anúncio Forget Me Not, da Thai Life Insurance, o anúncio do Instituto de Apoio à Criança apresenta-se mais cerebral: reforça a razão em detrimento do coração, perdendo alguma imersão e emoção. Mas o conceito é brilhante: a dor e o medo, decorrentes dos maus tratos sofridos na infância, são eternos. Nem uma doença como a de Alzheimer consegue apagá-los da memória!

Edvard Munch. Ansiedade. 1894.

Edvard Munch. Ansiedade. 1894.

O anúncio do Instituto de Apoio à Criança corre um risco. Cruza imagens de dois sofrimentos: a doença de Alzheimer e os maus tratos às crianças. Não é, porém, líquido que duas imagens, ou duas emoções, se somem. Podem potenciar-se, adicionar-se, reduzir-se ou anular-se. Em criança, um livro dedicado às técnicas de judo ensinava que, durante a queda, importava bater com o braço no chão, gerando, assim, duas fontes de dor que se atrofiam mutuamente, numa espécie de engarrafamento neuronal. Por último, quando se juntam duas imagens, arrisca-se um eclipse: uma imagem pode sobrepor-se à outra.

Anunciante: Instituto de Apoio à Criança. Título: Alzheimer. Agência: Leo Burnett Lisboa. Direcção: Carlos Manga Jr. Portugal, 2006.

A morte entre as mãos de uma criança

brady-campaignA publicidade tem picos temáticos, tais como os jogos olímpicos ou o campeonato do mundo de futebol. Acrescente-se o Halloween. Semanas antes, em Outubro, disparam os anúncios alusivos a mortos ou, eventualmente, à morte. O estilo vai do humor, amiúde negro, à sátira, passando pela paródia e pela ironia.

O anúncio Toddlers Kill, da Brady Campaign to Prevent Gun Violence, não é um rebento do Halloween, mas é sinistro, satírico e irónico, substituindo, num registo jornalístico, o slogan clássico “Guns don’t kill people, people do” por um novo slogan, absurdo: “Guns dont’kill people. Toddlers kill people”.

Anunciante: The Brady Campaign to Prevent Gun Violence. Título: Toddlers Kill. Agência: McCann Erickson (New York). Estados Unidos, Outubro 2016.

O berço e a arca: crianças e animais

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A inclusão de crianças e de animais nos anúncios é uma tentação da publicidade. Cativam e sensibilizam o público. As crianças e os animais são amorosos, desprotegidos, surpreendentes e expressivos. E gostam de nós! A escolha do primeiro anúncio não podia ser mais apropriada: bebés experimentam alimentos. O olhar atarda-se nas bocas e nas reacções faciais. A ternura de uma expressão canina vale mil imagens. Duplamente afeiçoado, o cão revela quão perturbador pode ser um coração dividido.

Marca: Superbrugsen. Título: How to get good eating habits. Agência: Konstellation & Republica, Copenhagen. Dinamarca, Setembro 2016.

Marca: Honda. Título: Lost and Found. Agência: RPA. USA, Setembro 2016.

Sementes de violência

Violence domestique

“Os homens são tão estúpidos que uma violência repetida acaba por lhes parecer um direito” (Claude-Adrien Helvétius, Proverbes, maximes et pensées (1765).

A violência é uma dimensão tortuosa e complicada do ser humano. Importa precaver contra a violência desde a infância. É decisivo. Mas como? Por um lado, não pode ser como os contrafogos que apagam o fogo com fogo. Por outro lado, as crianças aprendem com os adultos, mas o mundo dos adultos é um espectáculo de violência, com ou sem eufemismos.

Anunciante: Australian Government. Título: Stop it at the start. Agência: BMF Australia. Direcção: Derin Seale. Austrália, Abril 2016.

A ameaça intestinal

Luís Alves da Costa. O Sétimo Selo. Malinconia.  Trombetas

Luís Alves da Costa. O Sétimo Selo. Malinconia. Trombetas. httpapocalipsedepatmos.blogspot.pt201206o-setimo-selo-malinconia.html

Sabe que vai morrer? A publicidade votada ao bem público aplica-se a lembrar-lho. Morre-se de acidente cardiovascular ou rodoviário, de insuficiência renal ou hepática, de doença pulmonar crónica, de cancro na próstata, na mama, na pele, nos ovários, no pâncreas… e nos intestinos. O cancro do cólon sobressai entre os mais mortíferos. O nosso corpo é tão perfeito que podemos morrer por qualquer órgão. Pela Páscoa, sentimo-nos pecadores. Com a publicidade de consciencialização, sabemos que somos mortais. Só o medo é que não morre.

Le quatrième Ange sonne de la trompette (Apocalypse VIII), enluminure du Beatus de l'Escorial, vers 950-955.

O quarto anjo toca a trombetqa (Apocalipse 8), iluminura do Beatus de l’Escorial, ca. 950-955.

Neste anúncio da Felix Burda Foundation, um coro de crianças revela-se, de um modo tétrico, profeta da desgraça. Deve ser uma variante de angelismo apocalíptico. Soa estranho a palavra morte na boca de uma criança. Também soa estranha a devastação do mundo pelos sete anjos trombeteiros (Apocalipse 8). E se, em vez de sete anjos, tivermos um coro infantil com dezoito crianças num cenário de cemitério, com abutres a rondar o relógio e ninguém na plateia? Convenha-se que não é fácil conceber um anúncio em torno dos intestinos. Os intestinos localizam-se na zona dos infernos corporais, no epicentro do grotesco carnal.

 

Michelangelo. Detalhe do Último Julgamento, na Capela Sistina.

Michelangelo. Detalhe do Último Julgamento.

Com tanto medo da morte, ainda virá um dia em que desejaremos morrer sem o conseguir: “E naqueles dias os homens buscarão a morte, e não a acharão; e desejarão morrer, e a morte fugirá deles” (Apocalipse 9). Morra a morte, morra! Pim!

A Esmeralda Cristina enviou-me, da Alemanha ou do Brasil, este anúncio. Apesar de residir na Alemanha, é a orientanda com quem mais comunico. Fazemos imensos planos. Falho quase todos. Com paciência de Job, não leva a mal! Está a fazer uma tese, precisamente, sobre a publicidade de sensibilização. Seguem alguns excertos do seu comentário ao anúncio:

“Sensibilizar para a morte… Um anúncio alemão que tem como intenção chamar a atenção para o controlo regular dos intestinos como forma de precaver a morte. O texto cantado por crianças, o que demonstra um pouco de inocência, mas com palavras duras de crítica incipiente que afirmam que os adultos têm tempo para tudo, menos para controlar o corpo. O tempo passa…tic tac…tic tac… Tudo é feito menos o controlo do intestino, o que conduz a que de um dia para outro… tic tac ‘tu estás morto’! Com esta afirmação termina a canção e o spot publicitário. Mas será que as pessoas ficam a pensar em controlar o seu intestino ou será que pensam que podem morrer com algo no intestino? O medo também faz com que as pessoas fujam aos controles. Mas no subconsciente permanece o medo de morrer, o que pode levar o corpo à produção do que não quer… Assim o que produz este anúncio? medo? precaução? morte? ou felicidade? segurança? vida?” (Esmeralda Cristina).

Anunciante: Felix Burda Foundation. Título: The Children’s Song. Agência: Heimat, Berlin. Alemanha, Março 2016.

Via indireta

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Há uma solução de amostragem ilustrada pelo seguinte provérbio: se não consegues chegar directamente às pulgas, procura os cães”. No anúncio Avós, do Continente, o princípio não é o mesmo mas não se afasta: se as mercadorias se destinam a crianças, o melhor é dar o protagonismo aos avós. O provérbio do segundo anúncio, Faster than Ronaldo, da Hot Internet, é mais óbvio: seja qual for a mercadoria, Cristiano Ronaldo é solução.

Marca: Continente. Título: Grandparents. Agência: Fuel Lisbon. Direcção: Alexandre Montenegro. Portugal, Janeiro 2015.

Marca: Hot. Título: Faster than Ronaldo. Israel, Fevereiro 2016.

 

Crianças ciganas

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Sem rodeios, nem artifícios, este anúncio centra-se nas crianças ciganas, na sua imagem e na sua voz, nas suas dificuldades e nos seus sonhos. Bem informado, sabe o que nos importa saber. Inteligente e empático, convida a ver e a ouvir com a razão e o coração. É um anúncio de sensibilização dirigido à consciência que temos, ou talvez não. Un anuncio muy sencillo. Gracias!

Anunciante: Fund. Secretariado Gitano. Título: La Leonor real y otros niños reales. Agência: DDB España. Direcção: Rebeca Díaz. Espanha, Outubro 2015.

É proibido proibir

Gerald Beauchemin. O Capuchinho Vermelho.

Gerald Beauchemin. O Capuchinho Vermelho.

“Segundo decisão do Tribunal da Relação de Évora, os portugueses não podem publicar fotos dos filhos nas redes sociais. O tribunal recorda que as redes sociais podem ser usadas por predadores sexuais” (http://exameinformatica.sapo.pt/noticias/mercados/2015-07-21-E-proibido-publicar-fotos-de-criancas-em-redes-sociais-diz-Tribunal-de-Evora).

O lápis azul nunca nos abandonou. Apenas regressa a uma fase ostensiva.

A propósito da violação de mulheres, Kathleen Basile alerta para o risco de colocar “o ônus da prevenção nas possíveis vítimas, possivelmente obscurecendo a responsabilidade de seus autores e outros” (http://noticias.uol.com.br/ciencia/ultimas-noticias/afp/2015/06/10/estudo-aponta-sucesso-em-treinar-mulheres-para-prevenir-estupros.htm). Desvia-se o olhar e o juízo do agressor para a vítima. Uma sessão de tribunal pode concentrar-se em indícios tais como a maquilhagem, altura da saia, o recorte do decote ou a decisão de sair, logo de passar pela garagem do prédio, à meia-noite. A sombra de Eva.

Se tiverem um Capuchinho Vermelho não lhe peçam para levar a cesta à avó. Devia ser proibido. A boa acção pode ter péssimo resultado! Como lembra Perrault, os lobos andam à solta!

“MORALIDADE:

Vê-se aqui que crianças jovens, sobretudo moças belas, bem feitas e gentis, fazem muito mal em escutar todo o tipo de gente; e que não é coisa estranha que o lobo tantas delas coma. Digo o lobo, porque nem todos os lobos são do mesmo tipo. Há-os de um humor gracioso, subtis, sem fel e sem cólera, que — familiares, complacentes e doces — seguem as jovens até às suas casas, até mesmo aos seus quartos; mas ai! Quem não sabe que estes lobos delicodoces são de todos os lobos os mais perigosos” (Charles Perrault).

Como cativar um avião

Dream_TurkishAirline“O quinto elemento” da família é um globetrotter. Mal recomposto da China, regressa da Rússia. Entre aviões, lembra-me anúncios, como este prodigioso Dreams, da Turkish Airlines. Imaginação, vontade, magia, e o sonho navega com “asas de desejo”. No alfabeto da alma, às crianças cabem-lhes letras especiais. Com elas, se escreve o bom, o bem e o belo. Mas também o abismo da humanidade. “Existe uma criança [escondida] em cada um de nós”. Mas nem sempre a merecemos.

Marca: Turkish Airlines. Título: Dreams. Agência: Lowe Istanbul. Direção: Bahadir Karatas. Turquia, Fevereiro 2014.

Dar a mão a uma criança

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See the Child. Change the System é uma campanha promovida pela Kids Co para uma petição contra os maus tratos a crianças, as vítimas mais indefesas da sociedade. No anúncio, sobressai, antes de mais, a voz. Vem do além. Não estamos habituados a ouvir vozes do além, esta, no entanto, não pára de se ouvir. Lembra um outro anúncio sobre maus tratos psicológicos a crianças. A voz é parecida (https://tendimag.com/2012/09/17/ninguenizacao/). Caso for a mesma voz, nada de surpreendente. Nos modelos da publicidade, acontece as vozes e as mãos serem mais raras, logo mais repetidas, do que as caras e os corpos.

Anunciante: Kids Co. Título: See the Child. Change the system. Agência: AMV BBDO London. UK, Julho 2012.

Acrescento uma canção que me lembra um amigo, o Miguel Bandeira: Yves Duteil, Prendre un enfant (Joan Baez fez um cover desta música). Enfim, também se faz campanha pela positiva…

Yves Duteil. Prendre un Enfant. Tarentelle. 1977.