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Jejum guloso

Não faltam fatores de desigualdade. Alguns beneficiam de uma enorme visibilidade: o género, a raça… Outros, não sendo menores, permanecem discretos: de idade, de língua… Não tenho, contudo, memória de hegemonia tão aceite, entranhada e global como, atualmente, a da língua inglesa.

Como as demais, a hegemonia do inglês é solar. Conforme o lado, ofusca ou ensombrece. Jejuar resume-se a um gesto simbólico. Óculos escuros não apagam o sol, ainda menos uma peneira. Mas propicia-se mais do que dar luz à luz.

Christoph Weidiz. Dança mourisca.1530

O simbólico não é inócuo. Interfere na nossa visão do mundo, logo no nosso modo de (re)agir. Jejuar pode contribuir para rasgar horizontes e “dar novos mundos ao mundo”, torná-lo mais rico, complexo e diversificado. Dispensar o que nos enfarta pode revelar-se salutar e, até, estimular a gula. As sombras ganham vida e entregam-se a ritmos, sonoridades e coreografias admiráveis. Acomete-nos a vertigem da descoberta e vacila ligeiramente a dominação que nos submete.

A música é outra. O ar assobia pelas frinchas das janelas e o sobrado range novos ritmos. E noite dentro, em regime lunar, espelham-se nos vidros os nossos próprios fantasmas. Ressoam outras línguas, de uma estranheza que ressoa familiar. Por exemplo, o sefardita, mas também o mourisco e o luso-árabe.

Acontece-nos visitar poesias e canções cuja origem nem sonhamos: o “Belo Manto”, de José Peixoto e Sofia Vitória; a “Hortelã Mourisca”, de Amália Rodrigues; “O Pastor”, dos Madredeus…

E surpreendemo-nos a cismar: como nos empobrece a riqueza que nos dão!

José Peixoto & Sofia Vitória – Belo Manto. Belo Manto — Música para Poesia Luso-Árabe e Poesia Medieval Portuguesa. 2017
Amália Rodrigues – Hortelã Mourisca. 1977
Madredeus – O Pastor. Existir. 1990. Ao vivo, O Pastor, seguido de A Vaca de Fogo e Os Senhores da Guerra, no Palais des Beaux-Arts, Bruxelas, Bélgica, 24 de abril de 1995

Flor de cheiro

Jacques Brel

Há tufos de plantas aromáticas que dominam olfativamente o jardim. Existe um poder do cheiro. De quem as plantas aromáticas não gostam é das abelhas. Não têm o sentido das hierarquias. Pousam onde há pólen, independentemente do cheiro. Pousam sem vénias. Esta fidalguia do cheiro lembra algumas organizações e associações, órgãos da verdade, do sentimento, da reputação e da água benta. Críticos incriticáveis prenhes de direitos. São os anjos da modernidade. Inevitáveis, ronronam no regaço do Estado.

Passei a tarde a ouvir Jacques Brel. Admiro-o com prazer. O Tendências do Imaginário inclui sete canções de Jacques Brel. Acrescento três.

Jacques Brel. Le Plat Pays. C’est comme ça. 1962.
Jacquel Brel. La Chanson des Vieux Amants. Jacques Brel 67. 1967
Jacques Brel. Orly. Les Marquises. 1977.