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O papa-moscas

Figura 1: Gorleston Psalter, XIVe siècle, British Library.

Na areia, o sol queimou os fusíveis e desactivou a censura. Mau presságio.

Anunciante: Mio Digiwalker. Título: The fly. Agência: Duval Guillaume Brussels. Bélgica, Setembro 2007.

Quando a imaginação ultrapassa, pela realidade, o imaginável, arriscamos colher frutos inesperados tais como o anúncio The fly, da Mio Digiwalker: um disgusto ao jeito dos gracejos da Idade Média, propensos ao humor grotesco e escatológico . As três iluminuras inseridas no artigo testemunham esta inclinação.

Figura 2: Book of hours, Flanders 14th century (Baltimore, The Walters Art Museum, W.88, f. 157r)

Figura 1. O protagonista (um monge?) apresenta-se numa postura despudorada. Parece esperar, porventura, uma mosca.

Figura 2. O músico toca dois instrumentos de sopro ao mesmo tempo. Por cima e por baixo. Lembra a polémica introdução da música polifónica durante a Idade Média.

Figura 3. O corpo humano é percorrido por túneis: o digestivo e, segundo o adágio popular, o auditivo. Num túnel pode-se entrar pelos dois lados, bem como sair.

Figura 3: Book of hours (‘The Maastricht Hours’), Liège 14th century.

À lei de conservação da matéria de Lavoisier (1743-1794), “na natureza nada se cria, nada se perde, tudo se transforma”, convém acrescentar o princípio da dinâmica do realismo grotesco: nada está parado, tudo se move.

Trio bocal

O grotesco tem possibilidades insuspeitas. Está sempre a adquirir novas feições. Sendo desconcertante, não deixa, porém, de ser apelativo. Tão apelativo que a publicidade não o larga.

Produto: Atlanta St. Patricks Parade. Título: Irish Eyes. Agência: Fitzgerald & Company Craig Miller Productions. Direção: Craig Miller. EUA, Março 2012.

J.P. Goude: Garganta funda

É ingrato seleccionar anúncios de Jean-Paul Goude. A sua obra é extensa, única e variada. Pode-se começar com o Grace Jones, para a Citroen, e o La Femme et le Lion, para a Perrier. No primeiro, um clássico, a ousadia visionária lembra Dali e Grace Jones veste à perfeição o papel de uma biomecanóide. No segundo, dois felinos enfrentam-se até ao limite do possível; a mulher animal substitui a mulher máquina, e Jean-Paul Goude esmera-se num efeito gráfico que lembra Francis Bacon: a distorção do pescoço e da boca.

Marca: Citroen. Título: Grace Jones. Agência: RSCG. Direção: Jean-Paul Goude. França, 1985.

Perrier. La Femme et le Lion

Marca: Perrier. Título: La Femme et le Lion. Agência : Ogilvy & Mather. Direção : Jean-Paul Goude. França, 1990.

Identidades omnívoras

Weight Watchers. Treat Yourself Better. Fred & Farid. França, 2012.

Pela boca sai o peixe, pela boca entra o sapo. Bocas omnívoras, despachadas, plurais, que gostam de tudo um pouco. Presumivelmente, rizomáticas e incertas. Agora engulo um ananás, logo mastigo um cacto… Assim pintadas, as bocas ostentam um ar Pop Art com trejeitos pós-modernos. Será esta campanha um hino à diferença? Dos alimentos, talvez; dos corpos alimentados, nem por isso. Nunca houve tamanha normalização dos corpos, nem tanta gente arregimentada. Esteja na linha, cuide bem de si, “reaprenda a comer”com a dieta dos “vigilantes de peso”! Belo anúncio, naturalmente pouco preocupado com as identidades omnívoras, sejam elas líquidas ou fragmentadas. Interessam-lhe antes as identidades desfasadas entre o sofá e o sonho.

Marca: Weight Watchers. Título: Treat Yourself Better. Agência: Fred & Farid. França, Janeiro 2012.