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Azul celeste e vermelho fogo

“O moribundo está recostado, rodeado pelos seus amigos e parentes. Seguem-se os rituais bem conhecidos. Mas sucede algo que perturba a simplicidade da cerimónia e que os assistentes não vêem; um espectáculo reservado apenas ao moribundo, que, por acréscimo, o contempla com um pouco de inquietação e muita indiferença. A habitação foi invadida por seres sobrenaturais que se apinham na cabeceira do jazente. De um lado, a Trindade, a Virgem e toda a corte celestial; do outro, Satanás e o exército dos demónios monstruosos. A grande concentração que nos séculos XII e XIII tinha lugar no fim dos tempos ocorre, a partir de agora, no século XV, na habitação do enfermo (…) Deus e a sua corte estão ali para constatar como o moribundo se vai comportar no momento da prova que lhe é proposta antes do seu último suspiro e que vai determinar a sua sorte na eternidade. A dita prova consiste numa última tentação. O moribundo verá a sua vida inteira tal como está contida no livro, e será tentado, tanto pelo desespero das suas faltas como pela vanglória das suas boas acções, bem como pelo amor apaixonado das coisas e dos seres. A sua atitude, no resplendor desse momento fugitivo, apagará de um só golpe todos os pecados da sua vida se afasta a tentação ou, pelo contrário, anulará todas as suas boas acções se não lhe resiste. A última prova tomou o lugar do Juízo Final” (Ariès, Philippe, Historia de la muerte en Occidente, Barcelona, Cadernos Crema, 2000,  pp. 48 e 49).

Ars moriendi, Provence 15th century.

Ars Moriendi. Provença. Século XV.

Este descrição assenta que nem um sapatinho de cristal no anúncio Final Breath, da Audi, com a ressalva de que Philippe Ariès aborda a “arte de morrer” nos séculos XV e XVI. Parentes e amigos rodeiam o moribundo. Invisíveis, as forças celestiais e infernais disputam a sua alma. Submetido a uma prova, o moribundo vê desfilar o livro da vida. Um automóvel Audi insinua-se como última tentação. Para onde vai alma? Para o vermelho fogo, a cor do carro, a cor dos demónios. Even a life lived to its absolute fullest isn’t immune to the stopping power of the all-new 2018 Audi.

A morte e o morrer tornaram-se tema corrente na publicidade. Neste caso, estamos perante uma citação, ou uma paródia, com referência implícita. Um excelente anúncio.

Marca: Audi. Título: Final Breath. Agência: Venables Bell & Partners. Direcção: Martin de Thurah. Estados Unidos, Fevereiro 2018.

Um carro e um cavalo

Mazda_6_lines_A60Potência, prazer e movimento. Entre curvas e rugosidades, como as estradas de montanha. Um arado sulca o solo à velocidade de um relâmpago. Muitos anúncios de automóveis seguem este cânone. O cavalo é o grande símbolo e a masculinidade a nota dominante. Os anúncios que seguem não destoam. São variações do mesmo cânone, variações que, como se sabe, podem ser mais originais do que o original.

Marca: Mazda 6. Título: Inspired by motion. Agência: Agência: Cosmo. Direção: Filip Tellander. Suécia, 2013.

Marca: Audi. Título: Desert Run. Direção: Filip Tellander (?). 2013.

Imagens do impossível

Honda Illusions

“Estes anúncios apresentam‐nos, ao jeito de Escher, mundos impossíveis. Impossíveis, mas convincentes: “Tudo ali nos parece muito estranho e, no entanto, é bastante convincente” (Ernst, 2007: 51). Trocam‐nos os olhos e até nos causam um impacto físico. “Falam‐nos ao corpo” (Kerckhove, 1997: 38). Mexem connosco e, sobretudo, conduzem‐nos a experienciar o impossível. Eis a principal razão para o tamanho do quadro ter que ser maior do que o tamanho do mundo. Para se pintar, além das paisagens e das histórias previstas por Alberti, o sonho e o impossível”,
Albertino Gonçalves, “Como nunca ninguém viu”, Martins, Moisés de Lemos et alii (2011), Imagem e Pensamento, Coimbra, Grácio Ed., pp. 139-165.

“Como nunca ninguém viu” (ver pdf) aborda o papel da ilusão nos anúncios publicitários. O novo anúncio da Honda, Illusions (vídeo 1), teve o condão de ressuscitar este texto entre páginas amortalhado (por sinal, um dos meus preferidos). O anúncio da Honda não é de todo original. O Illusions do Audi A6 (vídeo 3) abriu caminho há quase dez anos. Já os conteúdos, inspirados na arte de rua, têm assinatura própria: oito ilusões ópticas de belo efeito.
Pdf: Albertino Gonçalves. Como nunca ninguém viu. Imagem e Pensamento

Marca: Honda. Título: Illusions. Agência: Mcgarrybowen, London. Direção: Chris Palmer. Reino Unido, Outubro 2013.

The Making of of Honda Illusions.

Marca: Audi. Título: Illusions. Agência: Bartle Bogle Hegarty.  Direção:  Anthony Atanasio. Alemanha, Junho 2004.

Sentados sobre Rodas

Audi. Italia Land of QuattroOs anúncios a automóveis formam um mundo à parte. Destacam-se como os mais prendados em recursos humanos, técnicos e criativos. Teimam em tomar-nos por crianças. Crescidas, claro, para mitigar a regressão. Mas as crianças são distintas. O anúncio do Nissan Patrol é filho dos espaços abertos. Potência, técnica e performance, com a nona de Beethoven (versão Wendy Carlos do filme Laranja Mecânica?) promovida a gadget instrumental. Já o anúncio do Audi Quattro nasceu bambino d’oro, figura mítica da cultura italiana. Raça, cultura e arte com sentido de humor…

Marca: Audi. Título: Italia – Land of Quattro. Agência: Verba, Milan. Direção: Federico Brugia. Itália, Janeiro 2013.

Marca: Nissan Patrol. Título: Patrol vs Beethoven. Agência: Whybin TBWA Group Melbourne. Direção:  Dan Reisinger. Austrália, Janeiro 2013.

Hedonologia

“Que prazer ter um livro para ler e não o fazer”…  Quem me dera ser hedonólogo! Dominar a “ciência do prazer” (Amado, Casimiro, 2006, Axiologia Educacional, Universidade de Évora). Mas já não vou a tempo.

Dustin O’Halloran. Opus 23. Piano Solos Vol. 2. 2006.

Dustin O’Halloran é um jovem pianista norte-americano residente na Alemanha. Ouvi pela primeira vez o seu Prelude 2 no anúncio A Rythm of Lines, da Audi (2007). Dustin O’Halloran presta-se à ciência do prazer. Seguem os vídeos respeitantes à composição Opus 23 e ao anúncio A Rythm of Lines.

Marca: Audi A5. Título: A Rythm of Lines. Agência: BBH, London. Reino Unido, 2007. Música: Prelude 2, de Dustin O’Halloran.

Vencidos da vida

Quem faz o simples, também é capaz de complicar. Os comportamentos e as feições dos animais deste anúncio produzido pela Albiñana Films espelham um desânimo encurralado. Estamos perante os novos “vencidos da vida”. De que sofrem? Do mal da cidade. Pelos vistos, o Audi Allroad V8 Quatro, também não. E as oportunidades, Senhor! As oportunidades! O maná contemporâneo dos desvalidos…

Marca: Audi Allroad. Título: Zoo. Agência: DDB Barcelona. Direção: Ramses. Produção: Albiñana Films. Espanha, 2004.

Uma vez que convoquei os “vencidos da vida”, gostava de lhes gritar, à distância de mais de um século, que a realidade não vence as ideologias. Mas o mais avisado é calar-me: a realidade não vence as ideologias, mas a vida, talvez…

Vencidos da vida. Da esquerda para a direita. De pé: Conde de Sabugosa, Carlos de Lima Mayer, Carlos Lobo de Ávila, Oliveira Martins, Luís de Soveral, Guerra Junqueiro, Conde de Arnoso. Sentados: Ramalho Ortigão, Eça de Queiroz, Conde de Ficalho e António Cândido.

A velocidade do passado

La Vitesse du Passé (2011, com mecenato da Audi) é uma curta-metragem que conta uma história de amor tensa, trágica e intemporal em que se conjugam a realidade e a ficção, o sensível e o oculto, o instante e a duração. Neste conto poético e onírico, a justaposição de várias temporalidades provoca uma suspensão da gravidade (mais uma para a coleção) em foco neste trailer. Clicar no seguinte endereço (http://vimeo.com/38652739) ou na imagem para visionar.

Dominique Rocher. La vitesse du passé. Trailer

Amigos da escuridão

”É errado dizer: Eu penso: dever-se-ia dizer: sou pensado – Perdão pelo jogo de palavras – Eu é um outro”. Assim escrevia Arthur Rimbaud em 1871. Somos bipolares, plurais, mutantes, camaleónicos, caleidoscópicos… Em suma, “eu sou vários”. Não somos feitos de uma peça só, não somos clarins, nem violinos. Sabemos isso há muito tempo. Basta ler as “Metamorfoses” de Ovídio, contemporâneo de Cristo. Não foi preciso esperar por Bakhtin, Goffman, Strauss, Bauman ou Deleuze. Duas figuras trágicas assombram, especialmente, o nosso imaginário: o lobisomem e o vampiro, ambos (nem) bestiais e (nem) humanos. O seu rastro no cinema é obsessivo: há dezenas de filmes com o lobisomem e o Drácula de Tod Browning data de 1931. Vem este arrazoado inútil a propósito do novo anúncio da Audi em que o carro assume o papel de um implacável exterminador de vampiros incautos. Bestial! Mas ecologicamente inconveniente. Importa proteger as espécies amigas da escuridão. Importa proteger-nos. Dostiévski, Baudelaire, Rimbaud, Wilde, Kafka agradecem.

Marca: Audi. Título: Vampire Party. EUA, Janeiro 2012.

Kit mitológico

Eis-me regressado de duas mostras do intelecto na luminosa Lisboa. Já sentia saudades de deitar o cérebro nos lençóis do ecrã.

A animação dos objectos é uma tentação ancestral. Atestam-no As Metamorfoses de Ovídio (43 a.C./17 d.C.) ou o Quebra-Nozes e o Rei dos Ratos de E.T.A. Hoffmann (1776 – 1822). Pedras, bonecos, árvores, utensílios, tudo pode ganhar vida com o sopro da imaginação. No anúncio “hummingbird”, um minúsculo pássaro metálico voa caprichosamente até encontrar a alma gémea: uma majestade mecânica denominada Audi.

Anunciante: Audi. Título: Hummingbird. Agência: BBH, UK. Direcção: Daniel Barber. Reino Unido, Setembro 2011.

Quem diz mitologia, diz Grécia. E grego é o anúncio “A Night at the Store” (uma paródia de Night at the Museum) composto por uma animação (libertação temporária) de objectos, muito ao gosto dos contos de E.T.A. Hoffmann.

Anunciante: Wind Telecommunications. Título: A Night at the Store. Agência: Leo Burnett, Athens, Greece. Direcção: Matthias Zentner. Grécia, Setembro 2011.

De têmpera divina, são os hamburgers Carl’s Jr, amassados pela fúria dos deuses e devorados por amazonas, nãomáquinas, desejantes.

Nestes tempos em que os homens e as mulheres ainda são seres humanos, a mitologia e a fantasia portam-se ambas bem. Palavra de Roland Barthes.

Anunciante: Carl’s Jr. Título: Hamblor, God of Hamburgers. Agência: David&Goliath, USA. Direcção: Guy Shelmerdine. EUA, Setembro 2011.