Estigma capilar

Proveniente da Alemanha, país que tendemos a associar alguma contenção e ponderação, o anúncio “Hans”, da empresa de cabeleireiros Headhunter, excede-se. Propõe uma paródia ousada, senão atrevida, de uma realidade sensível: as campanhas de consciencialização para a inclusão de crianças com deficiência. Num aspeto o anúncio não deixa de estar certo: os cabelos podem funcionar como estigma, contagiando e desvalorizando a pessoa no seu todo. Recorde-se que, no final da Segunda Grande Guerra, nos dias imediatos à libertação da França, a população rapou o cabelo aos “colaboracionistas” com o regime nazi, expondo-os em cortejos degradantes (ver Violência e Humilhação: https://tendimag.com/2016/01/14/violencia-e-humilhacao/).
Dar é criar

Para Deus Todo-Poderoso, o que conta não é quanto damos, mas quanto amor colocamos na dádiva (Madre Teresa).
O amor faz-nos descobrir capacidades desconhecidas, faz-nos ir muito além de nós para nos aproximarmos dos outros, daqueles de quem gostamos e de quem cuidamos. Assim rezam os dois anúncios da Teva: um homem de idade descobre o talento de cabeleireiro ao pentear a mulher doente; uma filha aprende a dançar para proporcionar momentos de felicidade ao pai. Damos o que somos e o que podemos ser. Dar é criar. Dar é ser maior. É ser maior do que aquilo que somos.
Pêlos
Intriga-me a relação do ser humano com os pêlos e com os cabelos. Um religioso com cabeça e cara rapadas, e.g. um budista, outro, com barba e cabelo coberto, e.g. um ortodoxo ou um copta, qual segue os desígnios de Deus? E os ídolos da música? Como conciliar o cabelo do Elvis Presley, dos Beatles, dos Led Zeppelin , dos Kraftwerk, do Klaus Nomi, dos Misfits e do Billy Corgan?
O nosso corpo é simbolicamente compartimentado. Tem mais pormenores do que uma pintura do Hieronymus Bosch. Para o comprovar, basta visitar uma capela com ex-votos de cera. Pequenas distâncias fazem grandes diferenças. Há partes que se pode tocar, outras que se pode ver e outras que nem sequer imaginar. Retenhamos apenas quatro partes do corpo humano: o couro cabeludo, a face, o peito e as axilas.
Estávamos resignados com o velório da barba e eis que, como Lázaro, ressuscita. Não me lembro de tanta barba em tanta cara. Mas a postura muda consoante a parte do corpo. Um homem pode cortar a barba, depilar o peito, mas preservar as axilas. É o caso do bailarino rejeitado do anúncio da Narta. Em contrapartida, o rival tem barba, mas depila o peito e as axilas. A mesma pessoa pode adoptar atitudes distintas face aos pêlos em função da parte do corpo envolvida. Aqui amor, ali ódio; aqui apraz, ali desfaz.
Esta questão dos pêlos tem alguma importância? Pelo menos, a importância que as pessoas lhe concedem. Há quem despenda, entre cabeleireiro e depilação, mais de cinco horas por semana. Atendendo ao tempo disponível, cinco horas por semana é muito tempo.
Estes dois anúncios, dedicados aos pêlos, merecem atenção. O primeiro, brasileiro, é fantástico. Uma obra-prima. O segundo coloca o dedo na nossa falha filogenética. Os pêlos provêm da costela de Adão ou do rabo do macaco? Os pelos testemunham a parte do diabo? Nas pinturas da Idade Média, os demónios e, sobretudo, os sátiros são peludos. Ressalve-se, contudo, que os peluches e muitos bonecos da Rua Sésamo são angelicais e peludos…
Marca: Play TV. Título: Beard. Agência: F/Nazca Saatchi & Saatchi. Direcção: Pedro Becker. Brasil, 2008.
Marca: Narta Homme. Título: Peau Parfaite. Agência: Les Gaulois. Direcção: Jonathan Gurvit. França, 2015.




