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A ternura dos sessenta


Creedence Clearwater Revival.

Percorro a aldeia com passos de velho e cabeça de criança. Aqui, lançava para-quedas que subiam. Perto, agarrava-me a uma motorizada para ganhar balanço com os patins. Ali, matava laranjas com um arco improvisado a partir de um guarda-chuva. Além, treinava os tombos para as habilidades de bicicleta… Ternura dos sessenta. Ouvia-se música em qualquer sítio, incluindo uma casa em construção sem portas nem janelas. A ementa musical era reduzida: Beatles, Rolling Stones, The Doors, Moody Blues, Deep Purple e um grupo com nome estranho e sucesso fantástico: os Creedence Clearwater Revival. O passado não descansa, amadurece. Seguem três cristalizações.

Creedence Clearwater Revival. Proud Mary. Bayou Country. 1969.
Creedence Clearwater Revival. Who’ll stop the rain. Cosmo’s factory. 1970. Clip de 1969.
Creedence Clearwater Revival. Have you ever seen the rain. Pendulum. 1970.

Made in Italy

duomo (7)

Milão

A Alzheimer Portugal (Associação Portuguesa de Familiares e Amigos dos Doentes de Alzheimer) lançou, recentemente, o anúncio Primeiro Encontro, encomendado à BBDO Milan e falado em inglês. Um anúncio italiano, para uma ONG portuguesa, em inglês, lembra um arco-íris multicultural. Convém considerar que os anúncios de sensibilização inscrevem-se, muitas vezes, de um modo próprio no mercado da publicidade. Milão? Tem uma boa imagem ao nível do calçado, da moda, do design e do futebol. A Piazza del Duomo abriga, para além da catedral, uma das “esferas públicas” nocturnas mais concorridas do planeta. Um produto italiano, em inglês, para uma organização portuguesa, a que público se destina? Estima-se que esta campanha para angariar donativos tem uma abrangência internacional.

Não desgosto do anúncio. Atendendo à sensibilidade do tema, apesar de comovente, não se desdobra em sentimentos e emoções. Apela à reflexão e à consciência. O olhar solicitado é proustiano. Prefere os pormenores aos detalhes. O todo refaz-se, não se desfaz. O todo é urdido por pontas soltas e retalhos. Desculpem este linguajar maneirista, “ao jeito italiano” (e.g. Omar Calabrese, A Idade Neobarroca, 1ª ed. 1978). Por outras palavras, o todo e as partes estão interligados: “je tiens impossible de connaître les parties sans connaître le tout non plus que de connaître le tout sans connaître particulièrement les parties” (Pascal, Blaise, Pensées, obra póstuma, 1670). O que Pascal entendeu por bem não dizer é que o todo e as partes se podem percorrer de várias maneiras: do todo para a parte, da parte para o todo, do todo para o todo, da parte para a parte e, também, por travessia. Quer-me parecer que, no anúncio, os pés descalços não são preditos pelo todo, convidam, antes, a imaginá-lo e a descobri-lo.

Anunciante: Alzheimer Portugal. Título: First Date. Agência: BBDO Milan. Direcção: Alessio Fava. Itália, Abril 2016.

A música do anúncio é um cover da canção Have You Ever Seen The Rain (1970), dos Creedence Clearwater Revival. Segue uma interpretação ao vivo.

Luz

Pensar! Pensar em quê? No presente pixélico dos formulários electrónicos? No futuro? Na luz ao fundo do túnel que nem ilumina, nem aquece? No passado? Nas luzes que embalaram “a criação do mundo”? Luzes que cegam, da Manfred Mann’s Earth Band, luzes que incendeiam, dos Doors, luzes que rasgam caminhos, dos Creedence Clearwater Revival. Pelo menos, estas luzes enchiam os olhos, não eram falácias políticas. Não eram luz de vela invertida… Eram faróis de cabo de mar que enchiam os céus de luz como nos quadros de William Turner. Carregar em HD.