Sonho envenenado

No artigo Ama-te a ti mesmo como nunca te amaste, de 13 de julho de 2017, continuo a escrever com língua bífida, como a das serpentes.
Para o ler, convém usar luvas e óculos de proteção como os dos serralheiros e metalúrgicos; para perceber, aventurar-se nas entrelinhas; para apreciar, dispensar encostos.
Imagem:
Hieronymus Bosch ou discípulo – Cristo carregando a cruz. Detalhe. Entre 1510 e 1535. Museu de Belas Artes de Gante
A carreira no reino da parvoíce

Os actores sociais, quanto menos hipóteses de carreira têm, mais carreiristas ficam. Este paradoxo é um desafio para a sociologia. Colide com o princípio da “causalidade do provável”, da sociologia praxeológica de Pierre Bourdieu. Colide, também, com o modelo da relação entre apostas e expectativas, proposto pelo individualismo metodológico de Raymond Boudon. Para colmatar estas aberrações, Pierre Bourdieu importou da química a noção de histerese: a prossecução de uma reacção comportamental para além das condições que a justificaram. Quanto a mim, hesito entre histerese e histeria.

Mudemos de assunto que este é polémico.
Mordillo faleceu há uma semana, no dia 29 de Junho de 2019. Fonte de inspiração com humor colorido. Se tivesse que decorar o quarto de um neto, optava pelos seus desenhos. Mordillo, tal como Quino, não é um sociólogo, mas um sábio da humanidade. Prefiro a ironia gentil do Mordillo ao elogio programado da tribo.
Memória puxa memória, há muito tempo, cantarolei em coro, nas ruas tranquilas de uma praia do Norte, a canção Le Roi (des Cons), de Georges Brassens (1972). Brassens tem razão: nunca destronaremos o rei dos parvos.
Ama-te a ti mesmo como nunca te amaste
Há noites amalsonhadas, para falar como o Mia Couto. Tive um pesadelo. Num acompanhamento noturno (ver https://tendimag.com/2016/12/26/em-companhia-da-morte/), seguiam eurarcas ,ministros e demais autoridades civis, militares, eclesiásticas e académicas. À frente, a abrir caminho, Bernard de Mandeville, com a Fábula das Abelhas (1705) na mão. Todos cantavam em coro: “vícios privados, benefícios públicos”. Ao zelar pelos seus interesses, cada um concorre para o bem de todos. Se cada professor se concentrar na sua própria carreira, o resto vem por arrasto. Por exemplo, a qualidade da administração e do ensino.
Criou-se um mandamento novo: ama-te a ti mesmo como nunca te amaste. Intentei afastar tão estranha miragem. Impediu-me a mão invisível do Adam Smith, que também ia na procissão. Quem vai no caixão, “nem às paredes confesso”! Mas morreu por estupidez. A única maneira de acordar deste pesadelo é deixar de sonhar. Estremunhado e apreensivo, dirigi-me à pasta dos rankings. Não falta nenhum. Estão todos como termómetros em forma de velas. Há pior que nós!
Acrescento um poema de Jacques Prévert. Por nada. Jacques Prévert foi um génio como há poucos: humanamente inteligente.
O CÁBULA
Diz que não com a cabeça
mas diz que sim com o coração
diz que sim àquilo que ama
diz que não ao professor
está de pé
fazem-lhe perguntas
e todos os problemas ficam postos
De repente desata a rir perdidamente
e apaga tudo
os números e as palavras
as datas e os nomes
as frases e as armadilhas
e apesar das ameaças do s’tor
sob os apupos dos meninos prodígios
em paus de giz de todas as cores
no quadro preto de má morte
desenha o rosto da sorte
(Jacques Prévert, Le cancre, Paroles, 1946, tradução de Pedro Tamen)
LE CANCRE
Il dit non avec la tête
mais il dit oui avec le coeur
il dit oui à ce qu’il aime
il dit non au professeur
il est debout
on le questionne
et tous les problèmes sont posés
soudain le fou rire le prend
et il efface tout
les chiffres et les mots
les dates et les noms
les phrases et les pièges
et malgré les menaces du maître
sous les huées des enfants prodiges
avec les craies de toutes les couleurs
sur le tableau noir du malheur
il dessine le visage du bonheur.
(Jacques Prévert, Paroles, 1946)



