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Fisionomia e inteligência

S. Wells, New Physiognomy, or Signs of Character..., NY, 1871

S. Wells, New Physiognomy, or Signs of Character…, NY, 1871

O carácter e a inteligência dependem da fisionomia e da pose? Assim o entende Franz Joseph Galo, fundador da frenologia (Gall, Franz Joseph & Spurzheim, Johann, 1809 (Untersuchungen ueber die Anatomie des Nervensystems ueberhaupt, und des Gehirns insbesondere, Paris e Strasburg, ed. Treuttel e Würtz, 1809).

S. Wells, New Physiognomy, or Signs of Character..., NY, 2. 1871

S. Wells, New Physiognomy, or Signs of Character…, NY, 2. 1871

Há, precisamente, dois e sete anos, gracejei com a eventual relação entre, por um lado, a fisionomia e a postura corporal e, por outro, o desempenho intelectual. Revisitei, com agrado, estes dois textos. O humor revigora.

A cerveja e o astronauta

“E pusemos em ti nem eu sei que desejo
De mais alto que nós, e melhor e mais puro” (José Saramago, Fala do Velho do Restelo ao Astronauta, in Os Poemas Possíveis, Ed. Caminho, Lisboa, 1981. 3ª edição).

Depois da Coca-Cola, é a vez da Carlsberg. Uma galeria de pecados. Porque a Carlsberg também faz mal, faz com que a proeminência de uma pessoa desça da cabeça para a barriga. O que é grave. Eu professor que o diga. Há poucos anos, entrava na sala de aulas e os alunos lá apostavam: “este até é capaz de ter cabeça!”. Agora, o olhar nem sequer sobe até às palavras; fica hipnotizado no abdómen. O que é grave para a aprendizagem. A Carlsberg e um sem fim de bebidas são pedagogicamente nocivas. A avaliação dos docentes devia contemplar o seguinte índice: razão entre o perímetro da cabeça e o perímetro da barriga. Quanto maior, melhor. Entretanto, enquanto a coisa não encolhe, nada como promover acções de formação creditadas sobre o uso de corpetes e espartilhos. A venda de cerveja já foi proibida na academia. Santa sabedoria! Se quiseres ter mais cabeça do que barriga, faz como o astronauta: bebe com capacete.

Marca: Carlsberg. Título: Spaceman. Agência: Fold7 Creative. Estados Unidos, Abril 2011.

Cabecinha pensadora

“Procuramos sempre o peso das responsabilidades, quando o que na verdade almejamos é a leveza da liberdade” (Milan Kundera, A Insustentável Leveza do Ser, 1984).

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Figura 01. Chiu I.

Os pensamentos têm peso. Existem pensamentos elevados e leves, mas no nosso imaginário gravitam, sobretudo, pensamentos sólidos e profundos. Quando alguém pensa arrisca-se a ficar com a cabeça pesada. E para sustentar a cabeça não basta o pescoço, é necessária a ajuda das mãos, bem apoiadas. Com o olhar fixo, entre o umbigo e o infinito, esta é a imagem predominante do pensador. Desde há milénios! Ilustra-o a seguinte amostra de esculturas e pinturas.

Um conselho: não pense enquanto salta, chocalha as ideias; nem enquanto nada, o pensamento mete água; não pense na cama, as ideias tornam-se soporíferas; nem na montanha russa, as ideias ficam para trás…

Figura 02. São José, ca 1475-1500. Toscana. Itália.

Figura 02. São José, ca 1475-1500. Toscana. Itália.

Afortunadamente, um consórcio internacional envolvendo 89 centros de investigação, entre os quais um português com sede em Boston, está a trabalhar num dispositivo capaz de maximizar a posição da cabeça enquanto saltamos, nadamos, dormimos e nos divertimos.

Brincadeira à parte, devo este artigo ao Fernando Sousa Ribeiro que me chamou a atenção para os pensadores de Angola, estatuetas que são um ícone nacional.

Galeria de imagens

 

 

Manuel Freire, Fala do Velho do Restelo ao Astronauta (1993). Poema de José Saramago.

 

 

Sem igual

Koff

Como promover um produto num ambiente grotesco? Num anúncio, durante uma reunião exaltada, um copo de cerveja faz a diferença. Noutro anúncio, da mesma marca, uma mulher provoca um pandemónio doméstico enquanto bebe, compenetrada, uma cerveja. Pode o mundo entulhar de duplos, os bebedores de cerveja desta marca são únicos! E nós como eles. Parece magia! Produtos fabricados em massa têm o condão de nos fazer sentir excepcionais. À semelhança da moda: ser parecido para ser diferente. As campanhas anti tabaco são outra louça: despejam pacotes de mensagens sobre uma massa de fumadores. Ninguém é único, ninguém se identifica, ninguém se redime. Nem sequer há pessoas. Só viciados e vítimas.

Marca: Koff Crisp. Título: Meeting. Agência: Hasan & Partners. Direcção: Klaus Spendser. Finlândia, Março 2018.

Marca: Koff Crisp. Título: Good Morning. Agência: Hasan & Partners. Direcção: Klaus Spendser. Finlância, Março 2018.

O novo Sísifo

Carlsberg Everest

Um humor amoral, sem prólogo, epílogo, catarse, ou expiação, alicerçado numa minudência cósmica, é, no meu preconceito, humor das gentes do norte. Um humor destilado, como o whisky ou a cerveja. É um humor fino e espirituoso, sem anjos nem bestas, nos antípodas do riso farto e rasteiro. Temos humor e cerveja, falta a música. Há tantas músicas nórdicas! Opto por dois excertos da Suite Peer Gynt (1875), do compositor norueguês Edvard Grieg: Amanhecer (parte I) e Na Gruta do Rei da Montanha (parte IV).

Tenho o vício de colar adjacências ao tema principal, neste caso ao anúncio. Às vezes, acabam por ser as mais relevantes. É o caso presente.

Marca: Carlsberg. Título: Everest. Agência: Fold7 Creative. Estados Unidos, 2011.

Edvard Grieg. Amanhecer. Peer Gynt. Orkiestra Filharmonii Narodowej.

Edvard Grieg. Na Gruta do Rei da Montanha. Peer Gynt. Berliner Philharmoniker. 2010.

Prazer tranquilo

 

MadnessOs últimos artigos do Tendências do Imaginário saíram amargos. Achei por bem resgatar um anúncio da Kronenbourg que é um consolo. Com os Madness.

Marca: Kronenbourg 1664. Título: Baggy trousers. Agência: BBH London. Direcção: Andy McLeod. Reino Unido, Jun. 2011.

Madness. Our House. The Rise & Fall. 1982.

A cerveja, o copo e o macho

Barbarian

Barbarian, la cerveza artesanal inspirada en la rudeza de los bárbaros ancestrales, no podía permitir que un dedo meñique avergüence a algunos hombres. Por eso crearon el Antipinky Pint, un vaso con un anillo fundido en hierro y testosterona para prevenir que ese dedo meñique se levante en contra de todo macho.

Reparou que quem bebe cerveja levanta o dedo mindinho? À publicidade nada escapa! No caso da cerveja, inclina-se para o machismo. Os bebedores de cerveja são homens muito homens, mas o dedo mindinho é um traidor; ergue-se, efemina e envergonha o “bárbaro ancestral”. Para que o macho bebedor de cerveja não veja a sua virilidade amesquinhada, a Barbarian inventou o “antipinky pint”, com um anel de ferro com testosterona destinado a segurar o dedo mindinho. Precisamente, o copo ideal para os machos que querem permanecer machos.

A Barbarian desafia-nos a beber cerveja num copo amigo da virilidade. O machismo servido com humor, bem caricaturado, é menos machista? E se for com classe e qualidade? E se possuir um fundo de misoginia e homofobia? Censura-se em nome dos altos valores e dos bons costumes? Mete-se o anúncio no anel? Liberdade e água benta, cada um bebe a que lhe deitam no copo.

Com humor, ironia, desenvoltura e imaginação, este tipo de anúncio, que associa a cerveja ao homem macho, tem um nicho de eleição: a América Latina. Este é peruano.

Marca: Barbarian. Título: The Antipinky Pint. Agência: Fahrenheit DDB, Lima. Peru, Maio 2017.

Fahrenheit DDB, Lima, Peru

Liberdade excêntrica

Liberté sol

O anúncio mexicano “Vamos a hablar”, da Cerveza Sol”, é um despertador de vontades. Atropelam-se imagens e palavras, ao som de um ritmo heróico. A inversão dos preconceitos e dos chavões desenha um espaço de liberdade. Ser livre é ser diferente? “Um bicho raro”. Mas os outros existem! Não param de contar, avaliar e constranger. Será a excentricidade, e, de algum modo, a solidão, a condição da liberdade? Somos livres sem os outros? Livres de quê? Vem-me à memória, a contracorrente, uma frase de André Malraux (Les chaînes qu’on abat, 1971): “A liberdade consiste em poder escolher as cadeias”. O anúncio “Vamos a hablar” é romântico. Nada de estranho. Observa-se alguma reincidência romântica na pós-modernidade.

Este anúncio lembra-me várias canções dedicadas à liberdade. “Libre” (1972), de Nino Bravo, é uma canção que alcançou um enorme sucesso nos anos setenta. Enferrujou com os anos. Mesmo assim, num único site ultrapassa 5 milhões de visualizações. Nino Bravo faleceu, com 28 anos, vítima de um acidente rodoviário.

Marca: Cerveza Sol. Título: Vamos a hablar. Agência: Talent Comunicação e Planejamento Lda. Direcção: Cisma. México, 2016-2017.

Nino Bravo. Libre. Mi Tierra. 1972.

Uma gota de água

bavariaUma gota de água é um das expressões mais belas das línguas latinas. E é versátil. Como uma gota de água no oceano, um infinitamente nada. A gota de água que faz transbordar o copo, um ocasionalmente tudo. Vem este devaneio a propósito do anúncio The Drop, da Bavaria (2009). Original, turbulento, airoso e jovial, com estética e humor a preceito. Um ramalhete de qualidades raramente próximas. Com uma gota de cerveja…

Marca: Bavaria. Título: The Drop. Agência: Selmore. Direcção: Matthijs Van Heijningen. Holanda, 2009.

A cerveja e o monstro

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“Desejamos a verdade e apenas encontramos incerteza” (Blaise Pascal, Pensées, 401-437). “Todos erram tanto mais perigosamente que cada um segue uma verdade; a sua falta não consiste em seguir uma falsidade, mas em não seguir uma outra verdade” (Blaise Pascal, Pensées, 443-863).

Há quem abuse do verbo lembrar. Lembrar é convocar e, porventura, comparar, sem pagar portagem à verdade. O pensamento respira; não possui a verdade, nem a verdade o possui.

Que lembra o anúncio Face the darkness, da Einstök? Ao meu rapaz acodem-lhe os videojogos. E ilustra com uma cena do Final Fantasy XV (ver vídeo 2). Anúncio e videojogo, ambos lembram um exorcismo. No anúncio, o título, a postura, o monstro, a convulsão cósmica, a garrafa/crucifixo e, por último, a domesticação/humilhação da besta. No videojogo, embora menos evidente, a ameaça e a derrota do monstro mediante uma espada/crucifixo.

Que tem o exorcismo a ver com o nosso tempo? A sua existência não é menosprezável. Pratica-se na substância e exporta-se na forma.

Entretanto, aguarda-se uma nova linha de cerveja: com ou sem baba de monstro.

Marca: Einstök. Título : Face the darkness. Agência : Filakademie Baden-Wurttember. Direcção: Andreas Bruns. Islândia, Setembro 2016.

Final Fantasy XV. Stand together. Novembro 2016.

A cerveja, os ouvidos e o orgasmo cerebral

norrlandsguldljus_earbeer16Segundo o anúncio sueco The ASMAR Ear Beer, da cerveja Norrlands Guld Ljus, a ingestão de cerveja pelos ouvidos pode propiciar orgasmos cerebrais. Assombroso! A culinária é simples: duas colheres de realismo grotesco, uma, de expressionismo; três, de surrealismo; quatro, de absurdo; e duas, de pop art. Agita-se, com inteligência e técnica. O orgasmo cerebral pela orelha está pronto a servir. Diz-se que os povos menos soalheiros têm pouco sentido de humor. Preconceitos! Entre o riso e o espanto, o desbragado e o ruminado, há muito lugar para o humor. Este anúncio, à semelhança da Coca-Cola do Fernando Pessoa, estranha-se, entranha-se e saboreia-se. Com ou sem orgasmo cerebral.

Marca: Norrlands Guld Ljus. Título: The ASMAR Ear Beer. Agência: Hakestam Holst. Direcção artística: Joakim Khoury. Direcção criativa: Magnus Jacobbson. Suécia, Outubro 2016.

A distração da morte

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James Ensor. Pierrot and yellow skeleton. 1925-1930.

Partilhamos a crença de que a morte não desperdiça as ocasiões. Beijo, abraço, riso, dança, espírito, foice, esqueleto, triunfo, a morte não falha. Excepto quando saboreia a cerveja Greene King Ipa. O protagonista sobrevive a uma série de acidentes fatais, graças à cerveja Ipa e à gula da morte. O céu, o purgatório e o inferno podem esperar. Espanta a imagem da morte a beber cerveja num anúncio a cerveja. Desconheço o efeito. Mas a agência McCann Erickson deve saber. A mente humana é arrevesada e presta-se a inversões e associações intempestivas.

Marca: Greene King Ipa. Título: La mort l’attend. Agência: McCann Ericson (London). UK, 2002.