Tag Archive | canção

Um roteiro e três tenores

Aida Maria Reis da Mata, Paulo João da Cunha Oliveira, Maria João Dias Costa & Anabela Ramos. Mosteiro de São Martinho de Tibães: Uma Visita. GAMT – Grupo de Amigos do Mosteiro de Tibães. 2022.

Assisti à apresentação do roteiro Mosteiro de São Martinho de Tibães – Uma Visita, da autoria de Aida Maria Reis da Mata, Paulo João da Cunha Oliveira, Maria João Dias Costa e Anabela Ramos. Trata-se de um belo, interessante e esmerado resultado de longos anos de proximidade, trabalho e dedicação. Regressei com vontade de ouvir os três tenores: Placido Domingo, Lucciano Pavarotti e José Carreras. Sempre que escuto, com o devido volume de som, as canções Una Furtiva Lacrima, de Donizetti, Rondine Al Nido, de Vincenzo de Crescenzo, e En Aranjuez Con Tu Amor, a partir de Joaquín Rodrigo, arrepiam-se os tímpanos.

Placido Domingo. Una furtiva lagrima, de L’Elisir d’amore, do compositor Donizetti, pela Royal Opera House Orchestra, dirigida por Sir John Pritchard. 1977.
Lucciano Pavarotti. Rondine Al Nido, do compositor Vincenzo de Crescenzo. Andrea Griminelli, Members Of The New York Philharmonic, Leone Magiera. 2019.
José Carreras. En Aranjuez Con Tu Amor. A partir do Concerto de Aranjuez, de Joaquín Rodrigo. The Angel Orchestra of London, conduzida por Micheal Reed. 2014.

Fantasmas

Fantasmas na paisagem, na aldeia, no cemitério e na cama. Yes, I Have Ghosts é uma canção inédita recente de David Gilmour com a filha Romany Gilmour (2020). Um toque de Leonard Cohen em David Gilmour.

David Gilmour & Romany Gilmour. Yes I Have Ghosts. 2020.

Guarda-me um lugar nas tuas urgências

Julien Clerc

Ma préférence (1978), Femmes je vous aime (1982), Fais-moi une place (1990) e Les séparés (1997) são músicas de Julien Clerc, uma voz peculiar, estrela da canção francesa desde os anos setenta.

Julien Clerc. Ma préférence. Jaloux. 1978.
 Julien Clerc. Femmes je vous aime. Femmes, Indiscrétion, Blasphème. 1982.
Julien Clerc. Fais-moi une place. Fais-moi une place. 1990.
Julien Clerc. Les séparés. Julien. 1997. 1997.

Comoção

“E que comover vem do Latim commovere, “mobilizar, mover conjuntamente”, formado de com-, “junto”, mais movere, “mexer, deslocar, mover”. Uma pessoa comovida é alguém que foi retirada do seu estado natural pelo esforço de outros” (https://origemdapalavra.com.br/palavras/comover/).

Amigo desde a adolescência, John Ferreira, pianista e guitarrista, proprietário de um estúdio de gravação no Canadá, enviou-me dois vídeos de Lara Fabian. No primeiro, interpreta a canção Je Suis Malade [do coração], um cover de Serge Lama (ver ambos: https://tendimag.com/2020/08/30/serge-lama/). O segundo vídeo, com a canção Je t’aime, é um exemplo de comoção num concerto de música, de sensibilização e mobilização recíprocas por parte da artista e da audiência. Lamechice?

Lara Fabian. Je t’aime. DVD Nue 2002 Tour. Live, Paris, 2002.

Qualidade e sucesso

Micah P. Hinson

Existe sucesso sem qualidade; e qualidade sem sucesso. Não é preciso ser belo para ser bom, mas ajuda. Uma vida atribulada não impede a criatividade, mas corrói a credibilidade. O norte-americano Micah P. Hinson não é um Senhor Milhões de visualizações. É original, com uma voz e um som próprios. Esteve no Theatro Circo, Em Braga, no dia 1 de Fevereiro de 2019.

Micah P. Hinsob. Beneath The Rose. Micah P. Hinson and the Gospel of Progress. 2004. Marc Riley BBC 6 Music Session 06/11/2012.

Quando um cego chora

Pieter Bruegel. A parábola dos cegos. 1568

O domingo é sagrado, dia de ansiolíticos e antidepressivos naturais. Há quem combine uns e outros. Na vida quotidiana também se entrelaçam (Norbert Elias e Eric Dunning, A busca da excitação, 1986). Por exemplo, durante um espectáculo de futebol as doses alternam-se (Albertino Gonçalves, Vertigens, 2009). Domingo é dia de compensação. Mais vale jogar à sueca em casa do que labirintar no poker de massas. Gosto de namorar o passado. O passado não para de crescer! O presente não o agarro e o futuro não o conheço. O meu passado é um contrabandista: atravessa as fronteiras do tempo. O domingo é dia de música. Música ultrapassada. Um rosário de pérolas barrocas, amuleto contra os carneiros de Panurgo (François Rabelais, Pantagruel, c. 1532). Já coloquei no Tendências do Imaginário a canção When a blind man cries, dos Deep Purple (https://tendimag.com/2015/10/01/when-a-blind-man-cries/). Uma espécie de gata borralheira para o Ritchie Blackmore, a música foi editado num single em 1972. Esperou pelos anos noventa para subir aos palcos e figurar nas antologias. A versão de 1999 de Ritchie Sambora, ex Bon Jovi, pouco difere do original. Mas o vídeo musical é pedagógico. Ensina que 1) não existem abraços electrónicos; 2) Os média podem estimular abraços; 3) Por detrás dos média, há sempre alguém; e 4) os sonhos existem e são humanos.

Só agora, concluído o texto, me apercebi, enquanto procurava um vídeo com melhor resolução, que esta curta-metragem foi escrita e realizada por um português: Nuno Rocha, para a LG Portugal. Pontes.

Richie Sambora (Deep Purple cover) – When A Blind Man Cries | LG — «Momentos». Guião e realização de Nuno Rocha. 2010.

A importância dos outros

Nós somos todos o outro de alguém

São raros os anúncios com textos interessantes. Les autres, da Volkswagen, propõe uma música admirável (Walang Kamatayan, de Pedro Concepcion), imagens apropriadas e um texto invulgar, que lembra o estilo poético de Jacques Prévert.

Estou a tomar uma vacina de imunidade às coisas importantes. A vacina chama-se cinismo. Um aluno de Stanislavski deixa-se seduzir por umas peças de roupa; veste-as todos os dias; passado algum tempo, aquela roupa transforma-o num crítico (Constantin Stanislavski, A construção da personagem, 1948). No que me diz respeito, para cínico não preciso de roupa, basta acordar. Não obstante o meu cinismo, Prévert e Montand são especiais. Há coisas sem importância com grande valor. Têm o valor que lhes damos. A vida pode dignar-se murmurar, repetir, uma canção. Por exemplo, Les Feuilles Mortes (https://www.youtube.com/watch?time_continue=2&v=kLlBOmDpn1s), escrita por Jaques Prévert, musicada por Vladimir Kosma e interpretada por Yves Montand. Na viagem para o vale dos ossos tranquilos, quero ouvir as “folhas mortas”. Segue a tradução do texto do anúncio:

Os outros. Estão por todo o lado, os outros. Mas, sobretudo, lá onde não fazem falta. À frente, os outros não avançam. Atrás, avançam demasiado. Os outros são sempre em maior número do que nós, e chegam sempre ao mesmo tempo que nós. Os outros comportam-se como se os outros não existissem. São demasiado jovens para conduzir, são demasiado velhos para conduzir. Os outros são o inferno. De qualquer modo, assim o dizem os outros. Nós somos todos o outro de alguém.

Acrescento uma canção com letra de Prévert e interpretação de Montand: Dans ma maison. Atente-se às passagens dedicadas à importância dos pés e aos equívocos da palavra pardal.

Marca: Volkswagen. Título: Les autres. Agência: DDB (Paris). Direcção: SI&AD. França, Maio 2019.
Yves Montand. Dans ma maison. Ao vivo. 1981. Poema de Jacques Prévert.

Dans ma maison (Jacques Prévert)
Dans ma maison vous viendrez
D’ailleurs ce n’est pas ma maison
Je ne sais pas à qui elle est
Je suis entré comme ça un jour
Il n’y avait personne
Seulement des piments rouges accrochés au mur blanc
Je suis resté longtemps dans cette maison
Personne n’est venu
Mais tous les jours et tous les jours
Je vous ai attendue
Je ne faisais rien
C’est-à-dire rien de sérieux
Quelquefois le matin
Je poussais des cris d’animaux
Je gueulais comme un âne
De toutes mes forces
Et cela me faisait plaisir
Et puis je jouais avec mes pieds
C’est très intelligent les pieds
Ils vous emmènent très loin
Quand vous voulez aller très loin
Et puis quand vous ne voulez pas sortir
Ils restent là ils vous tiennent compagnie
Et quand il y a de la musique ils dansent
On ne peut pas danser sans eux
Faut être bête comme l’homme l’est si souvent
Pour dire des choses aussi bêtes
Que bête comme ses pieds gai comme un pinson
Le pinson n’est pas gai
Il est seulement gai quand il est gai
Et triste quand il est triste ou ni gai ni triste
Est-ce qu’on sait ce que c’est un pinson
D’ailleurs il ne s’appelle pas réellement comme ça
C’est l’homme qui a appelé cet oiseau comme ça
Pinson pinson pinson pinson
Comme c’est curieux les noms
Martin Hugo Victor de son prénom
Bonaparte Napoléon de son prénom
Pourquoi comme ça et pas comme ça
Un troupeau de bonapartes passe dans le désert
L’empereur s’appelle Dromadaire
Il a un cheval caisse et des tiroirs de course
Au loin galope un homme qui n’a que trois prénoms
Il s’appelle Tim-Tam-Tom et n’a pas de grand nom
Un peu plus loin encore il y a n’importe qui
Beaucoup plus loin encore il y a n’importe quoi
Et puis qu’est-ce que ça peut faire tout ça
Dans ma maison tu viendras
Je pense à autre chose mais je ne pense qu’à ça
Et quand tu seras entrée dans ma maison
Tu enlèveras tous tes vêtements
Et tu resteras immobile nue debout avec ta bouche rouge
Comme les piments rouges pendus sur le mur blanc
Et puis tu te coucheras et je me coucherai près de toi
Voilà
Dans ma maison qui n’est pas ma maison tu viendras.

Pegadas e caminhos

Cresci pendurado na fronteira. Era difícil não ouvir Juan Manuel Serrat. Natural de Barcelona, os seus primeiros discos (1967 a 1969) continham canções em catalão. Em 1968, é convidado para interpretar a canção espanhola “La, la ,la” no Festival da Eurovisão. Insiste que só interpretará a canção se esta for em catalão. É substituído por Massiel que ganha o Eurofestival. Consta que o governo de Franco proibiu a emissão das canções de Joan Manuel Serrat na televisão e na rádio.

Anacronismo à parte, nas viagens ao passado esbarro com o presente! Em 1969, Joan Manuel Serrat publica um disco dedicado a Antonio Machado (Figura 1). As letras combinam versos do poeta. Pertence a este disco a canção Cantares. No presente vídeo, Juan Manuel Serrat interpreta-a ao vivo, 47 anos depois da primeira edição. A canção mais célebre resgata o seguinte poema de Antonio Machado:

“Caminante, son tus huellas
el camino, y nada más;
caminante, no hay camino,
se hace camino al andar.
Al andar se hace camino,
y al volver la vista atrás
se ve la senda que nunca
se ha de volver a pisar.
Caminante, no hay camino,
sino estelas en la mar.
Todo pasa y todo queda,
pero lo nuestro es pasar,
pasar haciendo caminos,
caminos sobre la mar”.
Antonio Machado. Proverbios y Cantares (XXIX). Campos de Castilla. 1912.

Joan Manuel Serrat. Cantares.1969. Ao vivo em 2016.

Este poema é o lema de uma das obras mais notáveis da sociologia: O Método, de Edgar Morin. O autor demarca-se da epistemologia que me habituei a chamar, nas horas azedas, esquelética da razão, uma espécie de esquemática apostada em antecipar destinos e mapear percursos. Na capa da primeira edição de O Método figura a gravura Drawing Hands (1948) de M.C. Escher. Falta apenas uma leve aragem barroca para dispor as mãos em espiral. Antonio Machado, M.C. Escher, Joan Manuel Serrat e Edgar Morin compõem um quarteto significativo. Não compõem?

“Na origem, a palavra «método» significava caminho. Aqui temos de aceitar caminhar sem caminho, fazer o caminho no caminhar. O que dizia Machado: Caminante no hay camino, se hace camino al andar. O método só pode formar-se durante a investigação; só pode desprender-se e formular-se depois, no momento em que o termo se torna um novo ponto de partida, desta vez dotado de método. Nietzsche sabia-o: «Os métodos vêm no fim» (O Anticristo). O regresso ao começo não é um círculo vicioso se a viagem, como hoje a palavra trip indica, significa experiência, donde se volta mudado. Então, talvez tenhamos podido aprender a aprender a aprender aprendendo. Então, o círculo terá podido transformar-se numa espiral onde o regresso ao começo é, precisamente, aquilo que afasta do começo. Foi precisamente isto que nos disseram os romances de aprendizagem de Wilhelm Meister a Siddharta” (Edgar Morin, La Méthode, 1977. Trad. portuguesa: Publicações Europa-América, p.25).

Gata melómana

Camille Saint-Saens

Camille Saint-Saens.

Conheci uma gata meio vadia. Aparecia quando a manjedoura estava vazia. Respondia, contudo, a um chamamento: a música. Aproximava-se a ronronar. Mas não era qualquer música que a cativava. Apenas jazz e clássica. A música que segue tanto encanta a gata como engana Sansão. É uma canção de sedução traiçoeira. Mon coeur s’ouvre à ta voix, da ópera Sansão e Dalila, composta por Camille Saint-Saens, foi apresentada em 1868 a um grupo de amigos. Em tempo de rescaldo da guerra franco-prussiana, estreou em Weimar no ano de 1877. Só teve as honras do Palácio Garnier, sede da Ópera de Paris, em 1892, volvidos 24 anos.

Filippa Giordano. S’Apre Per Te Il Mio Cuor . Ópera Sansão e Dalila. De Camille Saint-Saens. 1877.

Vontade de sentir

Lisa Ekdahl

Lisa Ekdahl.

Rema que não rema, a cabeça afasta-se do arquipélago do pensamento. Perde-se num rodopio de sensações. Max Weber disse realmente o que disse? A cabeça dá voltas e o barco mete água. Um náufrago da razão tem urgência em se agarrar aos sentidos. Se o Max Weber disse o que realmente disse isso é questão, uma questão de muita sabedoria.

Hoje, ouvi Lisa Ekdahl. Após vinte anos de jejum! Nos álbuns mais recentes, a maior parte das canções são em sueco. Acabei por me decidir pelas canções Crazy in Love, do álbum Så mycket bättre – Tolkningarna (2016) e, bastante mais antiga, Nature Boy, do álbum Back to Earth (1998).

Lisa Ekdahl. Nature Boy. Back to Earth (1998).

Lisa Ekdahl. Crazy in Love.  Så mycket bättre – Tolkningarna. 2016.