Desbunda

Tradução do texto:
• É melhor limpar o cú com um ganso bem peludinho, desde que se segure a cabeça do ganso entre as pernas. E acreditem na minha honra. Porque sentem no cú uma voluptuosidade mirífica, tanto pela suavidade da penugem como pelo calor temperado do ganso, que facilmente se comunica ao intestino reto e a outros intestinos, até chegar à região do coração e do cérebro. E não pensem que a beatitude dos heróis e semideuses, que estão pelos Campos Elísios, esteja no seu asfódelo ou ambrosia, ou néctar, como dizem estas velhas piadas. Ela está (segundo a minha opinião) em que se limpam o cú com um ganso. (Excerto do capítulo XIII, do livro Gargântua, de François Rabelais, com primeira edição em 1534).
Quando o traseiro se adianta e o baixo se ergue, estamos perante alguma espécie de carnaval ou aproximam-se tempos brutescos. Para o bem e para o mal.
A Ditadura do Riso. O grotesco no poder
Não sei se o século XXI vai ser religioso, agnóstico ou grotesco. Nem tão pouco se vai entoar outro fado qualquer. Não me cumpre ser profeta. Mas esboçar os traços do imaginário grotesco não se resume a um mero exercício académico de confrangedora inutilidade. Talvez importe saber diagnosticar o que lavra nestes feixes de interpelações de aparência grotesca. Na convicção de que não será tarefa fácil destrinçar, por exemplo, o trágico do grotesco, o herético do patético, o desencantamento do reencantamento, a utopia libertária da sereia totalitária (“O delírio da disformidade: o corpo no imaginário grotesco”, Comunicação e Sociedade (vol. 4, 2002, pp. 117-130).
Os ventos parecem favoráveis a totalitarismos de todas as cores e a “personalidades autoritárias” de todos os feitios, com o grotesco a grassar cada vez mais nas esferas do poder.

Talvez não seja de todo despropositado recordar o conceito de personalidade autoritária proposto por Theodor W. Adorno e demais colegas da Escola de Frankfurt no livro The Authoritarian Personality, publicado em 1950. Pretendia-se, então, diagnosticar quais eram os traços psicológicos que predispunham ao fascismo.
Imagem: George Grosz – Os Pilares da sociedade, 1926
Segundo as conclusões deste estudo, as principais caraterísticas da personalidade autoritária são as seguintes:
Convencionalismo – Apego rígido a valores tradicionais estabelecidos pela autoridade dominante.
Submissão Autoritária – Disposição para obedecer e se submeter a autoridades vistas como legítimas.
Agressividade Autoritária – Tendência a rejeitar e punir aqueles que não seguem normas convencionais.
Anti-intelectualismo – Desconfiança em relação ao pensamento crítico e à complexidade das ideias
Preocupação Exagerada com a Ordem e o Poder – Necessidade de estrutura rígida e hierárquica na sociedade.
Hostilidade a Grupos Minoritários – Preconceito contra aqueles considerados “diferentes” ou “inferiores”.
Pensamento Estereotipado – Visão simplista e categórica da realidade, baseada em rótulos fixos.
Projeção Psicológica – Atribuição de impulsos reprimidos a outros, especialmente a grupos marginalizados.
Ceticismo em Relação à Democracia – Preferência por sistemas mais autoritários em detrimento da liberdade individual.
Adorno e seus colegas usaram a Escala F (Fascismo Scale) para medir essas tendências e argumentaram que a personalidade autoritária nasce de experiências de socialização repressiva na infância, especialmente em lares muito rígidos e disciplinadores. Essa teoria foi fundamental para entender o autoritarismo e os mecanismos psicológicos do preconceito. (ChatGPT, 06.03.2025)
Em conformidade, foi construída uma escala, a Escala F, para aferir a propensão dos indivíduos a desenvolver personalidades autoritárias e atitudes favoráveis ao fascismo. Composta por nove dimensões, a escala consiste num conjunto de afirmações perante as quais os entrevistados expressam a sua concordância ou discordância. As nove dimensões são, esquematicamente, as seguintes:
“Convencionalismo – Forte adesão a valores tradicionais da classe média.
Submissão Autoritária – Disposição para obedecer cegamente autoridades consideradas legítimas.
Agressividade Autoritária – Tendência a rejeitar e punir aqueles que desafiam normas convencionais.
Anti-intracepção – Rejeição da subjetividade, imaginação e do pensamento introspectivo.
Superstição e Estereotipia – Crença em destinos sobrenaturais e tendência a categorizar rigidamente pessoas e eventos.
Poder e “Dureza” – Valorização excessiva da força, dominação e hierarquia social.
Destrutividade e Cinismo – Visão negativa e punitivista da humanidade.
Projeção – Tendência a ver nos outros os impulsos reprimidos da própria pessoa.
Sexualidade Exagerada – Preocupação excessiva com normas sexuais e condenação de comportamentos vistos como desviantes. (…)
Os participantes deveriam avaliar frases como:
“Obediência e respeito à autoridade são as virtudes mais importantes que as crianças devem aprender.”
“Nenhuma fraqueza ou gentileza deve ser permitida em um líder.”
“As pessoas podem ser divididas entre grupos superiores e inferiores.”
“A homossexualidade é uma ameaça à sociedade e deve ser severamente punida.”
As respostas eram pontuadas em uma escala de concordância, e pontuações altas indicavam forte inclinação autoritária. (ChatGPT, 06.03.2025).
A página Culture Pub elaborou uma sequência de anúncios que ilustra humoristicamente a ambivalência grotesca do poder que tanto se presta à espetacularização como à ridicularização.
Vítima do seguro de vida

O homicídio motivado pelo resgate do seguro de vida da vítima é tema recorrente nos romances policiais. Com ou sem inspiração, o humor do anúncio Crocodile, da Ladder, é cinzento, brutesco e gratuito.
A Guerra dos Trapos

Les Cent Nouvelles Nouvelles, Frankrijk, c.1475-1500, Glasgow University.
Em matéria de pulsões humanas, a violência faz sombra ao sexo. Na publicidade e na vida. A mistura da violência com o absurdo pode dar azo a um cocktail de humor brutesco. Neste anúncio alemão da Jungstil, duas Atenas furiosas enfrentam-se, até às últimas consequências, na arena dos saldos.
Marca: Jungstil. Título: Gewilt ist Keine Lösung. Agência: Vasata & Schröder. Direção: Kai Sehr. Alemanha, 2009.
Falar verdade a mentir
Este anúncio australiano pôs-me a pensar em marcar uma consulta psiquiátrica. Ando a estranhar demasiado a realidade. Uma pesquisa rápida reconfortou-me. É possível que o anúncio seja uma brincadeira viral. A entidade promotora (Learn for Life Foundation WA) tem uma página elíptica com ares de organização fantasma (http://www.learnforlifewa.org.au/). As farsas acontecem. Algumas tornam-se famosas. Este Set Yourself Free colheu mais de 3 milhões de visualizações no You Tube em dois dias! Sobre este anúncio, está disponível informação mais detalhada na página http://www.watoday.com.au/wa-news/perth-agency-makes-hoax-of-deathly-charity-ad-20140131-31rwe.html. Na realidade, as bases de anúncios que costumo consultar assumem este vídeo como um anúncio efectivo (nem fake, nem hoax). Uma boa alma não publicava este anúncio, por estar a acrescentar mais um elo a uma eventual cadeia viral impostora. Não sou uma boa alma. Fraude ou não, segue um anúncio chocante e desmiolado.
Marca: Learn for Life Foundation Western Australia. Título: Set Yourself Free. Agência: Direct. Direção: Aaron McCann. Austrália, Janeiro 2014.
Autofagia em série
Eis dois anúncios estranhos, fantasmagóricos e obsessivos. No primeiro, a personagem é autofágica. Come-se, colher a colher…. No segundo, as personagens vão-se comendo uma às outras, numa espécie de canibalismo em série. “Go ahead! Lick Something. We lick you very much. If you want lo lick something, lick us. We love to lick. We lick to love. We love lickers”. Lambamo-nos uns aos outros em cadeia. Brutesco.
Marca: Little Baby’s. Título: This is a Special Time. EUA, Agosto, 2012.
Marca: Litlle Baby’s. Título: Love Lickers. EUA, Maio 2012.
Brutesco
A brutalidade e a maldade vêm conquistando, paulatinamente, a primeira cena da publicidade. De um modo que não é esporádico mas sustentado. Atente-se na campanha Messin’ with Sasquatch, da Jack Link’s Beef Jerky, com o lema Feed Your Wild Side. Soma à volta de uma dúzia de anúncios. O protagonista é Sasquatch, um monstro cujo nome remete para o lendário Pé-grande ou para a figura homónima da Marvel Comics. Os episódios são curtos mas brutescos q.b.
Marca: Jack Link’s Beef Jerky. Título: Messin’ with Sasquatch – Joy buzzer. Agência: Carmichael Lynch, Inc. EUA, Agosto 2011.
Marca: Jack Link’s Beef Jerky. Título: Carpool. Agência: Carmichael Lynch Mjz. EUA, Maio 2012.
Marca: Jack Link’s Beef Jerky. Título: Messin’ with Sasquatch – Camp Fire. Agência: Carmichael Lynch, Inc. EUA, Junho 2010.
Marca: Jack Link’s Beef Jerky. Título: Cannonball. Agência: Carmichael Lynch Mjz. EUA, 2011.
Partidas de mau gosto
Partidas de mau gosto, quem, além das vítimas, as leva a mal? O que nos atrai nos gestos de maldade pura que parecem não ter outro propósito senão a prática do mal? Uma “estética do mal” (Wallace Stevens)? De qualquer modo, a maldade gratuita cativa-nos e faz-nos rir, com humor e risos de várias cores: amarelo, azul, verde, negro…
Anunciante: Tips. Loto Sportif. Título: Porte. Agência: Cinema Nouveau. Direcção: Johan Gulbranson. Dinamarca, 1996.
Anunciante: Tips. Loto Sportif. Título: Parking. Agência: Cinema Nouveau. Direcção: Johan Gulbranson. Dinamarca, 1996.
Anunciante: Tips. Loto Sportif. Título: Les Touristes. Agência: Cinema Nouveau. Direcção: Johan Gulbranson. Dinamarca, 1996.



