Um sopro de fé
Sede vós mesmos o canto que ides cantar (Santo Agostinho).
Cantar é rezar duas vezes (Atribuído a Santo Agostinho).
Diversificar é preciso. Variar a língua, a geografia e a disposição. Depois da euforia italiana do Adriano Celentano (NOSTALROCK & NOSENSERAP) e da disforia neerlandesa da Sharon Kovacs (Fragâncias do Inferno), importa mudar o ponto cardeal. Acolher o murmúrio, senão o suspiro de fé intimista, da francesa Camille.
Há tempos, aludi à guturalidade na música (Prazer gutural). Camille representa um expoente do recurso à sonoridade corporal, durante e entre notas. Em muitas das suas interpretações, o acompanhamento confina-se à pluralidade expressiva dos sons emitidos pelo próprio corpo (ver O estádio do respiro e O Capuchinho Vermelho tem medo em casa).

As cinco canções que seguem, em espanhol, foram compostas para a banda sonora do filme musical Emilia Pérez, que, estrado em maio de 2024. acumulou vários prémios: Cannes, Globo de Ouro, Critic’s Choice Awards, BAFTA, SAG Awards, Óscars…
A interpretação de Camille desvia-se do padrão habitual. O canto aproxima-se, agora, de um murmúrio sussurrado e confidente, com uma voz meiga e suave, acompanhada apenas pelo piano.
Diversificar é preciso, para encontrar um pouco. Mas não, necessariamente. para se encontrar. Não me parece que seja exequível, nem desejável. Pelo que se pressente ou anteviu, o encontro consigo que fique para o fim, para o momento em que, segundo a ars moriendi, tudo conflui em jeito de despedida. Não resulta nada preocupante continuar inacabado e irresoluto, desde que, porventura, com o cuidado de respirar uma brisa de fé.
Por uma vez, acrescento, pela qualidade da exposição e do conteúdo, a entrevista de Camille ao programa 15′ de plus, da France Inter, de 11 de outubro de 2024.
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Sementinhas do carnaval

Aproxima-se o carnaval, tempo de preparar a terra para as sementeiras. Se o Principezinho, de Saint-Exupéry fosse uma semente, gostaria de o plantar, com mil cuidados, em muitas más línguas. Porque os espinhos servem para proteger, não para a destruir a rosa. Seguem a canção Seeds (2017), de Camille, e a música Finding the Rose, da banda sonora do filme Le Petit Prince (2015).
O estádio do respiro
Estou a passar uma fase em que a oralidade e a interação presencial se sobrepõem à escrita. Muitas comunicações, algumas a pedir preparação. Por exemplo, sexta, dia 18, cumpre-me a abertura da Conferência Internacional “We Must Take Action #3 O Ensino Artístico no Desenho do Futuro da Arte, na XXII Bienal Internacional de Arte de Cerveira. Não é óbvio nem dá para improvisar. Para inspiração recorro à música, também pouco óbvia. Por exemplo, da cantora e compositora francesa Camille (Dalmais).

Tive um professor, Jean-Louis Tristani, sociólogo e psicanalista, que, para além dos estádios oral e anal descobertos por Freud, inventou o estádio do respiro em que o desejo e o prazer se centram no aparelho respiratório (Le stade du respir, Paris, Éd. de Minuit, 1978). Pois a música de Camille lembra-me o estádio de respiro de Jean-Louis Tristani.
Seguem quatro canções de Camille: Home is where it hurts; Gospel with no Lord; Waves; e Ta Douleur.
Capuchinho Vermelho tem medo em casa
Às vezes, apetece ouvir música. Daquela que não vem se não a procuramos. Camille é um caso à parte no mapa da canção francesa. Pela originalidade e pela aposta em sons corporais. Sozinha em palco, dá um espectáculo. Canta normalmente em francês, mas não resisti à tentação de escolher duas canções em inglês: Ilo veyou e Home is where it hurts.

