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Tentação

Sprite Ambition

“Um hoje vale por dois amanhãs, e mais, se tiver algo para fazer amanhã, faça hoje” (Benjamin Franklin, The Way to Wealth, 1757).

Gustav Klimt. Adão e Eva. 1917-18.

Gustav Klimt. Adão e Eva. 1918.

“Lembre-se que o tempo é dinheiro (…) Lembre-se que o dinheiro é de natureza prolífica e geradora. O dinheiro pode gerar dinheiro, e seu produto gerar mais, e assim por diante. Cinco shillings circulando são seis; circulando de novo são sete e três pence e assim por diante, até se tornarem cem libras”.

(Benjamin Franklin, Advice to a Young Tradesman, 1748).

O anúncio Ambition, da Sprite, tem dois protagonistas. Um, velho, parece uma reencarnação de Benjamin Franklin; o outro, jovem, lembra Eva a colher uma garrafa da árvore do prazer. Qual vai ser o destino da bebida?

Entre o dever calculista, moderno, e o prazer imediatista, pós-moderno, qual dos dois vingará? O prazer, que não dá ouvidos ao dever.

Gosto! Gosto de anúncios que nos distraem da catequese do bem e do sucesso.

Marca: Sprite. Título: Ambition. Agência: Hello. Direcção: Perlorian Brothers. Uruguai, Novembro 2015.

Acima das possibilidades

Estes anúncios polacos do Pekao Bank são inquietantes. Configuram um apelo a “uma vida acima das possibilidades”. Datam de 2007. Se tivessem circulado em Portugal, se calhar, começava a crise antes da crise (financeira global de 2008) e, se calhar, os bancos não faliam a conta-gotas. Agora, as famílias não têm a possibilidade de viver acima das suas possibilidades. Mas, “aguentando”, sobra sempre a possibilidade de sobrealimentar o Estado, com cortes e impostos. Por seu turno, o Estado acode ao sector financeiro, que, por sua vez, empobrece e endivida o país. É a “lei da vida”. O fado e a fava de um povo que Rafael Bordalo Pinheiro tão bem caricaturou. Diógenes (413-323 a.C.) “procurava o homem” com uma lanterna. Antes procurasse o sentido de vergonha das elites.

Há quem confunda solução e causa. A última crise não teve origem no endividamento das famílias nem nas “gorduras” da função pública. Em Portugal, como nos demais países, a crise foi financeira, afectando, sobretudo, os bancos e as seguradoras. Que podia fazer o governo? “De mãos atadas”, a solução óbvia foi concentrar o aumento de impostos e a redução das despesas nos funcionários públicos, nos pensionistas e, de um modo geral, nas famílias. Os cortes nos salários e nas pensões, bem como o aumento de impostos, fazem parte de “solução” e não da causa. Existe uma forma eficaz de confundir causa e solução. Chama-se propaganda.

Carregar nas imagens para aceder aos anúncios.

bank-pekao-express-cash-loanMarca: Bank Pekao. Título: Fresco. Agência: Leo Burnett (Warsaw). Direcção: Paolo Monico. Polónia, 2007.

bank_pekao_PAPMarca: Bank Pekao. Título: Cameras. Agência: Leo Burnett (Warsaw). Direcção: Paolo Monico. Polónia, 2007.

30 anos: apontamentos datados

Cartoon by Stephff published in Il Sole-24 Ore.

Cartoon by Stephff published in Il Sole-24 Ore.

1983. Última grande crise económica antes da adesão à União Europeia. Recorreu-se à austeridade não diferenciada: não se tirou a estes para dar àqueles.
1986. Adesão à União Europeia. Nunca os fundos foram tão altos, nem os investimentos tamanhos.
2002. Adesão ao euro. Principal preocupação pública: como proceder à troca dos escudos por euros? O futuro? Entrar no “pelotão da frente” europeu, um barco, maior que o Titanic, já inclinado para um dos lados.
2007. Anúncio da crise do subprime, associada ao sector financeiro. Nalguns países a reacção chegou de avião, noutros de comboio. O desnorte espelhou-se na disparidade das políticas adoptadas.
2011. Assinatura do Memorando (de entendimento sobre as condicionalidades de política económica), consubstanciado na intervenção de resgate da Troika, apostada numa austeridade severa e diferenciada. Uma parte da população, a mais pobre, é castigada; a outra, dá sugestões! Um velho chavão político torna-se, enfim, realidade ostensiva: os pobres pagam a crise dos ricos. Nem as pragmáticas régias ousaram ir tão longe.

Anunciante: Ministerio de Economía.Título: Euro. Campña “Los García” / “La pregunta fatídica”. Agência: TBWA. Espanha, 2001.

Com a cabeça entre as pernas

Honda faces

Ulisse Aldrovandi's 1642 book, History of Monsters (Monstrorum Historia)

Fig 1. Ulisse Aldrovandi’s 1642 book, History of Monsters (Monstrorum Historia).

É difícil, porventura incerto, corrigir um perfil. Pior ainda quando se ajusta sempre o mesmo, do mesmo modo, no mesmo sítio.

Amassa-se a miséria, embala-se e empurra-se para baixo.

Como no monstro da Figura 1, a cabeça desce quase até aos pés. De tempos em tempos, talvez dê para bater as asas e pôr um ovo (Figura 2).

Mas, equacionados todos os pontos e todos os ângulos, equilíbrio redondo, provavelmente, só ao volante de um crossover Honda HR V.

Marca: Honda. Título: Give and Take. Agência: RPA. USA, Junho 2015.

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Fig 2. Ulisse Aldrovandi’s 1642 book, History of Monsters (Monstrorum Historia)

Imagine-se um desfile de monstros acompanhado pelo “Coro das Velhas”, de Sérgio Godinho, “a caminho de Caminha”.

Sérgio Godinho. Coro das Velhas. Era uma vez um rapaz. 1985.

 

 

A Pragmática e o Memorando

É mais difícil escrever e não dizer nada do que escrever e dizer alguma coisa. Carregar na imagem ou no seguinte endereço: http://www.comumonline.com/opiniao/item/1770-a-pragmatica-e-o-memorando.

A Pragmática e o Memorando

A Pragmática e o Memorando

Com o Estado às Costas

Quando observamos, obcecamos. A realidade dança com os nossos fantasmas. Depois de aquecer o olhar com alguns cartoons (ver galeria), o que vislumbramos no anúncio Carry, da Adidas (2004)? O trabalhador português sobrecarregado com taxas e impostos?

Marca: Adidas. Título: Carry. Agência: TBWA\CHIAT\DAY, USA, San Francisco, Direção: Chuck McBride. EUA, 2004.