Camuflagens
A publicidade namora a arte. Já o sabemos. Este anúncio memorável da Sprite inspira-se nas esculturas vivas e nas fotografias do artista chinês Liu Bolin (ver galeria de fotografias). A publicidade convoca e promove cada vez mais artistas em vias de consagração.
Marca: Sprite. Título: Camouflage. Agência: Bbh. Direção: Peter Thwaites. EUA, Julho 2012.
Fotografias de Liu Bolin
- Liu Bolin 01
- Liu Bolin 02
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- Liu Bolin 04
- Liu Bolin 05
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- Liu Bolin 12
O Sex Appeal do Inorgânico: O Pirolito
Ainda bem que surgem novidades para descobrirmos antiguidades. Um anúncio recente da Chupa-Chups (Spaceship, junho 2012) serviu de pretexto para explorar o arquivo da marca. Deparei-me com o anúncio Here Kitty Kitty de 2000. Pouco há a acrescentar que não esteja à vista. Erotização do objeto e excitação masculina. Uma história simples, ao jeito dos cartoons, embalada numa salsa compassada pelo voyeurismo (o olhar é o alfa e o ómega do anúncio).
Marca: Chupa Chups. Título: Here Kitty Kitty. Prazer oral. Agência: The Richards Group. EUA. Dezembro 2000.
Se considerarmos que o Chupa-Chups é saboreado, sobretudo, por crianças, este anúncio resulta algo embaraçoso. Ou talvez não: “Há poucos anos atrás, a marca iniciou um projeto ousado de conquistar adultos com uma guloseima caracteristicamente infantil. E a empresa vem colhendo resultados surpreendentes. Na Europa, por exemplo, os consumidores acima de 20 anos já respondem por 50% das vendas. Uma campanha capaz de despertar nos adultos o lado, digamos erótico do produto, fez muito sucesso nos Estados Unidos e na Europa. Um anúncio exibia uma loura deslumbrante, degustando sensualmente o pirulito. Título da propaganda: “Prazer. Oral” (http://mundodasmarcas.blogspot.pt/2006/05/chupa-chups-o-pirulito-original.html). Não deve ser fácil visar públicos tão heterogéneos. Que fazer? Dar uma no cravo e outra na ferradura? Ser explícito para uns e implícito para outros? Ser meio implícito? O seguinte anúncio reúne um pouco de tudo. Tanto dá para freudianos como para fraldianos…
Marca: Chupa Chups. Título: Spaceship. Agência: BBH Singapore. Singapura, Junho 2012.
Bisbilhotice de Massas (ComUM online)
Este anúncio de The Guardian (Three Little Pigs; BBH London, UK, Fev. 2012) dedicado à cobertura do “caso dos três porquinhos” constitui um bom preâmbulo a um ensaio sobre a bisbilhotice de massas.
No meu tempo de criança, a bisbilhotice era uma actividade vital da aldeia. Dispunha dos seus locais predilectos: o lavadouro, a taberna, o barbeiro, o alfaiate, a modista. Mas qualquer lugar se prestava ao mexerico. Até o cemitério. Na própria estrada, se procedia à actualização dos repertórios. A bisbilhotice era o principal devaneio lúdico dos meus conterrâneos. Como diria Durkheim, constituía uma das poucas fontes de efervescência local. Nesta “dança da vida”, a informação corre, vertiginosa, de “boca em orelha”. Goza quem conta, mas também quem ouve para logo contar. Goza-se no acto e por antecipação. Um autêntico frenesi apodera-se do portador de um “segredo”. Não descansa enquanto não o dissemina. Mas, como enfatiza Norbert Elias, a bisbilhotice, além de divertimento, também é controlo social, um processo orquestral implacável que visa manter “cada macaco no seu galho”. Fala-se, com alguma oportunidade metafórica, de “corte e costura”: limam-se os excessos e os desvios; remendam-se as rupturas e os rasgões do tecido social. É por receio desta censura colectiva que as pessoas evitavam “andar nas bocas do mundo”.
Os actuais meios de comunicação social colocam-nos a todos nos olhos, nos ouvidos e nas bocas do mundo. Com a internet, a bisbilhotice muda de dimensão, de corpo e de alma. A internet torna-se o principal foco de bisbilhotice e esta transforma-se, paradoxalmente, numa bisbilhotice de massas. Os mexericos ganham em velocidade, alcance e imaterialidade, numa espécie de caixa de ressonância sem fundo, pródiga em mensagens tecnicamente reprodutíveis. Num ápice, uma mensagem espalha-se por uma infinidade de destinos. Logicamente, a informação transita de mensageiro para mensageiro, mas, de modo algum, de boca em boca. Não há interacção face a face. O que faz bastante diferença. Por um lado, o envolvimento e o comprometimento pessoais não são os mesmos; por outro lado, altera-se o próprio contexto da comunicação. Quando recebo uma mensagem no e-mail, no Youtube ou no Facebook, não obstante as ferramentas de interactividade disponibilizadas, a minha capacidade de diálogo com o emissor assevera-se limitada. Em contrapartida, bombardear o mensageiro com dúvidas e questões faz parte do ritual da bisbilhotice tradicional, a expressão de incredulidade valorizando, aliás, o mexerico. O mundo da internet é outro. O intercâmbio raramente apela à ruminação da mensagem, à análise profunda e ao zelo da validação. As trocas tendem a ser instantâneas, fragmentárias e erráticas. Em jeito de brincadeira, permito-me ilustrar esta propensão para a “escrita criativa” com uma paródia do teatro do absurdo. Em palco, um chat entre dois internautas portugueses, um no Porto, o outro na Patagónia:
“Porto: A rádio diz que a VCI está um caos.
Patagónia: Hoje, passou um avião.
Porto: E os transportes vão continuar a aumentar. Estes tipos são uns bananas.
Patagónia: Estão a chegar os primeiros pinguins. Andam muito activos.
Porto: O avião era da TAP?
Patagónia: Não dava para ver, mas talvez fosse.”
Chegados a este ponto da conversa, o português da Patagónia estimou que a matéria carecia partilha: “Avião da TAP sobrevoa a Patagónia”; 534 521 cliques depois, pode ler-se nos jornais do dia seguinte: “Segundo fonte local, um avião da TAP carregado com bananas radioactivas sobrevoou a Patagónia. Desconhece-se o destino.”
A bisbilhotice de massas possui características próprias. Se a bisbilhotice tradicional está vocacionada para o controle social, a bisbilhotice de massas não enjeita processos de descontrolo social, facilitados pela desterritorialização, pela instantaneidade e pela desmaterialização típicas da internet. Os acontecimentos recentes do Norte de África evidenciam a potência dos murmúrios de massas sustentados pelos novos media.
A internet contribui para o recrudescimento da bisbilhotice. Os rumores entopem as caixas dos correios, são tops no Youtube e percorrem as redes sociais, graças a mensagens relativas a agressões filmadas com telemóveis, a Chineses que não morrem, a ladrões de rins e a motoristas de não sei quem que ganham não sei quanto. Como sublinhava Edgar Morin, a propósito do boato, esta turbina de notícias alimenta-se de medos, fantasmas, preconceitos, ressentimentos e cruzadas redentoras. Esta mudança tem consequências. Por exemplo, a tendência para a diminuição do protagonismo do “fait-divers” começa a inverter-se. Por outro lado, se é natural que as redes sociais sejam notícia, não deixa de ser inquietante que essas mesmas redes surjam cada vez mais como fonte da notícia. Mau presságio a comunicação social vir um dia a andar a reboque das redes sociais.
Um último apontamento. Este texto coteja sociologia e ficção. Mais do que dar a ver, pretende dar que pensar. Apanhei este vírus desalinhado com um professor da Sorbonne. Chamava-se Rafäel Pividal, era argentino e, com este jeito, escreveu vários livros e ganhou o Prémio Goncourt, a maior consagração literária em língua francesa. Escrever assim, baralhando estilos e linguagens, é uma arte de lhe prestar memória.












