Enigma diluviano
Neste anúncio tão criativo quanto delirante da Sky TV, por que são elas quem chora e eles os inundados?
Raiva

E la carne va. A evasão da carne. Por Fernando Gonçalves. 18/08/2021. 
2 A Deus nunca se pede que chegue. Por Fernando Gonçalves. 18/08/2021.
“Todos os meus tormentos cingem-se a uma passagem – Do medo à esperança, da esperança à raiva” (Jean Racine, Bérénice, 1670).
Tive a sorte de ter excelentes companheiros nos quartos do Hospital. O último lamentava-se e chorava com frequência. Ao aparar a relva, uma pedra vazou-lhe um olho: – Meu Deus, MeuDeus, o que me foi acontecer. Que vai ser dos meus dois filhinhos? Valha-me Deus! Interrompi-o, com aquele jeito blasfemo: – Deus anda a fumar haxixe! (charutos, diria Serge Gainsbourg). Saiu assim: nu, bruto e abrupto. E as lágrimas cederam ao riso.
Cintila uma raiva daninha no meu olhar embaciado. Brota das entranhas. Manifesta-se de duvidosa utilidade.
Chorar um tsunami

Gosto do anúncio Feel The Power Of Pro, da Playstaion. Diferente, com um desfecho inesperado, mas bem preparado, uma intertextualidade fina, belos efeitos especiais e excelente música. What else?
O choro diluviano do homem comovido lembra a canção Cry me a river, na interpretação original de Julie London (1955).
Abismo

Les « fenêtres à vendre », detalhe. Ethiques, politiques et économiques d’Aristote. Séc. XV. Iluminura. Biblioteca Municipal de Rouen, ms 12, fol. 127 v°.
Tudo que tenha efeito de sentido pode interessar à publicidade. Mesmo o tabu mais disfórico. A publicidade é omnívora. E cada vez mais autónoma. Faz caminho pelo seu próprio pé. Declina, também, confinar-se à trindade do bom, do bem e do belo. Pode, por exemplo, contrapor uma paródia grotesca de um suicídio. Não é bom, nem bem, nem belo, mas tem efeito.
Marca: Immoweb. Título: Ouch. Agência: Witloof Productions. Creativo: Fred De Loof. Bélgica, Dezembro 2014.
