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Sociologia sem palavras 15: A encenação do poder

George Balandier

George Balandier

Tive o privilégio de ter conhecido Georges Balandier como professor. Publicou, em 1980, o livro Pouvoir sur Scènes, dedicado às diversas formas de encenação do poder (edição portuguesa: O Poder em Cena, Coimbra, Minerva, 2009).

O filme O Triunfo da Vontade (1935), de Leni Riefenstahl, é composto por episódios de encenação do poder. Encomendado para divulgar o Congresso do Partido Nazi, realizado em 1934, em Nuremberga, o próprio filme é uma encenação do poder. O presente excerto é, a diversos títulos, exemplar e arrasador: pela assunção do protagonista político como ator; pela moldagem da multidão, como corpo coletivo, interlocutor, cenário e público; pela invisibilidade dos bastidores. Em suma, a arte do espectáculo político no seu cúmulo.

Sociologia sem palavras 15. A encenação do poder. Leni Riefenstahl, O Triunfo da Vontade, 1935. Excerto.

A encenação do poder não é exclusiva dos regimes totalitários. Está omnipresente nas sociedades democráticas. De um modo concentrado e de um modo difuso (Debor, Guy, La Société du Spectacle, Paris, Buchet/Chastel, 1967). Recordo um episódio pautado por uma enorme carga emocional e simbólica. Em Maio de 1981, François Mitterrand vence as eleições presidenciais francesas. O momento mais mediático da cerimónia de investidura teve como palco o Panthéon. A meio da rua Soufflot, Mitterrand desprende-se da multidão e dirige-se para o Panthéon, só, apenas acompanhado pela nona sinfonia de Beethoven, interpretada ao vivo pela Orquestra de Paris. No interior do Panthéon, sempre rigorosamente só (acompanhado pelas câmaras de televisão em directo), coloca uma rosa sobre os túmulos de Jean Moulin, herói da resistência, e de Jean Jaurès, figura histórica do socialismo. De regresso à rua, sempre só, é aclamado pela multidão. Pode-se aceder a uma reportagem televisiva do próprio dia [o episódio do Panthéon inicia no minuto 3:10] no seguinte endereço: http://www.ina.fr/video/DVC8108256301. Sobre o modo como foi concebido e conduzido este evento resulta deveras esclarecedor o make-of, publicado dez anos depois.

Marc Van Dessel. Les roses du Panthéon. 1991

Hitler e Mitterrand pouco têm em comum. Mitterrand lutou, aliás, na resistência contra a ocupação nazi. Não obstante, salvaguardados os enquadramentos, as proporções e as motivações, estes dois episódios partilham alguns atributos. Ambos os leaders se destacam da multidão. Fazem um longo percurso solitário a pé (Hitler acompanhado, sempre à frente, por Himmler e Lutze). Prestam homenagem aos mortos gloriosos. Regressam à multidão que lhes expressa lealdade. Ambos os rituais simulam uma prova e promovem uma figura: o leader (quase) solitário herdeiro de uma nação.

Sociologia sem palavras 9: Desporto e propaganda

Sou humano, nada do que é humano me é estranho.
(Terêncio, Heautontimorumenos, 163 d. C.)

Berlin 1936 OG, Shooting of "Olympia", documentary film by Leni RIEFENSTAHL - A cameraman on the diving board, filming a female diver.O nono episódio de Sociologia sem palavras não é cómico. Parte do mundo também não o é. Mas pode sempre ser filmada com humor. Não é o caso. Neste episódio, o assunto é sério e o filme também.  Leni Riefenstahl (1902-2003) realizou vários filmes encomendados pelo governo nazi, entre os quais O Triunfo da Vontade (1935), filme-documentário-espectáculo sobre o congresso do partido nazi de 1934 em Nuremberga, e Olympia (1938), sobre os Jogos Olímpicos de 1936, em Berlim. Ambos os filmes são propaganda nazi, o que não obsta a que Leni Riefenstahl seja, hoje, considerada uma das grandes realizadoras da história do cinema, com uma obra inovadora, pautada por uma criatividade estética excecional. Os excertos apresentados pertencem ao filme Olympia: o primeiro à segunda parte (Festival da Beleza) e o segundo à primeira parte (Festival das Nações). Na série Sociologia sem palavras, este episódio inscreve-se a contracorrente. Não dá vontade de rir. “Nada do que é humano me é estranho”!

Sociologia sem palavras 9: Desporto e Propaganda. Excertos de Leni Riefenstahl, Olympia, 1938.