Pulsões obscuras
Amanhã, sábado, vou esturricar a Melgaço para o cortejo histórico. Acabo de escrever alguns textos para a apresentação dos episódios. Entretanto, apetece-me descarrilar.
Conhece os Noir Désir? Únicos, talentosos e ousados, trouxeram uma lufada de ar fresco e turbulento ao rock francês dos anos noventa.
Os mercados e os circuitos em vigor desenham mapas mentais que deformam as geografias da cultura, da arte e da música. Este fenómeno não assenta apenas em efeitos do tipo “loura de Calais” ou “carneiro de Panurgo”. Bebe também na modorra que se acomoda à vulgaridade. Sair deste aconchego, expor-se ao estranho, não é fácil. Mas até os ídolos mais acondicionados correm o risco de empanturrar qualquer Pantagruel ou Sancho Pança.
Pois desviemo-nos das rotas batidas até perder o pé, como Alice. Partilhar as músicas dos Noir Désir não é pouca coisa.
Como diria um amigo, são muito conhecidos na sua terra. Não me acode nenhuma canção francesa que tenha sido tão retomada por outros intérpretes como “Le vent nous portera” (2001). A banda, criada em Bordéus no início dos anos oitenta, arrastou-se até 2010, tendo quase desaparecido de circulação a partir de 2003.
Para este artigo, pesquisei um pouco mais a história da banda. Fiquei desconcertado.
Bertrant Cantat, fundador, compositor, vocalista, guitarra e harmónica, é uma figura complicada: controversa, excessiva, temperamental e instável. Numa palavra, dionisíaca. Por abusar da voz, teve que ser operado às cordas vocais e suspendeu a atividade durante um ano. Pelo seu perfil, na vida e no palco, alguns jornalistas compararam-no a Jim Morrison.
Na noite de 26 para 27 de julho, no quarto do hotel em Vilnius, na Lituânia, agrediu de tal forma a sua companheira, Marie Trintignant, filha do célebre ator Jean-Louis Trintignant, que esta acabaria por falecer no primeiro de agosto. Bertrant Cantat é condenado a oito anos de prisão efetiva. Há quem sustente que este não foi o último caso de violência. Cumprida a sentença, prossegue uma carreira literária e musical interessante.
As portas voltaram a fechar-se, abrupta e tragicamente, a uma banda rock no seu auge. Como diria Vilfredo Pareto, pode ser-se bom músico, bom poeta, bom artista, bom cientista ou bom político e má pessoa ou má companhia.
Seguem cinco canções para ouvir na praia, na montanha ou noutro recanto qualquer, de preferência com auscultadores e sem curto-circuitos.
