Horta desbragada

A agência de publicidade Lola Mullen Lowe, sediada em Madrid, acaba de conquistar um Leão de Ouro em Cannes pela campanha de outdoors Scratch & Sniff, para a AXE/Lynx.
O transeunte é convidado a raspar e, em seguida, cheirar um sítio bem circunscrito, junto aos genitais, do corpo de um homem em cuecas. O alto, o nariz, é convidado a descer e a explorar a fonte de fertilidade. Ousado?
A história manifesta-se, por vezes, cíclica. Após mais de uma década de contenção e conveniência, a publicidade deixa-se novamente tentar pelo baixo corporal e pelo desbragamento [“deixar cair as calças”]. Andarão a intolerância e a censura assoberbadas, sobreocupadas, com outros domínios e outros públicos?
Esqueça as tradicionais tiras de teste e as típicas cabinas de amostragem. A mais recente campanha da Lynx adota uma modalidade muito diferente: convida os homens a fazer o que sempre fizeram – raspar e cheirar. / Para lançar seu novo Lower Body Spray, uma fragrância fina e ousada desenvolvida especificamente para a região íntima, a AXE/Lynx e a LOLA Mullen Lowe transformam o gesto masculino mais primitivo numa experiência interativa. O resultado: outdoors raspados e cheirosos – atrevidos, irreverentes e inconfundivelmente Lynx. / À primeira vista, parecem anúncios clássicos de roupas íntimas: a preto e branco, abdómenes esculturais, cuecas justas. Mas existe algo inesperado: tinta perfumada impressa diretamente nas cuecas. Graças à tecnologia de microencapsulação, uma vez esfregada, a impressão liberta uma fragrância real, transformando o outdoor numa demonstração instantânea do produto… através do movimento manual masculino mais instintivo. (MULLENLOWE GLOBAL)
Repassagem
Si vis vitam, para mortems. Si tu veux pouvoir supporter la vie, soit prêt à accepter la mort [Se queres poder suportar a vida, está pronto a aceitar a morte] (Sigmund Freud, Essays de Psychanalyse, Payot, 1927, p. 264)

Sem despedidas protocolares, mergulha-se, subitamente, mais resignado que resistente numa plataforma mais despojada que desolada. Deambula-se, letargicamente, numa estranheza que não se estranha. Talvez um providencial sopro ínfimo conduza a um portal de escape. Uma experiência insólita, que nem os muitos fantasmas da psicanálise conseguem elucidar. Um resgate despoletado por um caprichoso motivo insuspeito. Por exemplo, o cheiro apelativo a frango frito desossado.
Imagem: Francisco Goya. O Cão. 1819-23. Museu do Prado
*****
Profundo e insuperavelmente leve!
“Já alguém sentiu a loucura de vestir de repente o nosso corpo?
Já.
E tomar a forma dos objectos?
Sim.
E acender relâmpagos no pensamento?
Também.
E às vezes parecer ser o fim?
….
E dar-nos a cheirar uma cor
que nos faz seguir viagem
sem paragem nem resignação
…
“
Almada Negreiros (excerto de “Reconhecimento à loucura”)
Dizem que o cheiro é a nossa primeira memória, assim o cheiro a casa queima barreiras. Regressa-se. Não importa se um perfume ou frango frito. É a maravilhosa ironia do estar vivo.(Almerinda Van Der Giezen, 14/06/2025)
Uma flor na estrumeira

A marca Old Spice aposta na publicidade desconcertante. Em Ode to Smell, o perfume é promovido através de um anúncio que tresanda. Num ambiente que convoca a série The Wheel Of Time, o produto reduz-se a uma pequena embalagem levitante, agoiro de bruxa, num mundo escabroso dominado por seres humanos “porcos, feios e maus”. A modos como uma flor numa estrumeira. Esta per-versidade, esta revelação através do mergulho no avesso, tem vindo a abrir caminho na publicidade. Dormem alguns destes anúncios no Tendências do Imaginário. Lembram o princípio da vacina: inocular um corpo mórbido para provocar uma contrarreação desejada. A propósito, acabei de me vacinar. Bem que andava precisado. Agora, aproveito para continuar a leitura de O Império Final (2006), de Brandon Sanderson.
Cheiro a Primavera

A marca alemã Hornbach habituou-nos a anúncios tão originais quanto delirantes. How Spring Smells não foge à regra. Homens robustos entregam-se a uma jardinagem musculada. As suas roupas transpiradas, embaladas em vácuo, são disponibilizadas em máquinas de distribuição para gáudio dos consumidores estimulados pelo cheiro masculino primaveril. Este anúncio, polissémico, permite, naturalmente, outras leituras.
A arte de defecar
São raros os anúncios que surpreendem. Quando duram mais de quatro minutos, arriscam-se a incomodar. Como fazer as necessidades durante uma festa? Como eliminar o cheiro? Utilizar um spray aerosol, proteger-se atrás dos arbustos ou utilizar Poo-Pourri? Não dispensando os pormenores escatológicos, o anúncio avalia as três soluções. Vence o recurso ao Poo-Pourri. Tenho sugerido que há produtos difíceis de publicitar. Incluo os desodorizantes de sanitas nesse rol. A criatividade umas vezes sai bem, outras nem por isso.
Marca: Poo-Pourri. Título: How to poop at a party. Produção: Number Two Production. Direcção: Nicole Story. USA, Outubro 2016.
Caretas. O feio sedutor
Tive vários blogues antes do Tendências do Imaginário. Alguns artigos merecem uma segunda oportunidade.
A “estética do feio” (Rosenkranz, Karl, 1853, Aesthetik des Hässlichen, Koenigsberg, Gebrüder Bornträger) sempre tentou o Homem. O feio conquistou o seu lugar dentro e fora das igrejas e dos palácios (Eco, Umberto, 2007, História do Feio, Lisboa, Difel). O disforme, o aberrante e o grosseiro oferecem-se cada vez mais como um recurso da publicidade atual, como esteios de sedução que ajudam a vender bens e a congregar vontades. O anúncio do óleo Fula constitui um bom exemplo.
Anunciante: Fula. Título: Grimaces. Agência: Mccann-Erickson, Lisboa. Director: Marco Espírito Santo. Portugal, Agosto 2010.
Cartão de crédito perfumado
Já ouviu falar em cheiro a dinheiro? Pois o cartão de crédito do Banco Santander Rio cheira a poupança. O anúncio banha nesta fragância. Abençoado nariz! É perfume a mulheres, a homens, a mercadorias, a alimentos, a viagens, a objetos eventualmente fálicos e… a sapatos, muitos sapatos vermelhos. Em suma, um anúncio com a marca inconfundível de Javier Mentasti.
Marca: Santander Rio. Título: Olorcito a ahorro. Agência: Ogilvy Argentina. Direção: Javier Mentasti & Maximiliano Maddalena. Argentina, Maio 2012

