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A menina do bairro de lata

Costuma dizer-se que em Agosto nada acontece. Pois…  para muita gente é em Agosto que quase tudo acontece. No dia 12, rumei a Fafe para assistir à apresentação do livro “A Terra do Chiculate – Relatos da Emigração Portuguesa” de Isabel Mateus. Mas também me movia conhecer uma mulher que já foi menina.

Gérald Bloncourt é o grande fotógrafo da emigração portuguesa para França. Retratou os bairros de lata, os locais de trabalho e a própria viagem a salto (ver http://www.bloncourt.net/). As suas fotografias foram expostas no Museu Colecção Berardo, em Lisboa, em 2008, na Casa Municipal da Cultura de Fafe, em 2009, e no Museu da Imagem, em Braga, em 2010. Permito-me destacar quatro fotografias.

Gérald Bloncourt: Immigré portugais dans bidonville de la région parisienne - 1967

Gérald Bloncourt: Il faut faire la queue pour se procurer de l'eau à l'unique robinet de ce bidonville portugais en région parisienne - 1964

Gérald Bloncourt: Le coiffeur du bidonville - Champigny - mai 1964

Na primeira fotografia, um emigrante abre caminho por entre a lama, proverbial no bairro de Champigny. As pessoas, para resguardar a roupa e o calçado, enfiavam sacas de plástico até ao joelho. Nas barracas, não havia água, nem electricidade. A fila para o único fontanário era garantida (fotografia 2). O barbeiro ao ar livre estava em voga (fotografia 3). As barracas não tinham luz. Muitos emigrantes faziam a barba no exterior com o espelho pendurado em qualquer canto. A última fotografia mostra-nos, enfim, a Tina, assim baptizada há escassos três meses. Rodeada de lama, uma boneca e uma bola de azeite na mão. Esta é certamente a imagem mais vista da emigração portuguesa.

Gérald Bloncourt: Menina portuguesa no bairro de St. Denis

Descobriu-se este ano quem era a menina. Como escreve Gérald Bloncourt no seu blogue (http://bloncourt.over-blog.net/): “J’ai retrouvé la petite portugaise, Maria da Conceição Tina Melhorado, le 26 Juin à Paris. Je l’ai photographié dans le Bidonville de St Denis en 1966. Elle est aujourd’hui mère de famille et professeur de Français à Coimbra au Portugal ». Tina também não tinha conhecimento da fotografia. O acaso fez a junção. O símbolo adquiriu corpo, voz e nome. Quarenta e cinco anos depois, Tina mostra-se à altura do ícone.

No dia 12 de Agosto, rumei a Fafe. Não esperava nem uma epifania, nem uma revelação. Testemunhei, outrossim, uma encarnação. Algo que se guarda bem guardado para um dia fazer inveja aos anjinhos do purgatório.